Por Adolfo Caminha (1894)
O velhinho todo trêmulo, a cabeça muito branca, uma névoa úmida no olhar, sem forças quase para dar um passo, murmurou tristemente:
— Nenhum, meus caros senhores... Suponho que houve engano da justiça...
— E se lhe dessem liberdade agora?.
— De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de meus filhos. Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na prisão.
O edifício da Penitenciária tem, logo à entrada, a seguinte inscrição em mármore:
No DIA 23 DE ABRIL DE 1885 SENDO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA O ILM9 SR CONSELHEIRO DR. JOSÉ BENTO DA C. FIGUEIREDO FORAM REMOVIDOS OS PRESOS PARA ESTE EDIFÍCIO ORGANIZADO SOB A DIREÇÂO DO ENGENHEIRO JOSÉ MAMEDE ALVES PEREIRA.
Contava, portanto, trinta e cinco anos.
Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.
CAPÍTULO II
No dia 27 deixamos o Recife em direção às Antilhas.
Como até aí, a viagem continuou a vapor — uma verdadeira viagem de recreio se não fosse a exigüidade dos cômodos a bordo do cruzador.
O comandante levava ordem para chegar à Nova Orleans em tempo de assistirmos à abertura da exposição internacional americana, onde o Almirante Barroso devia figurar como legítimo e admirável produto da indústria naval brasileira tão pouco conhecida no estrangeiro.
Adotávamos, sempre que o vento permitia, a navegação mista, e deste modo, a vela e a vapor, arrastados pelas correntes marítimas que puxam para o norte, alcançamos, a 2 de março, a linha equatorial, onde apanhamos alguns chuviscos debaixo duma atmosfera ardentíssima.
Reinava "calmaria podre". Ferraram-se as velas à míngua da mais leve aragem, armaram-se os toldos para que pudéssemos suportar o calor na tolda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialíssimo agrado. Suava-se a valer. Imagine-se embaixo, no porão, as fornalhas acesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, caindo como um cáustico sobre o navio.
À tardinha incendiavam-se os horizontes de um colorido rubro, ensangüentado, de mágica, refletindo-se no espelho do mar tranqüilo como num grande lago de cristal.
Demos graças a Deus quando nos vimos fora de tão desagradáveis regiões.
No dia 11 avistamos terra de Barbados, uma das mais prósperas colônias inglesas das Antilhas. Era o primeiro porto estrangeiro do itinerário.
O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um inglês de aspecto duro como em geral o de todo inglês, olhando através de uns grandes óculos azuis e ostentando fleumaticamente um par de suíças ruivas. Trajava dólmã branco, muito justo ao corpo, calças de pano preto e chapéu de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a nuca.
Fez a visita sacramental e pôs-se ao fresco em menos de dois minutos, depois de um fortíssimo shake-hand.
A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quase completa:
nenhuma vegetação cobre as vastas planícies que primeiro ferem a retina do observador. Ao aproximar-se-lhe, porém, novas paisagens de efeitos cambiantes vão-se desenrolando à maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do vento que ordinariamente é fresco aí, casas de campo confortáveis, árvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai aparecendo à medida que nos aproximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para abrangê-la.
À distância Bridgetown semelha uma pobre cidade desabitada, sem indício de civilização. A surpresa que experimenta o viajante é completa depois. Alguém que aí esteve anos antes admirou-se da enorme quantidade de embarcações inglesas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra afirmando o grande poder marítimo desse país, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no mundo.
Um dia e meio — eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo suficiente para conhecermos a ilha à vol d'oiseau.
A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e geralmente intratável.
Abundam o ciceroni, espécie curiosíssima de especuladores, que perseguem os viajantes de uma maneira bárbara. Querem, à fina força, ensinar-lhes as ruas, os hotéis, e não os largam enquanto não satisfazem a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo número de shillings.
Falam um patois detestável; ninguém os entende com facilidade. Imagine-se um pobre-diabo acompanhado duma multidão que grita e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos: — Came hear! carne hear! discutindo, altercando-se de cacete em punho. O mísero julga-se por um momento transportado, como por encanto, às costas da África, fecha ouvidos à grita dos importunos ciceroni, brada mil vezes no, no, no..., e não tem remédio senão deitar a correr como um possesso, perseguido sempre pela turbamulta de vadios, até que, depois de uma luta incrível, esguedelhado, ofegante, pálido, embarafusta pela porta dum hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!
E ainda por cima vocifera a legião faminta dos negros!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.