Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

O caminho da porta

Por Machado de Assis (1862)

É muita bondade. Como não quer que seja suscetível? Só depois de estarmos a sós é que V. Exa. se lembra de mim. Para um velho gaiteiro acha V. Exa. palavras cheias de bondade e sorrisos cheios de doçura.

CARLOTA

Deu-lhe agora essa doença? (vai sentar-se junto à mesa)

VALENTIM

(senta-se junto à mesa defronte de Carlota)

Oh! não zombe, minha senhora! Estou certo de que os mártires romanos prefeririam a morte rápida à luta com as feras do circo. O seu sarcasmo é uma fera indomável; V. Exa. tem certeza disso e não deixa de lançá-lo em cima de mim.

CARLOTA

Então sou temível? Confesso que ainda agora o sei. (uma pausa) Em que cisma?

VALENTIM

Eu?... em nada!

CARLOTA

Interessante colóquio!

VALENTIM

Devo crer que não faço uma figura nobre e séria. Mas não me importa isso! A seu lado eu afronto todos os sarcasmos do mundo. Olhe, eu nem sei o que penso, nem sei o que digo. Ridículo que pareça, sinto-me tão elevado o espírito que chego a supor em mim algum daqueles toques divinos com que a mão dos deuses elevava os mortais e lhes inspirava forças e virtudes fora do comum.

CARLOTA

Sou eu a deusa..

VALENTIM

Deusa, como ninguém sonhara nunca; com a graça de Vênus e a majestade de Juno. Sei eu mesmo defini-la? Posso eu dizer em língua humana o que é esta reunião de atrativos únicos feitos pela mão da natureza como uma prova suprema do seu poder? Dou-me por fraco, certo de que nem pincel nem lira poderão fazer mais do que eu.

CARLOTA

Oh! é demais! Deus me livre de o tomar por espelho. Os meus são melhores. Dizem coisas menos agradáveis, porém mais verdadeiras.

VALENTIM

Os espelhos são obras humanas; imperfeitos, como todas as obras humanas. Que melhor espelho, quer V. Exa, que uma alma ingênua e cândida?

CARLOTA

Em que corpo encontrarei... esse espelho?

VALENTIM

No meu.

CARLOTA

Supõe-se cândido e ingênuo?

VALENTIM

Não me suponho, sou.

CARLOTA

É por isso que traz perfumes e palavras que embriagam? Se há candura é em querer fazer-me crer...

VALENTIM

Oh! não queira V. Exa. trocar os papéis. Bem sabe que os seus perfumes e as suas palavras é que embriagam. Se eu falo um tanto diversamente do comum é porque falam em mim o entusiasmo e a admiração. Quanto a V. Exa. basta abrir os lábios para deixar cair dele aromas e filtros cujo segredo só a natureza conhece.

CARLOTA

Estimo antes vê-lo assim. (começa a desenhar distraidamente em um papel)

VALENTIM

Assim... como?

CARLOTA

Menos... melancólico.

VALENTIM

É esse o caminho do seu coração?

CARLOTA

Queria que eu própria lho indicasse? Seria trair-me, e tirava-lhe a graça e a glória de o encontrar por seus próprios esforços.

VALENTIM

Onde encontrarei um roteiro?...

CARLOTA

Isso não tinha graça! A glória está em achar o desconhecido depois da luta e do trabalho... Amar e fazer-se amar por um roteiro... oh! que coisa de mau gosto!

VALENTIM

Prefiro esta franqueza. Mas V. Exa. deixa-me no meio de uma encruzilhada com quatro ou cinco caminhos diante de mim, sem saber qual hei de tomar. Acha que isto é de coração compassivo?

CARLOTA

Ora! siga por um deles, à direita ou à esquerda.

VALENTIM

Sim, para chegar ao fim e encontrar um muro; voltar, tomar depois por outro...

CARLOTA

E encontrar outro muro? É possível. Mas a esperança acompanha os homens e com a esperança, neste caso, a curiosidade. Enxugue o suor, descanse um pouco, e volte a procurar o terceiro, o quarto, o quinto caminho, até encontrar o verdadeiro. Suponho que todo o trabalho se compensará com o achado final.

VALENTIM

Sim. Mas, se depois de tanto esforço for encontrar-me no verdadeiro caminho com algum outro viandante de mais tino e fortuna?

CARLOTA

Outro? ... que outro? Mas... isto é uma simples conversa... O Sr. faz-me dizer coisas que não devo... (cai o lápis ao chão, Valentim apressa-se em apanhá-lo e ajoelha nesse ato)

CARLOTA

Obrigada. (vendo que ele continua ajoelhado) Mas levante-se!

VALENTIM

Não seja cruel!

CARLOTA

Faça o favor de levantar-se!

VALENTIM

(levantando-se)

É preciso pôr um termo a isto!

CARLOTA

(fingindo-se distraída)

A isto o quê?

VALENTIM

V. Exa. é de um sangue-frio de matar!

CARLOTA

Queria que me fervesse o sangue? Tinha razão para isso. A que propósito fez esta cena de comédia?

VALENTIM

V. Exa. chama a isto comédia?

CARLOTA

Alta comédia, está entendido. Mas que é isto? Está com lágrimas nos olhos?

VALENTIM

Eu? ora... ora... que lembrança!

CARLOTA

Quer que lhe diga? Está ficando ridículo.

VALENTIM

Minha senhora!

CARLOTA

Oh! ridículo! ridículo!

VALENTIM

Tem razão. Não devo parecer outra coisa a seus olhos! O que sou eu para V. Exa.? Um ente vulgar, uma fácil conquista que V. Exa. entretém, ora animando, ora repelindo, sem deixar nunca conceber esperanças fundadas e duradouras. O meu coração virgem deixou-se arrastar. Hoje, se quisesse arrancar de mim este amor, era preciso arrancar com ele a vida. Oh! não ria, que é assim!

CARLOTA

Sinto que não possa ouvi-lo com interesse.

VALENTIM

Por que motivo havia de me ouvir com interesse?

CARLOTA

Não é por ter a alma seca; é por não acreditar nisso.

VALENTIM

Não acredita?

CARLOTA

Não.

VALENTIM

(esperançoso)

E se acreditasse?

CARLOTA

(com indiferença)

(continua...)

123456789
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →