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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Só o infelicitava na existência abundante gozada em Silves, a desconsideração com que tratavam o vigário, e o povo. O viver descansado e a fartura com que deleitava o estômago, os hábitos madraços não estavam em relação com a sua posição doméstica, social, e política, e essa desarmonia irritava-o, tiravalhe às vezes o sono. Não compreendia como podia ser mal considerado um homem que comia bem, vestia bem e não fazia nada. Alimentava o ódio secreto contra o patrão e toda a gente de bem. Padre José não queria ver no sacristão mais do que um curumim tirado às brutalidades do sargento para o constituir em servidão perpétua, mas bem remunerada. Ensinara-lhe a leitura, a escrita, a contabilidade, a arte de ajudar a missa, dera-lhe umas tintas do latim necessário, fornecera-o de roupa decente, gravata, botinas; consentia-lhe que bebesse o vinho da despensa e gastasse o óleo de Macaçar do toucador, quando as mulatas não o gastavam todo nos cacheados; mas tudo isso, parece, por indolência ou por graça. Continuava a tratá-lo como ao pequeno faminto que trouxera de Manaus, apesar de lhe ver a barba na cara e o aproveitamento das lições recebidas. Devia engraxar-lhe as botinas, escovar-lhe a roupa, varrer-lhe a casa, levar recadinhos às moças. Não contente com isto, descompunha-o em público: a besta do Macário, o caolho do sacristão, o burro do meu sacrista, filho desta, filho daquela, tambor de sargento, ladrão, velhaco e outros epítetos não menos injuriosos. O sargento do corpo de permanentes moera-o com pancadas, o padre maltratava-o com palavras duras. Macário, de rodaque de alpaca, de gravata preta, de botas de rangedeira, palitando os dentes à porta do presbitério ou no adro da Matriz, sentia-se amesquinhado e infeliz. Quanto mais queria elevar-se no conceito alheio até o nível de estima que por si nutria, tanto mais lhe doíam ao amor-próprio as feridas brutais que a palavra destemperada do padre lhe causava. Tentava reagir:

— Saberá V.Rev.ma que nunca furtei nada. Saberá V.Rev.ma que...

Mas o olhar irritado do padre acobardava-o, a recordação da infância miserável em Manaus e a idéia de perder os pitéus da mesa suculenta do vigário, tornavam-no prudente, quietava-se. O bom protetor do seminário passara havia anos para o seu glorioso destino, levando macacos e papagaios, e abandonando para sempre o Amazonas e o tabaco do Tapajós. Desamparado e só, Macário contemporizava e fingia. À força de habilidade conseguira ostentar certa importância pessoal, principalmente quando o vigário estava ausente. Inventava incumbências de responsabilidade, comissões graves, dizia-se depositário de segredos de valor. O senhor vigário o encarregara de cobrar as missas que lhe estavam devendo, e não eram missinhas à-toa, não eram porcarias, eram missas que importavam em quantia graúda, um horror de dinheiro capaz de saldar todas as contas de S.Rev.ma. O senhor vigário mandara-o entender-se com o empreiteiro das obras da Matriz, e lhe dissera uma coisa que ia brevemente acontecer ao Chico Fidêncio, em relação à irmandade do Santíssimo Sacramento. Não mentia, tinha horror à mentira, era um pecado mortal. Mas para conciliar a consciência com as conveniências, Macário tinha o macavelismo. Um meio astucioso de tudo fazer e dizer sem ferir de frente as conveniências e a verdade, sem desmoralizar-se, sem pecar, eis que era o macavelismo. Donde viera a palavra não sabia, nem lhe importava. Sabia apenas ter existido outrora um espertalhão chamado Maquiavel, ou Macavel, conforme melhor lhe parecia a pronúncia, e ouvira dizer que Bismark e o conselheiro Zacarias tinham muito macavelismo; gostara do termo e o adotara para seu uso.

Mas agora, era outra coisa. O novo vigário não o arrancara a fomes e a misérias, não lhe conhecia a mãe, não sabia o caso do sargento. Vinha encontrá-lo com trinta e cinco anos, gordo, de sobrecasaca, de lenço preto grave, digno, necessário, senhor dos detalhes do serviço da paróquia. O tempo ansiosamente esperado vinha por fim, prenhe de promessas fagueiras de respeito pessoal e consideração pública, reluzia-lhe diante dos olhos no espelho do lago em que se refletia o sol brilhante daquela manhã...

O silvo agudo do vapor dizendo ao longe a grande nova arrancou-o a essas reflexões. Agitado e nervoso, foi apalavrar um moleque para os repiques, e em seguida encaminhou-se para o porto, a passos apressados, desejando ser o primeiro a avistar o vulto negro do navio demandando o lago Saracá com grande ruído de rodas.

(continua...)

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