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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

E pôs-se toda a casa em rebuliço;

Até que o triste e pálido gamenho,

O corpo levantando e mais o ramo

De flores que tio peito atado havia

Foi na cama chorar o seu desastre.

X

Iam assim as horas desfiando

Os mandriões sagrados, quando a nova

Da vitória das duas gordas culpas

Troa às orelhas da terrível Ira.

Sobre um campo voando de batalha

Ela os olhos pascia; ela no sangue

Satisfeita mirava o duro rosto;

Súbito estaca; as ríspidas melenas

Impetuosa sacode; e, sufocando

Um rugido feroz dentro do peito,

Rompe, como um tufão, da terra às nuvens,

Os ares corta e à bela terra desce

Que houve de Santa Cruz a lei e o nome,

Enfim assoma ao áspero penedo

Que a jovem Niterói, como atalaia,

Eternamente guarda. Alguns instantes

Dali contempla os tectos da cidade,

E outra vez devolvendo impetuosa

As rubras asas, atravessa o golfo,

E firma os pés na desejada praia.

XI

Tudo jazia em paz. Eis que um barbeiro

Que de um vizinho escanhoava o rosto,

De mil alheios casos discursando,

Irrita-se de súbito, e de um golpe

Acaba no freguês a barba e a vida.

Não distante, no célebre Colégio,

Dous enxadristas de primeira plana

Uma grave batalha pelejavam

Assentados na cerca. O Doutor Lopes,

Não sei se com razão, se por descuido,

Come um cavalo ou torre ao Padre Inácio.

Este reclama; aquele encolhe os ombros;

Encaram-se com gesto de desprezo,

Passam do gesto à voz, da voz ao pulso,

Engalfinham-se, rolam pela terra,

Bufam, rasgam-se, mordem-se, desunham-se,

E assim mordidos e rasgados ambos

No chão sem vida longo tempo jazem.

XII

E também ela à fresca sombra posta

Do copado arvoredo, reclinada

Sobre a urna gentil das águas suas,

A Carioca estremeceu. Nas veias

Sente pular-lhe o sangue. Rubras flores

De cajueiro e parasitas que ela,

Para toucar-se, coos mimosos dedos

Entretecia, desparzidas todas

As lançou na corrente. Qual outrora

Quando por essas praias ressoava

O som da inúbia, palpitar-lhe sente

Mais forte o coração. Súbito irada

Os negros fios ásperos saco de

Que ao longo da trigueira espádua caem,

E veloz arrojando-se nas ondas

Sublevá-las intenta; encher com elas

Campos e montes... Infeliz! Cansada,

Arquejante e chorosa se recolhe;

Não ficou Natureza de seus braços

Tamanha empresa; e a linfa que murmura,

Como sentida dos maternos males,

Lânguida volve as preguiçosas ondas.

XIII

De tais sucessos desdenhando a Ira

À casa se encaminha do prelado.

Já não arde o furor nos olhos dela;

Pensativos os leva; um meio busca,

Um decisivo golpe com que abale

A adormecida igreja, quando a tunda

Ocorre do tabelião pacato

Freire, amador de moças e aventuras.

Quem as armas brandiu daquele crime?

As mãos dos servos do prelado foram.

Este caso em seu íntimo revolve

A fera culpa; os olhos fita; pensa...

Repentino sorriso os lábios lhe abre;

Arreganho disséreis de faminto

Jaguaruçu; achado é o grande golpe.

As asas bate a Ira e revoando

À casa vai do esmorecido Freire.

CANTO III

I

.....................................

.....................................

II

Que lance há hi, nessa comédia humana,

Em que não entrem moças? Descorada,

Como heroína de romance de hoje,

Alva, como as mais alvas deste mundo,

Tal, que disseras lhe negara o sangue

A madre natureza, Margarida

Tinha o suave, delicado aspecto

De uma santa de cera, antes que a tinta

O matiz beatífico lhe ponha.

Era alta e fina, senhoril e bela.

Delicada e subtil. Nunca mais vivo

Transparecera em rosto de donzela

Vergonhoso pudor, agreste e rude,

Que até de uns simples olhos se ofendia,

E chegava a corar, se o pensamento

Lhe adivinhava anônimo suspiro

Ou remota ambição de amante ousado.

Era vê-la, ao domingo, caminhando

À missa, coos parentes e os escravos

A um de fundo, em grave e compassada

Procissão; era ver-lhe a compostura,

A devoção com que escutava o padre,

E no agnus dei levava a mão ao peito,

Mão que enchia de fogos e desejos

Dez ou doze amadores respeitosos

De suas graças, vários na figura,

Na posição, na idade e no juízo,

E que ali mesmo, à luz dos bentos círios.

(Tão de longe vêm já os maus costumes!)

Ousavam inda suspirar por ela. [14]

III

Entre esses figurava o moço Vasco.

Vasco, a flor dos vadios da cidade,

Namorador dos adros das igrejas,

Taful de cavalhadas, consumado

Nas hípicas façanhas, era o nome

Que mais na baila andava.

Moça havia Que por ele trocara (erro de moça!)

0 seu lugar no céu; e este pecado,

Inda que todo interior e mudo,

Dous terços lhe custou de penitência

Que o confessor lhe impôs. Era sabido

Que nas salas da casa do governo,

Certa noite, de mágoa desmaiaram

Duas damas rivais, porque o magano

As cartas confundira do namoro.

Estas proezas tais, que o fértil vulgo

Com aumentos de casa encarecia,

E a bem lançada perna, e o luzidio

Dos sapatos, e as sedas e os veludos,

E o franco aplauso de uns, e a inveja de outros,

O cetro lhe doaram dos peraltas.

IV

E, contudo, era em vão que à ingênua dama

A flor do esquivo coração pedia;

Inúteis os suspiros lhe brotavam

Do íntimo do peito; nem da esperta

Mucama, - natural cúmplice amiga

Desta sorte de crimes, lhe valiam

Os recados de boca; - nem as longas,

Maviosas letras em papel bordado,

Atadas coa simbólica fitinha

Cor de esperança, - e olhares derretidos,

(continua...)

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