Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Quinhentos contos

Por Machado de Assis (1859)

— Viste-a?

— Vi, respondeu Batista. E nem de propósito. É esta a mulher de quem te falei há pouco.

— De quem falaste? o quê?

— É o casamento que eu tenho em vista para meu filho, respondeu Batista.

— É singular, é também esta...

— A do Luís?

— Sim!

Batista e Alves olharam-se algum tempo.

Afinal Batista rompeu o silêncio.

— Poucas vezes se dará coisa semelhante, disse ele. Dois homens separados pelo oceano terem a um tempo a mesma pretensão.

— É incrível, mas é verdade!

— O que nos vale é que esta circunstância em nada pode alterar a afeição de dois amigos velhos.

— De modo nenhum! É coisa que não pode pesar na balança da amizade!

— Está dito!

E como se ambos estivessem cheios da mesma idéia, voltaram-se um para o outro, e ao mesmo tempo soltaram estas duas terríveis palavras:

— Tu cedes!

— Quem? disse Alves.

— Eu? disse Batista.

— Ceder! tomou o primeiro. Em nome de quê? por que motivo?

— Não somos amigos? Que é a amizade senão o afeto mútuo e o concurso recíproco?

— Mas, meu caro, disse Alves, isso tudo é verdade; mas se é verdade é a meu favor, porque o sacrifício deve partir de ti e não de mim... porque há longo tempo que eu cá estou na luta, e não vejo razão para que te ceda o campo, a ti, que vens de fora, e apenas tens na cabeça a sombra de um projeto.

Batista sorriu ouvindo as palavras de Alves, e replicou:

— Se a prioridade é razão, é razão a meu favor; o meu projeto é anterior ao teu.

— Mas se ela enviuvou há oito meses, e nesse tempo ainda estavas na Europa!

— Quando lhe deitei os olhos ela ainda estava casada.

— Contavas com a morte do marido?

— Não tinha certeza matemática; mas era uma espécie de loteria; comprei bilhete e esperei que andasse a roda. Desgraçadamente para o defunto a roda correu e eu tirei a sorte grande. Nem era necessário grande tino para ver que entre o marido já idoso, e a mulher na flor da idade, era ele quem devia despedir-se primeiro deste mundo de enganos e de lágrimas. Pensei mal?

Já a este tempo Alves tinha-se levantado e passeava pela sala, agitado e fumando em dois sentidos. Quando Batista acabou de falar, Alves parou e disse-lhe:

— Mas enfim, é dever de lealdade...

— Adeus! temos agora lealdade; mas quem fala em lealdade? Tu não farias o mesmo no meu lugar?

— Queres então brigar comigo?

— Qual brigar! exclamou Batista. Não há briga possível entre dois amigos. Pode haver conflitos de interesses; mas o interesse não fica empenhado nos pactos do coração; é por sua natureza uma restrição mental. Queres casar teu filho com a viúva; és lógico e mostras ser homem de juízo; mas eu também quero ter juízo e mostrar-me lógico.

— Mas logo esta! disse Alves.

— Ave rara, meu amigo. Só vejo um meio de conciliar tudo.

Alves, que passeava agitado, parou, e disse:

— Qual é?

— Era cederes tu, e deixar que o meu rapaz...

— Ora!

— Não serve? perguntou Batista levantando-se. Nesse caso lutaremos ambos. Vença quem for mais hábil ou mais feliz. Agüenta-te nos estribos, porque eu vou a toda a desfilada.

— Farei por ser bom cavaleiro.

Nesse momento entravam na sala os dois rapazes que eram a causa, sem o saberem, daquele conflito.

Batista já tinha o chapéu na mão, e apenas avistou Carlos disse-lhe que saísse com ele, acrescentando baixinho que aquilo ali era território inimigo. Carlos compreendeu que havia alguma coisa, e modelou a sua atitude na despedida pela do pai.

Apenas saíram os dois, Alves, que nem respondera ao frio cumprimento de Batista, voltou-se para Luís, que lhe perguntou:

— Que é isto, meu pai?

— Nada. Aqueles dois são inimigos nossos.

— Por quê?

— Pretendem a mão da nossa Helena.

— Ah!

— Serás capaz de vencê-los?

— Espero!

— Se venceres terás coroado os meus dias. Agora é a nossa honra que está em jogo.

CAPÍTULO II

Como vimos, a amizade profunda, ao que diziam, entre Batista e Alves, começada na infância, provada na adversidade, confirmada na abundância, acabava de esvair-se, como um novelo de fumo, ao simples impulso de um interesse particular. Um valia o outro.

É fácil de crer que, desde aquele fatal dia, os dois amigos velhos não se visitaram mais, e se alguma vez se encontravam juntos apenas se cumprimentavam, salvo se uma conversa geral obrigava os dois a se comunicarem, o que faziam por interesse próprio, a fim de não entrarem em explicações.

A bela viúva, neta do coronel, fora o pomo de discórdia entre aqueles dois deuses, agora em guerra aberta. Mas ela não o sabia, ao menos nos primeiros dias, posto que Deus lhe houvesse dado um espírito superiormente sagaz.

Helena tinha um grande coração, e custava-lhe muito a crer em certas baixezas humanas. Alma generosa e ardente, só acreditava no mal quando ele era evidente, e ainda assim tinha uma desculpa, uma espécie de perdão, que era um resultado da sua própria magnanimidade.

Desde os primeiros dias reparou ela que entre os dois amigos não havia já a intimidade que vira no dia em que os encontrou juntos em casa de Alves. Estranhou, mas não se lembrou, nem podia lembrar-se, que a causa da discórdia era ela, causa inocente, mas real.

(continua...)

123456789
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →