Por Aluísio Azevedo (1895)
Não fez caso. Estava já habituado a ser escarnecido, e tinha por costume deixar que a zombaria o perseguisse à vontade, até que ela cansasse e por si mesma se retraísse. Mas o Fonseca, vendo que não conseguira nada com a palavra, correu na pista de André e ferrou-lhe um pontapé por detrás.
O pequeno voltou-se e arremeteu com tal fúria contra o agressor, que o lançou por terra. O Fonseca pretendeu reagir, mas o outro o segurou entre as pernas e os braços, tirandolhe toda a ação do corpo.
Veio logo o inspetor, separou-os e, tendo ouvido as razões do Fonseca e dos outros meninos que presenciaram o fato, conduziu André para um quarto escuro, no qual teve o pequeno esse dia de passar todos os intervalos das aulas.
Sofreu a castigo e as acusações dos companheiros, sem o menor protesto e, quando se viu em liberdade, não mostrou por pessoa alguma o mais ligeiro ressentimento.
Depois deste fato, os colegas deram todavia em olhá-lo com certo respeito, e só pelas costas o ridicularizavam. Às vezes, do fundo de um corredor ou do meio de grupo, ouvia gritar em voz disfarçada:
- Olha o filhote do padre Olha o Coruja!
Ele, porém, fingia não dar por isso e afastava-se em silencio.
Quanto ao mais, raramente comparecia ao recreio e apresentava-se nas aulas sempre com a lição na ponta da língua.
No fim de pouco tempo, os próprios mestres participavam do vago respeito que ele impunha a todos; posto que estivessem bem longe de simpatizar com desgracioso pequeno, apreciavam-lhe a precoce austeridade de costumes e o seu admirável esforço pelo trabalho. Uma das particularidades de sua conduta, que mais impressionava aos professores, era a de que, apesar constante mal que lhe desejavam fazer os colegas, jamais se queixava de nenhum, e tratava-os a todos mesma forma que tratava ao diretor e aos lentes isto com a mesma sobriedade de palavras e a mesma frieza de gestos.
Em geral, era por ocasião da mesa que as indiretas dos seus condiscípulos mais se assanhavam contra O Coruja, como já todos lhe chamavam, não tinha graça nem distinção no comer; comia muito e sofregamente com o rosto tão chegado ao prato que parecia que apanhar os bocados com os dentes.
Coitado! Além do rico apetite de que dispunha, não recebia, à semelhança dos outros meninos, presentes de doce, requeijão e frutas que lhes mandavam competentes famílias; não andava a paparicar durante dia como os outros; de sorte que, à hora oficial da comida, devorava tudo que lhe punham no prato, sem torcer o nariz a coisa alguma.
Um dia, porque ele, depois de comer ao jantar todo o seu pão, pediu que lhe dessem outro, a mesa inteira rebentou em gargalhadas; mas o Coruja não se alterou e fez questão de que daí em diante lhe depusessemlado do prato dois pães em vez de um!
– Muito bem! considerou o diretor.- É dos tais que paga por meio e come por dois! Seja tudo por amor de Deus!
III
Assim ia vivendo o Coruja, desestimado e desprotegido no colégio, e corno que formando na sua esquisitice uma ilha completamente isolada dos bons e dos maus exemplos, que em torno dele se agitavam.
Dir-se-ia que nascera encascado em grossa armadura de indiferença, contra a qual se despedaçavam as várias manifestações do meio em que vivia, sem que elas jamais conseguissem lhe corromper o ânimo. A tudo e a todas parecia estranho, corno se naquele coração, ainda tão novo, já não houvesse unia só fibra intacta.
E, todavia, nenhum dos companheiros seria capaz de maltratar em presença dele um dos mais pequenos do colégio, sem que o esquisitão tomasse imediatamente a defesa do mais fraco. Não consentia igualmente que fizessem mal aos animais, e muita vez o encontraram acocorado sobre a terra protegendo um mesquinho réptil, ou lhe enxergavam vivos sinais de ameaças em favor de alguma pobre borboleta perseguida pelos estudantes.
Na sua mística afeição aos fracos e indefesos, chegava a acarinhar as árvores e plantas do jardim e sentia-se vê-las mal amparadas na hora do recreio. Não reconhecia em ninguém o direito de separar uma flor da haste em que nascera ou encarcerar na gaiola um mísero passarinho.
E tudo isso era feto e praticado naturalmente, sem as tredas aparências de quem deseja constituir-se em modelo de bondade. Tanto assim, que tais coisas só foram deveras percebidas por um antigo criado da casa, o Militão, a quem os meninos alcunharam por pilhérias de "Dr. Caixa-dóculos".
O Caixa-dóculos era nada mais do que um triste velhote de cinqüenta a sessenta anos, vindo em pequeno das ilhas e que aqui percorrera a tortuosa escala das ocupações sem futuro. Fora porteiro de diversas ordens religiosas, moço de câmara a bordo de vários navios, depois permanente de polícia, em seguida sacristão e criado de um cônego, depois moço de hotel, bilheteiro num teatro, copeiro em casa de um titular e afinal, para descansar, criado no colégio em que se achava o Coruja.
De tal peregrinação apenas lhe ficara um desgosto surdo pela existência, um vago e triste malquerer pelos fortes e pelos vitoriosos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.