Por Aluísio Azevedo (1880)
Depois de algum silêncio, entabulou-se entre os dois moços uma dessas conversações fúteis e agradáveis, cujo segredo só possuem os namorados. Falavam baixo, descansados e desapercebidos de tudo; falavam nimiamente por se ouvir um ao outro, com o egoísmo dos amantes, mas sem afetação nem constrangimento.
Qualquer coisa, que dizia Miguel, tinha muita graça para Rosalina. O menor gracejo do artista fazia-a mostrar os dentes claros e a língua vermelha em uma das suas francas e sadias gargalhadas.
— Tocas-me hoje o teu Sonho? Perguntou ela, em seguimento da conversa. — Tocarei, depois da leitura, mas trago-te uma música nova.
— Feita agora?
— Concluída hoje; já estava principiada a mais tempo.
— A quem é dedicada?
— Que pergunta! A quem poderia ser?
— A mim, disse Rosalina, feliz.
— E sabe como se chama? Perguntou Miguel.
— Como é?
— Teu nome!
— Rosalina?
— Não! Teu nome!
— Ah, fez rindo a moça. — Já sei, o nome é: — Teu nome?
— Exatamente!
— Ora! O que se chama — Teu nome — por bem dizer não tem nome.
— Tolinha!... Queres que o mude?
— Não!... disse meigamente sorrindo Rosalina.
— Então! Senhor Miguel! Não temos hoje leitura? Perguntou Ângela, colocando a mão aberta sobre os olhos para poder enxergar o interrogado.
Este respondeu, levantando-se e indo tomar um livro de um armário de pau, pregado na parede; depois, sentou-se defronte da velha, que, junto à mesa, cosia ao clarão da luz do azeite.
Rosalina foi reunir-se ao grupo.
Reinava o mais absoluto silêncio.
Miguel abriu com pachorra o livro, no lugar marcado por uma tira bordada, trabalho delicado de Rosalina, esfregou carinhosamente as palmas da mão nas folhas do livro, aberto de par em par; cruzou as pernas, enterrando os pés para baixo da cadeira, em que estava assentado; espevitou o pavio da candeia, e depois, de fitar abstratamente o cabeça branca de Ângela, principiou, com a voz sonora e desembaraçada, a leitura de uns contos fantásticos, que faziam o enlevo da velha e de Rosalina.
A isto sucedeu completa tranqüilidade.
Com o interesse do romance, Ângela parara maquinalmente o trabalho e, firmando os cotovelos descarnados na madeira da mesa, ficava automaticamente a fitar, com o rosto apoiado nas mãos compridas e ossudas, o movimento regular dos lábios do leitor.
Dominado, como estava, pela mágica influência do livro, ligava indistintamente não sei que relação entre a fisionomia expressiva de Miguel e o assunto da novela; parecia-lhe que aquilo eram palavras e pensamentos dele, ditos, e pensados ali, naquele instante; às vezes, sentia vontade de abraçá-lo, quando a passagem lhe agradava, e ao contrário, revoltava-se, interiormente, por amor das transcendentes maldades dos tiranos do romance.
Choravam e riam silenciosamente as duas, conforme a situação. Tudo era interesse, até o pobre Castor parecia tomar parte na leitura, sofrendo resignado a vontade de ladrar contra as ruidosas lufadas de vento; ficava o pobre animal com a cabeça estendida e o olhar mole e sensual, a bater com a cauda de um para ouro lado, com a uniforme oscilação de uma pêndula.
No meio deste silencio, a voz grave e compassada de Miguel ecoava monotonamente nas quatro paredes de betume cinzento.
Terminada a leitura, conversavam os três sobre o enredo e o caráter dos personagens, que figuravam no romance, cujo desfecho Ângela com muito empenho profetizava.
Em seguida, Rosalina foi buscar a rabeca e Miguel executou
expressivamente várias músicas de sua imaginação, não se esquecendo da última Teu nome, que muito arrebatou e comoveu aquela a quem foi oferecida.
Com efeito, desvanecia-se a rapariga com ser a inspiradora de tão belas concepções, e ficava enlevada, como a sonhar, bebendo pelo coração as melancólicas harmonias, que emanavam do instrumento apaixonado.
Assim fugiram as horas tranqüilas e esquecidas da visita, até que os sinos de S. Tiago tocavam o silêncio; então, descontinuava-se o recreio: Miguel despediase, beijando a mão da velha e a fronte da moça, e, depois de tomar o chapéu e a rabeca, partia cabisbaixo.
Ao sair o músico, fechavam logo a porta; a luz desaparecia da sala e as duas mulheres recolhiam-se para o mesmo quarto, onde rezavam e dormiam juntas; tudo isso era feito com cuidado e devagarinho, como se tivessem medo de acordar com o barulho a felicidade que se lhes agasalhara em casa.
Nas noites em que Miguel se demorava ou não ia como de costume, sentiam-se as duas mal e impacientes e Rosalina encostava-se, então, cantarolando, às ombreiras da porta, e derramava, de vez em quando, um olhar de tristeza pela brancura do caminho. Enfim, o rapaz era já como pessoa da família; era, ao menos, uma necessidade para ambas.
Aos domingos de primavera, o sol ao levantar-se às cinco horas já os via de pé e em caminho para a missa. Então, aparecia sempre um pretexto para demorarse ao passeio, que os levava em geral pelas casas das amigas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.