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#Contos#Literatura Brasileira

Um dia de entrudo

Por Machado de Assis (1874)

— Que! pois tiveram também a audácia? Não admira! não me meteram no banho? Tibúrcio sentiu uma espécie de satisfação em ver que não era a única vitima. Pouco tempo depois subiu Batista, e, sem ousar aparecer na sala, pediu a D. Angélica que lhe desse alguma roupa que vestir.

Foi satisfeito.

D. Angélica mandou vir o bacalhau com que se castigavam os escravos e foi abaixo em pessoa.

— Andem! lá para cima! quando não... vai tudo a vergalho.

Os rapazes obedeceram.

D. Angélica não era só mulher de prometer; era mulher de cumprir.

A tarde caía; os rapazes adiaram a festa para os dias seguintes. Mudaram também de roupa e deixaram-se ficar na sala de jantar.

Batista voltou à sala um pouco envergonhado. Tibúrcio já estava mais calmo; D. Maria começou a rir e D. Angélica encaixou uma anedota a respeito de Sanches. As moças sentaram-se também.

— Gastaram todos os limões? perguntou D. Maria em ver dois tabuleiros cheios.

— Todos, não, disse Ermelinda; ainda temos para amanhã.

— Isso, sim, disse Tibúrcio, isso é brincadeira que eu aprovo; o limão é delicado e diverte a gente.

— Diz muito bem, assentiu Batista.

— Mas o banho!

— É selvagem!

— É brutal!

— Deve acabar!

— E há de acabar!

— A civilização não comporta...

— Apoiado!

Os rapazes voltaram à sala. Tibúrcio dirigiu-se a D. Maria para dizer alguma coisa que o impedisse de olhar para os seus algozes; ao passo que Batista tirou o relógio, trouxe-o ao ouvido, deu-lhe corda, etc... tudo para evitar o primeiro olhar dos filhos de D. Angélica. Ninguém reparou que os rapazes traziam as mãos nos bolsos grandes dos paletós de brim.

Sentaram-se ambos a conversar. Ao princípio nem Tibúrcio nem Batista lhes dirigiu a palavra; mas, convindo evitar o ridículo do amuo depois de banho, pouco e pouco foram conversando com eles e restabeleceu-se a confiança.

Não tardou porém que Carlos pregasse em Tibúrcio um rabo de papel, e Benjamim outro em Batista. O de Batista não foi visto logo pelas outras pessoas. Mas como Tibúrcio estava de costas para o grupo das moças, viram estas logo o apêndice posto por Carlos e riram alegremente. Tibúrcio desconfiou. Olhou para Carlos; este ficou sério.

— De que se riem as moças? perguntou Tibúrcio.

— Não sei, respondeu Carlos; deixe ver. Ah! é uma mancha de cal no seu paletó, deixe limpá-la.

Tibúrcio consentiu de boa fé; e Carlos fingindo que limpava o paletó, quebrou-lhe um ovo nas costas.

Sentiu Tibúrcio que o rapaz não o limpava, antes o sujava, a gema entornou-se parte no chão, D. Angélica correra para Carlos, este correu pela sala, levantou-se Batista para intervir, mas arrastando também um rabo de papel; Benjamim aproveitou a ocasião e quebrou um ovo nas costas de Batista.

Não tenho forças para descrever o barulho que se seguiu a esta cena. O tumulto foi geral; só se acalmou indo os dois rapazes para um quarto onde D. Angélica os fechou a chave. Com a noite veio o descanso. As visitas se foram embora, exceto D. Maria e a filha que resolveram ficar até Quarta-feira de Cinzas.

Pelas 9 horas da noite, D. Angélica foi soltar os prisioneiros. Achou-os jogando as cartas. Anunciou-se o chá, e eles vieram para mesa, onde foram recebidos com um olhar furibundo da parte de Teresa, cujo namorado fora vítima das suas travessuras. Quando se iam deitar, o moleque, que servia de intermediário entre Benjamim e Lucinda, foi aos dois rapazes e disse-lhes que precisava dizer uma coisa.

Levado ao quarto, disse que Batista tinha por costume pular de noite os quintais até o da casa de D. Angélica e conversar aí para a janela onde a sinhá moça Teresa ficava até muito tarde.

Esta comunicação inesperada tinha a seguinte explicação.

O moleque servia também de corretor entre Teresa e Batista; mas não tendo obtido deste as vantagens que esperava, e principalmente tendo-lhe ele recusado uma jaqueta nova que lhe pedira, entendeu que devia vingar-se assim.

Realmente, Batista podia dar-lhe uma ou duas jaquetas; mas como era muito econômico, entreteve o moleque na esperança e esse foi o seu mal.

Carlos ficou espantado com a notícia.

— Será verdade? perguntou ele a Benjamim.

— É nhonhô, insistiu o moleque, ele quer casar com sinhá-moça Teresa, mas é um sovina...

— Virá ele hoje?

— Parece que vem.

Idéia infernal surdiu no espírito de Carlos. Era esperar o Romeu dos quintais e pregar-lhe nova peça.

— Um banho! disse o moleque quando Carlos consultava o irmão.

— Sim, um banho! disse Benjamim.

— Não, disse Carlos, coisa melhor; pensemos nisso.

Enquanto os dois estavam em conciliábulo, as raparigas foram deitar-se. Dormiam no mesmo quarto Lucinda e Teresa.

— Estou muito zangada com o Benjamim, disse Lucinda; não gostei que fizesse aquilo no teu... noivo.

— Cala a boca! não fales alto! Não foi ele só, foi o Carlos, que é sempre o autor destas idéias.

— Amanhã hei de passar uma sarabanda nos dois.

— Não digas nada, é melhor.

— Por quê?

— Porque...

— Vais casar, bem sei.

Teresa sorriu.

— Depende de mim, disse ela.

— Titia já te perguntou alguma coisa?

— Nada.

— Mas há de falar...

— Amanhã, talvez.

— Sim, amanhã...

— Que é isto?

— Isto o quê?

(continua...)

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