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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Exasperada por essa obsessão afrontosa, cada vez mais ardente e descomedida, Luzia queixou-se ao administrador que obteve do tenente, comandante do destacamento, a remoção do temerário galante para outros serviços, guarda e faxina da prisão e, nos dias de folga, a polícia da feira.

O tão severo, merecido castigo penetrou fundo no duro coração do soldado, remexendo a vasa de instintos, ali sedimentada em demorado repouso. Mais ainda lhe moeram os melindres, os comentários irreverentes, os aplausos, as insinuações ferinas e o chasco de ser punido por queixa da mulher apetecida, a quem ele, com fingido desdém, chamara uma retirante à-toa, sem eira nem beira, toda arrebitada de luxos e medeixes. E ainda mais o estomagava o ser a opinião, em esmagadora maioria, favorável ao castigo.

Acharam todos fora acertada providência tirar aquela onça do pasto para tranqüilidade e segurança das moças e das mulheres casadas, pois já era demasiada a falta de respeito escandalizadora. Aquele homem de maus bofes, era um perigo. E surdiam histórias de crimes, anedotas grotescas, revelação de casos repugnantes, verdadeiros ou inventados pela fantasia do populacho nos excessos de saborear a vingança, denegrindo-lhe a reputação e deturpando-o para transformá-lo de pelintra quente e apaixonado, em reles monstro horripilante.

Crapiúna sabia dessas más ausências, das calúnias e falsos testemunhos que lhe levantavam, cobardemente, pelas costas; das pragas e esconjuros, arrogados pelas suas vítimas e desafetos. Safados uns, ingratos outros. Corja de mal-agradecidos, que já se não lembravam dos benefícios de ontem. A muitos deles, desses que agora o malsinam por intrigas de mulheres, havia morto a fome. Não se tinha em conta de santo, confessava; fizera certas vadiações de homem solteiro, que não tinha contas que dar; mas ninguém lhe podia lançar em rosto o haver aforciado mulheres honestas. Quanto à remoção, até dava graças a Deus por se ver livre daquela cambada de retirantes nojentos e leprosos, cujo aspecto, em jejum, causava engulhos; seria, entretanto, melhor sair da obra por sua livre vontade e não por queixa... E logo de quem? De Luzia-Homem... Oh? o diabo daquela sonsa era capaz de virar pelo avesso o juízo de uma criatura, e provocar muita desgraça por causa daquele imposão de querer ser melhor que as outras... Tirando-lhe a força bruta, não passava de uma pobre tatu, que só tem por si o dia e a noite.

—Você está... — mas é fisgado pela macho e fêmea — arriscou o camarada Belota que lhe ouvia a confidência — Aquilo tem mandinga... Quem sabe se não te enfeitiçou! ... Olha que ela tem uns olhos que furam a gente.... E então — aquela cabeleira... Acho melhor pedir à Chica Seridó uma oração forte para desmanchar quebrantos e fechar o corpo contra mau olhado.

— Qual, o quê!... — retorquiu Crapiúna, com afetado desdém — Eu até nem gosto dela... Não lhe acho graça... Depois... com semelhante força... nem parece mulher...

— Tira o cavalo da chuva e conta a história direito, Crapiúna. Todas as mulheres são iguais e merecem tudo; a demora é grelar no coração o capricho, principalmente, quando resistem. Fora ela um monstro da natureza; paixão não enxerga nem repara e, quando nos ataca, é como o sarampo: até jasmim de cachorro é remédio. E deixa falar quem quiser, que é soberba, sonsa, malensinada... Ela não é nenhum peixe podre. Não reparaste naqueles quartos redondos, no caculo do queixo. Na boca encarnada como um cravo?! E o buço?! ... Sou caidinho por um buço ... Ela quase que tem passa-piolho, o demônio da cabrocha...

— O que mais me admira é que não se diz dela tanto assim – afirmou Crapiúna pensativo, riscando com a unha do polegar a ponta do indicador.

— É por ser mais velhaca que as outras... Pergunta ao Alexandre...

— Que Alexandre? Aquele alvarinto que servia de apontador na obra: e passou depois para o armazém da Comissão? ... Aquilo é defunto em pé. Não é qualidade de homem para um como eu.

— O caso é que ele gosta dela. Estão sempre perto um do outro, ao passo que o Crapiúna velho foi posto fora, como um cachorro tinhoso, e está aqui gemendo no serviço...

E como o soldado, em cujo coração se derramara fel, ficasse a cismar, Belota afastou-se com um gracejo ferino:

— Ali é ver com os olhos e comer com a testa ou lamber vidro de veneno por fora, como rato de botica. Toma o meu conselho. Não te metas com a bruxa que cheiras vara!

Crapiúna não o ouviu. Contorcendo-se no martírio de onça acuada, com o coração caldeado no peito, estremecia à suspeita de um rival venturoso na disputa da cobiçada presa.

CAPÍTULO III

(continua...)

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