Por Machado de Assis (1994)
CAMÕES Crer que a última palavra de vossos lábios será o meu nome. Será?... Tenha eu esta fé, e não se me dará da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens.
D. CAT. Acabai!
CAMÕES Que mais?
D.CAT. Não sei; mas é tão doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, não, não acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente a escutar-vos.
CAMÕES Ai de nós! A perpetuidade é um simples instante, um instante em que nos deixam sós nesta sala!
(D. CATARINA afasta-se rapidamente) Olhai; só a idéia do perigo vos arredou de mim.
D. CAT. Na verdade, se nos vissem... Se alguém aí, por esses reposteiros... Adeus...
CAMÕES Medrosa, eterna medrosa!
D. CAT. Pode ser que sim; mas não está isso mesmo no meu retrato? Um colhido ousar, uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento...
CAMÕES
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.
D. CAT. (indo a ele). Pois então? A vossa Circe manda-vos que não duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, tão próprios do lugar e da condição; manda-vos crer e amar. Se ela às vezes foge, é porque a espreitam; se você não responde, é porque outros ouvidos poderiam escutá-la. Entendeis? É o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta... e agora... (Estende-lhe a mão) Adeus!
CAMÕES Ide-vos?
D. CAT. A rainha espera-me. Audazes fomos, Luís. Não desafiemos o paço... que esses reposteiros...
CAMÕES Deixa-me ir ver!
D. CAT. (detendo-o). Não, não. Separemo-nos.
CAMÕES Adeus! (D. CATARINA dirige-se para a porta da esquerda;
CAMÕES, olha para a porta da direita).
D. CAT. Andai, andai!
CAMÕES Um instante ainda!
D. CAT. Imprudente! Por quem sois ide-vos, meu Luís!
CAMÕES A rainha espera-vos!
D. CAT. Espera.
CAMÕES Tão raro é ver-vos!
D. CAT. Não afrontemos o céu... podem dar conosco...
CAMÕES Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e à fé que o faria respeitar!
D. CAT. (aflita, pegando-lhe na mão). Reparai, meu Luís, reparai; onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domai esse gênio arrebatado. Peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?
CAMÕES Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!
D. CAT. Adeus!
CAMÕES (com a mão dela presa). Adeus!
D. CAT. Ide... deixai-me ir!
CAMÕES Hoje há luar; se virdes um embuçado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e então, já não é o sol a beijar de longe uma rosa, é o goivo que pede calor a uma estrela.
D.CAT. Cautela, não vos reconheçam.
CAMÕES Cautela haverei; mas que me reconheçam, que tem isso? Embargarei a palavra ao importuno.
D.CAT. Sossegai. Adeus!
CAMÕES Adeus! (D. CATARINA dirigi-se para a porta da esquerda, e pára diante dela, à espera que CAMÕES saia. CAMÕES corteja-a para um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. – Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece CAMINHA. – D. CATARINA dá um pequeno giro e sai precipitadamente. – CAMÕES detém-se. Os dous homens olham-se por um instante).
CENA IX
CAMÕES, CAMINHA
CAM. (entrando). Discreteáveis com alguém, ao que parece...
CAMÕES É verdade.
CAM. Ouvi de longe a vossa fala, e reconheci-a. Vi logo que era o nosso poeta, de quem tratava há pouco com alguns fidalgos. Sois o bem-amado, entre os últimos de Coimbra.
— Com que, discreteáveis... Com alguma dama?
CAMÕES Com uma dama.
CAM. Certamente formosa, que não as há de outra casta nestes reais paços. Sua Alteza, cuido que continuará, e ainda em bem, algumas boas tradições de El-rei seu pai. Damas formosas, e, quanto possível, letradas. São estes, dizem, os bons costumes italianos. E vós, Senhor Camões, por que não ides à Itália?
CAMÕES Irei a Itália, mas passando por África.
CAM. Ah! ah! para lá deixar primeiro um braço, uma perna, ou um olho... Não, poupai os olhos, que são o feitiço dessas damas da corte; poupai também a mão, com que nos haveis de escrever tão lindos versos; isto vos digo que poupeis...
CAMÕES Uma palavra, Senhor Pedro de Andrade, uma só palavra, mas sincera.
CAM. Dizei.
CAMÕES Dissimulais algum outro pensamento. Revelai-mo... intimo-vos que mo reveleis.
CAM. Ide à Itália, Senhor Camões, ide à Itália.
CAMÕES. Não resistireis muito tempo ao que vos mando.
CAM. Ou à África, se o quereis... ou a Babilônia... A Babilônia é melhor; levai a harpa ao desterro, mas em vez de a pendurar de um salgueiro, como na Escritura, cantar-nos-eis a linda copla da galinha, ou comporeis umas outras voltas ao mote, que já vos serviu tão bem:
Perdigão perdeu a pena,
Não há mal que lhe não venha.
Ide a Babilônia, senhor Perdigão!
CAMÕES (pegando-lhe no pulso). Por vida minha, calai-vos!
CAM. Vede o lugar em que estais.
CAMÕES (solta-o). Vejo; vejo também quem sois; só não vejo o que odiais em mim.
CAM. Nada.
CAMÕES Nada?
CAM. Cousa nenhuma.
CAMÕES Mentis pela gorja, senhor camareiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.