Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Tal fora o delito de Herculano e do seu camarada Sant’Ana que também ia ser castigado.

O Sant'Ana, porém, não era lá rapaz de que sofresse calado: tinha sempre o que dizer na ocasião do castigo, desculpando-se como podia perante a autoridade a fim de escapar manhosamente à ação criminal, o que nunca lhe sucedera, porque toda gente o conhecia bastante.

Era um pobre diabo de terceira classe, moreno cor de jenipapo, cabelo rente, à escovinha, olhos negros, nariz acaçapado, cara magra, e cujo nome lá estava no livro de castigos um ror de vezes. Gago de nascença, fazia rir aos companheiros quando abria a boca para dizer qualquer cousa, principalmente se estava num de seus momentos de sobreexcitação colérica, porque, então, ninguém o compreendia.

Tinha a facilidade ingênita das lágrimas: a mais leve comoção fazia-o chorar, transformando-lhe os olhos em duas fontes de úmida ternura.

Pôs-se logo a gaguejar uma história de “implicações”: que estava bem sossegadinho no seu canto e o Herculano fora provocá-lo, “implicar com ele”...

— Vamos, guardião, vamos, que é tarde. Não estou para ouvir histórias. Vá!...

Agostinho vergou o junco e, resolutamente, sem inquirir cousa alguma, com um risinho de instintiva malvadez no canto da boca, desfechou o primeiro golpe:

— Uma! contou a mesma voz de há pouco.

O rapaz empinou-se na ponta dos pés, arregalando muito os olhos, esfregando as mãos.

— Ah! gemeu com um grito de dor. — Pe... pe... pelo amor de... de... de Deus, seu... seu... comandante! — Vamos, vamos!...

Seguiram-se as outras chibatadas implacáveis, brutais como cáusticos de fogo, caindo uma a uma, dolorosamente, no corpo franzino do marinheiro.

Ele não teve jeito senão suportá-las todas, uma a uma, porque de nada lhe serviam os gritos, as súplicas e as lágrimas...

— Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal humorado sob a luz ardentíssima do meio dia tropical. — Hei de corrigi-los: corja!

Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto.

Começava a cair uma aragenzinha leve, tão leve que apenas atenuava a força cáustica do sol, inflando as velas quase imperceptivelmente.

O tenente, um pouco animado agora com a viração que precede os ventos largos, tomava notas num pequeno caderno, ansioso por chamar a gente aos “braços”.

Meio dia quase e ainda não estava acabado o castigo.

Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração cadente e enervada, e cuja presença ali naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa — o BOM CRIOULO na gíria de bordo.

— Aproxime-se, disse o comandante imperiosamente, carregando na voz e no semblante.

Houve um sussurro longínquo, um leve, um tímido murmúrio nas fileiras da marinhagem, assim como o vago estremecimento que assalta os espectadores de um teatro nas mutações de cenário. Agora a cousa era outra, na verdade. O Herculano e o Sant'Ana, de resto, não passavam de uns pulhas, de uns miseráveis marinheiros que dificilmente agüentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns criançolas!... Queria-se ver o Amaro, o célebre, o terrível Bom-Crioulo.

Fez-se nova leitura do Código em voz lenta e cadenciada de ofício religioso, e o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito justa e luzida:

— Sabe por que vai ser castigado? — Sim senhor.

Estas palavras, Bom-Crioulo proferiu-as num tom resoluto, sem o mais ligeiro constrangimento, firmando o olhar, atrevidamente, nos galões de ouro daquele oficial. Em pé, junto ao mastro, unidos os calcanhares, os braços caindo ao longo do corpo, militarmente perfilado, havia, contudo, na linha dos ombros, no jeito da cabeça, onde quer que fosse, um recolhido e traiçoeiro cunho de flexibilidade e destreza felinas.

Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e que esmagam com o peso dos músculos.

A força nervosa era nele uma qualidade intrínseca sobrepujando todas as outras qualidades fisiológicas, emprestando-lhe movimentos extraordinários, invencíveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto e raro.

Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe à força de um exercício continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos com soldados e catraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado.

Porque Bom-Crioulo de longe em longe sorvia o seu gole de aguardente, chegando mesmo a se chafurdar em bebedeiras que o obrigavam a toda a sorte de loucuras.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...23456...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →