Por Machado de Assis (1877)
— Não são muitos, mas espero que me não recuses isso; é um benefício para ti... Seixas cedeu; José Marques contou mais um argumento para o caso das vantagens dadas pelo compromisso da ordem em favor dos que lá metessem certo número de irmãos. No mesmo dia em que Seixas foi proposto e admitido, José Marques procurou-o em casa, que já não era no Beco do Cotovelo, mas na Rua dos Barbonos.
— Com que então, tens pouco recursos? disse ele logo que entrou.
— Bem o sabes.
— Maganão!
— Que queres dizer com isso?
— Velhaco!
— Mas...
— Pelintra!
— Acaba!
— Ainda em cima dissimulado! Já não tens em mim um amigo na vida e na morte; esquivas-me; desprezas-me...
— Explica-te.
— Não sabes nada? Não sabes que o Madureira...
— Que tem?
— Vejo que ignoras tudo. Pois fica sabendo que ele quer dar-te interesse na casa...
— O Madureira?
— Disse-mo hoje. Escuso acrescentar que o aprovei em tudo e por tudo... Estás contente? Dá cá esses ossos.
José Marques abriu os braços a Seixas, que o chegou ao peito com a mesma ternura com que abraçaria um jacaré. Mas, alegrando-o a notícia, havia em seu rosto uma expressão de bem-aventurança que o amigo saboreou deliciosamente.
— Quando eu dizia que havíamos de vencer a sorte! exclamou José Margues. Seixas não se deu por achado, a primeira vez que esteve com Madureira; nem perdeu com isso. Daí a dias, Madureira comunicou-lhe o projeto, que o outro ouviu com o
reconhecimento próprio da ocasião.
Afigurando-se-lhe mais propícia a estrela, Seixas resolveu definitivamente trazer para sua companhia a filha Elvira e sua mãe. Antes de o fazer, expôs todo o seu passado a Madureira, e comunicou a intenção que tinha de consagrar pelas bênçãos da Igreja as relações que o coração atara entre ele e a senhora D. Lúcia do Carmo. Aprovou-o o negociante. Assim se fez, e um mês depois recebiam-se os dois na igreja da Candelária, sendo padrinhos Marques e Madureira. A princípio Seixas só se lembrara do segundo; mas este fez-lhe ver que era conveniente convidar igualmente José Marques. O guarda livros cedeu, e o casamento celebrou-se, não sabendo os convidados qual dos dois era o noivo, se Germano Seixas, se José Marques, tão alegre andava este naquela noite.
A noiva tinha um ar de sogra; mas a alegria não a podia haver mais juvenil. Após longos anos de desamparo e aflições, via-se enfim constituída em família. É certo que o devia menos ao próprio mérito do que ao amor que Seixas tinha à filha e ao desejo de lhe deixar um nome, e, se pudesse ser, algum pecúlio. Qualquer que fosse, porém, a causa eficiente, era feliz e isso lhe bastava.
Assim postas as coisas e as pessoas, vejamos agora os sucessos, que põem termo a esta curta, mas substancial narrativa.
IV
Os meses correram com a velocidade que só se sente de certa idade em diante, quando a velhice nos acena de mais perto e as cãs começam a povoar a cabeça e a barba. Correram os meses, e mais depressa correu Madureira para a sepultura, aonde baixou em certa manhã de setembro, depois de três dias de moléstias. Já então Seixas era seu sócio. Aberto o testamento, viu-se que o defunto, não tendo parente, dispunha alguns legados e instituía seu herdeiro universal o feliz pai de Elvira. Este e José Marques eram nomeados testamenteiros.
Seixas sentiu a morte do sócio e protetor; mas é força confessar que a herança lhe suavizou grandemente a mágoa. É esse um dos bons efeitos das heranças. Seixas conheceu pela última vez a grande alma de Madureira.
Vê o leitor que estamos longe do dia em que Seixas, cansado de esperar o almoço, resolvera ir comê-lo na eternidade. Agora era um comerciante apatacado e conceituado. Tinha família. Quando ele pensava nisso sentia um tremor nervoso como de quem recorda o terremoto de que escapou; mas ao mesmo tempo comprazia-se em recordar que de baixo subira tanto. Um só ponto negro havia: era José Marques, que (na opinião de Seixas) se constituíra seu eterno perseguidor. Seixas rememorava a cena do Passeio Público, até a chegada de José Marques; logo que José Marques entrava, ele desviava dali o pensamento como de um crime. Agora não podia vê-lo; padecia só com encará-lo. José Marques, entretanto, era-lhe cada vez mais afeiçoado, e fazia-o sentir com franqueza. Nunca lhe pedia favores; exigia-os, e era justo, porque o salvara da morte. Nem por isso Seixas o convidara um dia de anos da filha. Quando José Marques soube disso ficou consternado. Não se deteve; foi dizer-lho. Seixas recorreu ao meio mais vulgar e usado entre todos.
— Não te convidei? disse ele. Admira-me que o digas, porque eu próprio escrevi uma carta... Não importa! Vai lá logo.
— Decerto que vou; mas sempre quis dizer-te...
— Fizeste bem.
— Sim, era realmente de espantar que tu me tratasses por esse modo. Podes ter defeitos; cada um de nós tem os seus; mas ingrato, não! tu não és ingrato.
— Pois!
— Não és. A que horas?
— Vai jantar.
— Vou, vou.
E foi.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um almoço. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.