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#Contos#Literatura Brasileira

O Rei dos Caiporas

Por Machado de Assis (1866)

- Gasto dez tostões em alguma cousa, e com os cinco mil-réis de resto compro um quarto de loteria.

Já sabemos que ele tinha esta mania que lhe deixara uma das sete amas.

Assim fez.

Depois de comer tranquilamente um almoço sucinto e modesto, encaminhou-se para a rua da Quitanda e comprou o bilhete.

- 1441 - disse ele -, bom número; tenho fé.

Tinha uma esperança mas não tinha jantar nem cama. Felizmente a roda corria no dia seguinte. João das Mercês entrou a passear pelas ruas, disposto a sofrer filosoficamente a fome e o mais na esperança dos vinte contos.

Casualmente encontrou o tio Gaspar.

- Como estás? - perguntou-lhe o tio.

- Bom.

- Já te livraste do processo?

- Já.

- Tão depressa?

- Acha que foi depressa?

- Sim, essas cousas costumam a ser mais longas. Eu quis fazer alguma cousa por ti; mas tua tia, que é uma senhora de muito bem pensar, disse: "- Era bom ir socorrer o Joãozinho; mas o crime é tão feio que não é bom a gente meter-se nisto; que pensas tu Gaspar?" "- Que hei de pensar mulher? Penso que o rapaz é inocente e que foi atraiçoado; mas as aparências enganam... e nesse caso é minha vontade que não nos metamos nisto".

- Faz bem.

- Onde estás agora?

- Aqui na rua.

- Mas qual é o teu emprego?

- Passear.

- Que dizes?

- A verdade.

Gaspar, que não era mau homem, ficou penalizado com a situação do sobrinho. Quis fazer alguma cousa por ele; mas não ousava.

- Já comeste?

- Hoje comi; amanhã não sei.

- Olha - disse Gaspar com um belo movimento de generosidade -, toma lá; eu fui agora mesmo receber um dinheiro; toma dez mil-réis.

João das Mercês aceitou os dez mil-réis e abraçou o tio.

- Bem! - disse ele -. A sorte começa a ceder. Já tenho com que dormir hoje e comer amanhã.

Era não contar com o caiporismo e D. Angélica. Esta senhora pediu ao marido contas do dinheiro que fora cobrar. Gaspar contou-lhe francamente o estado em que achara João das Mercês e o procedimento que tivera. Dona Angélica irritou-se contra o marido e o sobrinho e exigiu a imediata entrega do dinheiro. Por honra dela, devo dizer que a sua intenção era simplesmente mortificar o marido. Mas este, acostumado a obedecer-lhe, tomou à letra a ordem e saiu desesperado em busca de alguém que lhe emprestasse dez mil-réis.

Esse alguém foi o sobrinho.

João das Mercês viu de longe o tio e aproximou-se dele. Achou-o triste e taciturno, perguntou-lhe o que tinha.

- Nada - disse Gaspar.

- Alguma cousa tem meu tio; vamos, diga o que é.

Gaspar não disse palavra.

Então lembrou-se João das Mercês do domínio que a tia exercia no ânimo do marido, e calculou que a tristeza de Gaspar se prendesse ao generoso presente dos dez mil-réis.

- Qual! - disse Gaspar, quando João das Mercês lhe comunicou a suspeita -. Angélica não era capaz de semelhante cousa; estima-te e respeita-te. A verdadeira causa de minha tristeza é que esse dinheiro não era meu, e eu dei-te os dez mil-réis por engano.

João das Mercês entregou o dinheiro ao tio.

Gaspar sentiu borbulhar-lhe uma lágrima nos olhos. Apertou a mão ao sobrinho e foi para casa. Entrava triunfante com os dez mil-réis, quando D. Angélica, franzindo o sobrolho, perguntou-lhe donde os houvera. Gaspar confessou-lhe a verdade.

- Quê! - exclamou a esposa -. Pois tu tiveste ânimo de ir tirar estes pobres dez mil-réis ao rapaz que nem comer tinha?

- Mas tu...

- Eu, o quê? Eu disse aquilo por dizer. Vai, vai entregar este dinheiro ao pobre rapaz.

- Onde o encontrarei agora?

Gaspar saiu e não achou o sobrinho. Às ave-marias voltou para casa, mas, receando que a mulher lhe revistasse as algibeiras, cousa que nunca deixava de fazer todas as noites, tratou de gastar os dez mil-réis como pôde.

João das Mercês passou a noite na rua; no dia seguinte almoçou com um outro companheiro do cartório; e à hora do costume foi para a Misericórdia ver correr a roda.

"Tenho um pressentimento", disse ele consigo, "de que hoje venço o destino."

Chegou; dez minutos depois o nº 1441 era aclamado como tendo obtido os vinte contos de réis.

João das Mercês desmaiou.

Deram-lhe os prontos socorros. Tornou a si, apalpou as algibeiras; e achou o abençoado bilhete.

Graças a este recurso inesperado foi à antiga casa de pasto, cuja dívida estava paga, e apresentou o bilhete.

- Tenho aqui a sorte grande; dê-me de jantar que eu depois de amanhã lhe satisfaço a conta do que for.

Foi prontamente obedecido. Jantou como um príncipe. No fim pediu ao caixeiro conhecido, sempre sobre a base do bilhete, alguns charutos que só tinham o defeito de não serem de Havana; no mais não prestavam para nada.

Mas naquela situação tudo o que se fuma é bom. Qualquer homem fumará alegremente couro de boi, se tiver a certeza de que no dia seguinte lhe metem na algibeira vinte contos de réis.

Acabava ele de acender um charuto, quando um sujeito que lhe ficara fronteiro, e tinha ouvido a conversa com o dono da casa, lhe disse com familiaridade:

- Com que então tirou a sorte grande?

- É verdade - respondeu João das Mercês, com a indiscrição de um homem feliz após tantas desgraças -. Tirei a sorte grande e ainda estou admirado disso.

(continua...)

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