Por Machado de Assis (1868)
- Qual recusa, pateta! É uma objeção, que tu poderás destruir dizendo: a sociedade é uma grande caluniadora e uma famosa indiscreta. Minha filha é tua, com uma condição.
- Qual?
- A condição da reciprocidade. Ama-te ela?
- Não sei, respondeu Gomes.
- Mas desconfias...
- Não sei; sei que a amo e que daria a minha vida por ela, mas ignoro se sou correspondido.
- Hás de ser... Eu me incumbirei de apalpar o terreno. Daqui a dous dias dou-te a minha resposta. Ah! se ainda tenho de ver-te meu genro!
A resposta de Gomes foi cair-lhe nos braços. A cena já roçava pela comédia quando deram três horas. Gomes lembrou-se que tinha rendez-vous com um amigo; Vasconcelos lembrou-se que tinha de escrever algumas cartas.
Gomes saiu sem falar às senhoras.
Pelas quatro horas Vasconcelos dispunha-se a sair, quando vieram anunciar lhe a visita do Sr. José Brito.
Ao ouvir este nome o alegre Vasconcelos franziu o sobrolho. Pouco depois entrava no gabinete o Sr. José Brito.
O Sr. José Brito era para Vasconcelos um verdadeiro fantasma, um eco do abismo, uma voz da realidade; era um credor.
- Não contava hoje com a sua visita, disse Vasconcelos.
- Admira, respondeu o Sr. José Brito com uma placidez de apunhalar, porque hoje são 21.
- Cuidei que eram 19, balbuciou Vasconcelos.
- Anteontem, sim; mas hoje são 21. Olhe, continuou o credor pegando no Jornal do Comércio que se achava numa cadeira: quinta-feira, 21.
- Vem buscar o dinheiro?
- Aqui está a letra, disse o Sr. José Brito tirando a carteira do bolso e um papel da carteira.
- Por que não veio mais cedo? perguntou Vasconcelos, procurando assim espaçar a questão principal.
- Vim às oito horas da manhã, respondeu o credor, estava dormindo; vim às nove, idem; vim às dez, idem; vim às onze, idem; vim ao meio-dia, idem. Quis vir à uma hora, mas tinha de mandar um homem para a cadeia, e não me foi possível acabar cedo. Às três jantei, e às quatro aqui estou.
Vasconcelos puxava o charuto a ver se lhe ocorria alguma idéia boa de escapar ao pagamento com que ele não contava.
Não achava nada; mas o próprio credor forneceu-lhe ensejo.
- Além de que, disse ele, a hora não importa nada, porque eu estava certo de que o senhor me vai pagar.
- Ah! disse Vasconcelos, é talvez um engano; eu não contava com o senhor hoje, e não arranjei o dinheiro...
- Então, como há de ser? perguntou o credor com ingenuidade.
Vasconcelos sentiu entrar-lhe n’alma a esperança.
- Nada mais simples, disse; o senhor espera até amanhã...
- Amanhã quero assistir à penhora de um indivíduo que mandei processar por uma larga dívida; não posso...
- Perdão, eu levo-lhe o dinheiro à sua casa...
- Isso seria bom se os negócios comerciais se arranjassem assim. Se fôssemos dous amigos é natural que eu me contentasse com a sua promessa, e tudo acabaria amanhã; mas eu sou seu credor, e só tenho em vista salvar o meu interesse... Portanto, acho melhor pagar hoje...
Vasconcelos passou a mão pelos cabelos.
- Mas se eu não tenho! disse ele.
- É uma coisa que o deve incomodar muito, mas que a mim não me causa a menor impressão... isto é, deve causar-me alguma, porque o senhor está hoje em situação precária.
- Eu?
- É verdade; as suas casas da Rua da Imperatriz estão hipotecadas; a da Rua de S. Pedro foi vendida, e a importância já vai longe; os seus escravos têm ido a um e um, sem que o senhor o perceba, e as despesas que o senhor há pouco fez para montar uma casa a certa dama da sociedade equívoca são imensas. Eu sei tudo; sei mais do que o senhor...
Vasconcelos estava visivelmente aterrado.
O credor dizia a verdade.
- Mas enfim, disse Vasconcelos, o que havemos de fazer?
- Uma cousa simples; duplicamos a dívida, e o senhor passa-me agora mesmo um depósito.
- Duplicar a dívida! Mas isto é um...
- Isto é uma tábua de salvação; sou moderado. Vamos lá, aceite. Escreva-me aí o depósito, e rasga-se a letra.
Vasconcelos ainda quis fazer objeção; mas era impossível convencer o Sr. José Brito.
Assinou o depósito de dezoito contos.
Quando o credor saiu, Vasconcelos entrou a meditar seriamente na sua vida.
Até então gastara tanto e tão cegamente que não reparara no abismo que ele próprio cavara a seus pés.
Veio porém adverti-lo a voz de um dos seus algozes.
Vasconcelos refletiu, calculou, recapitulou as suas despesas e as suas obrigações, e viu que da fortuna que possuía tinha na realidade menos da quarta parte.
Para viver como até ali vivera, aquilo era nada menos que a miséria. Que fazer em tal situação?
Vasconcelos pegou no chapéu e saiu.
Vinha caindo a noite.
Depois de andar algum tempo pelas ruas entregue às suas meditações, Vasconcelos entrou no Alcazar.
Era um meio de distrair-se.
Ali encontraria a sociedade do costume.
Batista veio ao encontro do amigo.
- Que cara é essa? disse-lhe.
- Não é nada, pisaram-me um calo, respondeu Vasconcelos, que não encontrava melhor resposta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.