Por Aluísio Azevedo (1881)
Manuel Pedro, apesar de bom, era um desses homens mais que alheados as sutilezas do sentimento; para outra mulher daria talvez um excelente esposo, não para aquela, cuja sensibilidade romântica, longe de o comover havia muita vez de importuná-lo. Quando se achou viúvo não sentiu, a despeito da sua natural bondade, mais do que certo desgosto pela ausência de uma companheira com que já se tinha habituado — contudo, não pensou em tornar a casar, convencido de que o afeto da filha lhe chegaria de sobra para amenizar as canseiras do trabalho, e que o auxílio imediato da sagra bastaria para garantir a decência da sua casa e a boa regra das suas despesas domésticas.
Ana Rosa cresceu pois, como se vê, entre os desvelos insuficientes do pai e o mau gênio da avó. Ainda assim aprendera de cor a gramática do Sotero dos Reis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de francês e tocava modinhas sentimentais ao violão e ao piano Não era estúpida; tinha a intuição perfeita da virtude, um modo bonito, e por vezes lamentara não ser mais instruída. Conhecia muitos trabalhos de agulha: bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha de contralto que fazia gosto ouvir.
Tanto assim que, em pequena, servira várias vezes de anjo da verônica nas procissões da quaresma E os cônegos da Sé gabavam-lhe o metal da voz e davam-lhe grandes cartuchos de amêndoas de mendubim, muito enfeitados nas suas pinturas, toscas e características, feitas a goma-arábica e tintas de botica. Nessas ocasiões ela sentia-se radiante, com as faces carminadas, a cabeça coberta de cachos artificiais, grande roda no vestido curto, a jeito de dançarina E, muito concha, ufana dos seus galões de prata e ouro e das suas trêmulas asas de papelão e escumillha, caminhava triunfante e feliz no meio do cordão das irmandades religiosas, segurando a extremidade de um lenço do qual o pai segurava a outra. Isto eram promessas feitas pela mãe ou pela avó em dias de grande enfermidade na família.
E crescera sempre bonita de formas. Tinha os olhos pretos e os cabelos castanhos de Mariana e puxara ao pai as rijezas de corpo e os dentes fortes Com a aproximação da puberdade apareceram-lhe caprichos românticos e fantasias poéticas: gostava dos passeios ao luar, das serenatas; arranjou ao lado do seu quarto um gabinete de estudo, uma bibliotecazinha de poetas e romancistas; tinha um Paulo e Virgínia de biscuit sobre a estante e, escondido por detrás de um espelho, o retrato do Farol, que herdara de Mariana.
Lera com entusiasmo a Graziela de Lamartine Chorou muito com essa leitura e, desde aí, todas as noites, antes de adormecer, procurava instintivamente imitar o sorriso de inocência que a procitana oferecia ao seu amante. Praticava bem com os pobres. adorava os passarinhos e não podia ver matar perto de si uma borboleta Era um bocadinho supersticiosa: não queda as chinelas emborcadas debaixo da rede e só aparava os cabelos durante o quarto crescente da lua. “Não que acreditasse nessas coisas”, justificava-se ela, “mas fazia porque os outros faziam. “ Sobre a cômoda, havia muito tempo, tinha uma estampa litográfica e colorida de Nossa Senhora dos Remédios e rezava-lhe todas as noites, antes de dormir Nada conhecia melhor e mais agradável do que um passeio ao Cutim, e, quando soube que se projetava uma linha de bondes até lá, teve uma satisfação violenta e nervosa.
Feitos os quinze anos, ela começou pouco e pouco a descobrir em si estranhas mudanças; percebeu, sentiu que uma transformação importante se operava no seu espírito e no seu corpo: sobressaltavam-na terrores acometiam-na tristezas sem modificável. Um dia, afinal, acordou mais preocupada; assentou-se na rede, a cismar. E, com surpresa, reparou que seus membros ultimamente se tinham arredondado; notou que em todo seu corpo a linha curva suplantara a reta e que as suas formas eram já completamente de mulher.
Veio-lhe então um sobressalto de contentamento mas logo depois caiu a entristecer: sentia-se muito só, não lhe bastava o amor do pai e da velha Barbara; queria uma afeição mais exclusiva, mais dela.
Lembrou-se dos seus namoros. Riu-se “coisas de criança!...”
Aos doze anos namorara um estudante do Liceu. Haviam conversado três ou quatro vezes na sala do pai e supunham-se deveras apaixonados um pelo outro; o estudante seguiu para a Escola Central da Corte, e ela nunca mais pensou nele Depois foi um oficial de marinha; “Como lhe ficava bem a farda!... Que moço engraçado! bonito! e como sabia vestir-se... Ana Rosa chegou a principiar a bordar um par de chinelas para lho oferecer; antes porém de terminado o primeiro pé, já o bandoleiro havia desaparecido com a corveta “Baiana”. Seguiu-se um empregado do comércio. “Muito bom rapaz! muito cuidadoso da roupa e das unhas!...” Parecia-lhe que ainda estava a vê-lo, todo metódico, escolhendo palavras para lhe pedir “a subida honra de dançar com ela uma quadrilha”
— Ah tempos! tempos!..
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.