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#Contos#Literatura Brasileira

Quem boa cama faz...

Por Machado de Assis (1860)

E esperava.

Alguns dias depois da conversa de Luís e Ernesto, foi este apresentado em casa do desembargador Fonseca. Há homens que nunca perdem o gesto e o ar do centro em que vivem. Ernesto não era assim. Numa casa de família era um homem circunspecto e grave. Naquela ocasião esta mudança era essencial; mas não lhe custava, e tudo correu às mil maravilhas. O desembargador ficou encantado com o amigo de Luís; D. Teresa, sua mulher, achou-lhe uma série de boas qualidades que sinceramente julgava perdidas na mocidade. Ernesto foi convidado a considerar aquela casa como sua.

No dia seguinte, Luís veio dizer-lhe que a prima lá estava e que convinha ir nessa noite.

— Não, senhor, disse Ernesto; convém pelo contrário que eu lá não vá. É preciso que teu pai e tua mãe me preparem o terreno.

Efetivamente tanto o desembargador como a mulher não se fartaram de elogiar o amigo de Luís. Tudo lhe achavam: gravidade, instrução, graça, boas maneiras, formosura, e mais um não sei quê que insensivelmente a todos arrastava. A curiosidade de Fernanda e de sua mãe foi naturalmente excitada ao último ponto.

Ernesto voltou à casa do desembargador alguns dias depois, e amiudou as visitas à proporção que a intimidade ia sendo maior. Ao cabo de um mês era quase um amigo velho.

— Prouvera a Deus, dizia consigo o desembargador, que todos os amigos de Luís fossem como este!

Ernesto não deixava ocasião de louvar as qualidades de Luís Fonseca. Referia ao desembargador as discussões que costumava a ter com ele em sua casa, sobre questões de direito e de filosofia.

— Muitas vezes sai de lá às quatro horas, continuava o fiel amigo; moído, é verdade, mas vencedor.

O velho ficava pasmado.

— Ah! dizia ele, se ele só discutisse lá todas as noites!

— Todas as noites seria impossível, tornava Ernesto; mas as discussões são freqüentes. Demais, ele é rapaz e naturalmente diverte-se...

Com estas e outras petas, com o procedimento cauteloso e regrado de Luís, o desembargador foi acreditando que realmente o filho se havia emendado. Seis semanas depois de assídua freqüência, pôde haver o primeiro encontro entre Ernesto e Fernanda. Tanto haviam falado dele a ela, que a moça ardia por contemplar essa espécie de fênix da mocidade. A impressão foi realmente boa.

Ernesto tinha o tato preciso para aparecer aos olhos de Fernanda com as melhores cores e as mais adequadas ao seu intento.

De sua parte a impressão foi magnífica. Achou-lhe uma bela figura, ainda que um ar extremamente frio.

— Não importa, disse ele ao bacharel; a frieza é uma camada de neve, que se pode e se há de derreter. Demais, é sabido que ela arde lá por dentro.

— Mas, olha, que já lá vai mais de um mês, e o tempo voa.

— Descansa. Cuida de ti. Ontem entraste tarde para casa.

— Às onze horas apenas.

— Foi tarde demais.

— Mas então às ave-marias?

— Não, mas às nove. Deves tomar o chá em casa. Sacrifica-te alguns meses para gozares o resto dos teus dias.

— Terrível remédio!

— Mas necessário.

Ernesto advogava sinceramente a causa do companheiro. Não menos sinceramente entrou a cortejar a sobrinha do desembargador, não logo de sopetão, mas a pouco e pouco, como o Jácome amansa cavalos, como os políticos amansam os povos rebeldes.

CAPÍTULO V

Fernanda gostava da conversação de Ernesto, mas nem se mostrava alegre nem desejosa de o ter ao pé de si. Seus olhos buscavam a miúdo os do primo, que fugiam cautelosamente com o fim sabido de lhe ir matando as esperanças aos poucos. As esperanças porém não morriam assim do pé para a mão. O amor tinha raízes e vinha de longe; não se apaga um incêndio com uma bochecha d’água.

Entendia Luís que era de bom efeito fazer o amigo no espírito da prima algumas insinuações contra ele. Ernesto abanou a cabeça quando ele lhe disse isto.

— Seria estragar tudo, acrescentou Ernesto.

— Estragar?

— Sem dúvida. Dizer mal de ti é aguçar-lhe e multiplicar-lhe a paixão. Tu não conheces o coração das mulheres, Luís. Nada de deitar lenha ao fogo.

Luís insistiu; a única resposta do amigo foi dizer-lhe que achara um processo para ele.

— Sim?

— É verdade; o meu padeiro teve uma briga com um vizinho por causa de questões amorosas. Perguntou-me se eu conhecia algum advogado bom. Respondi que conhecia um excelente, em cujas mãos ninguém perdia processo dessa ordem.

— Mas que houve?

— O rival injuriou o padeiro; o padeiro quer tirar vingança judicial.

— Está feito, disse Luís, não será processo muito maçante. Olha, não me dês processos maçantes.

— Pelo contrário, já te livrei de um.

— Ah!

— Um tio meu tem umas velhas questões de terrenos em São Cristóvão, coisa muito complicada e grave. Teve idéia de te dar a demanda; mas eu respondi lhe que tu andavas muito atarefado. Livrei-te a ti da maçada, e a ele de perder os terrenos.

— Pelintra!

O processo do padeiro foi uma data na casa do desembargador. Luís aproveitou o ensejo para fazer muitas e muitas consultas ao pai, que andava contentíssimo com este renascimento judicial do filho.

(continua...)

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