Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

O protocolo

Por Machado de Assis (1862)

Caprichoso? Ousas tu, posteridade de Eva, falar de capricho a mim, posteridade de Adão!

LULU

Oh!...

PINHEIRO

Tua prima é uma caprichosa. De seus caprichos nasceram estas diferenças entre nós. Mas para caprichosa, caprichoso; contrafiz-me, estudei no código feminino meios de pôr os pés à parede, e tornei-me de antes quebrar que torcer. Se ela não der um passo, também eu não dou.

LULU

Pois eu estendo a mão direita a um, e a esquerda a outro, e os aproximarei.

PINHEIRO

Queres ser o anjo da reconciliação?

LULU

Tal qual.

PINHEIRO

Contanto que eu não passe pelas forcas caudinas.

LULU

Hei de fazer as coisas airosamente.

PINHEIRO

Insistes nisso? Eu podia dizer que era ainda um capricho de mulher. Mas não digo não, chamo antes afeição e dedicação.

Cena V

PINHEIRO, LULU, ELISA

LULU

(baixo)

Olhe, aí está ela!

PINHEIRO

(baixo)

Deixá-la.

ELISA

Andava a tua procura, Lulu.

LULU

Para quê, prima?

ELISA

Para me dares uma pouca de lã.

LULU

Não tenho aqui; vou buscar.

PINHEIRO

Lulu!

LULU

O que é?

PINHEIRO

(baixo)

Dize a tua prima que eu janto fora.

LULU

(indo a Elisa, baixo)

O primo janta fora.

ELISA

(baixo)

Se é por ter o que fazer, podemos esperar.

LULU

(a Pinheiro, baixo)

Se é por ter o que fazer, podemos esperar.

PINHEIRO

(baixo)

É um convite.

LULU

(alto)

É um convite.

ELISA

(alto)

Ah! Se é um convite pode ir; jantaremos sós.

PINHEIRO

(levantando-se)

Consentirá, minha senhora, que lhe faça uma observação: mesmo sem a sua licença, eu podia ir!

ELISA

Ah! é claro! Direito de marido... Quem lho contesta?

PINHEIRO

Havia de ser engraçada a contestação!

ELISA

Mesmo muito engraçada!

PINHEIRO

Tanto, quanto foi ridícula a licença.

LULU

Primo!

PINHEIRO

(a Lulu)

Cuida das tuas novelas! Vai encher a cabeça de romantismo, é moda; colhe as idéias absurdas que encontrares nos livros, e depois faz da casa de teu marido a cena do que houveres aprendido com as leituras: é também moda. (sai arrebatadamente)

Cena VI

LULU, ELISA

LULU

Como está o primo!

ELISA

Mau humor, há de passar!

LULU

Sabe como passava depressa? Pondo fim a estes amuos.

ELISA

Sim, mas cedendo ele.

LULU

Ora, isso é teima!

ELISA

É dignidade!

LULU

Passam dias sem se falarem, e, quando se falam, é assim.

ELISA

Ah! isto é o que menos cuidado me dá. Ao princípio fiquei amofinada, e devo dizê-lo, chorei. São coisas estas que só se confessam entre mulheres. Mas hoje vou fazer o que as outras fazem: curar pouco das torturas domésticas. Coração à larga, minha filha, ganha-se o céu, e não se perde a terra.

LULU

Isso é zanga!

ELISA

Não é zanga, é filosofia. Há de chegar o teu dia, deixa estar. Saberás então, quanto vale a ciência do casamento.

LULU

Pois explica, mestra.

ELISA

Não; saberás por ti mesma. Quero, entretanto, instruir-te de uma coisa. Não lhe ouviste falar no direito? É engraçada a história do direito! Todos os poetas concordam em dar às mulheres o nome de anjos. Os outros homens não se atrevem a negar, mas dizem consigo: "Também nós somos anjos!". Nisto há sempre um espelho ao lado, que lhes faz ver que, para anjos faltam-lhes... asas! Asas! asas! a todo o custo. E arranjam-nas; legítimas ou não, pouco importa. Essas asas os levam a jantar fora, a dormir fora, muitas vezes a amar fora. A essas asas chamam enfaticamente: o nosso direito!

LULU

Mas, prima, as nossas asas?

ELISA

As nossas? Bem se vê que és inexperiente. Estuda, estuda, e hás de achá-las.

LULU

Prefiro não usar delas.

ELISA

Hás de dizer o contrário quando for ocasião. Meu marido lá bateu as suas; o direito de jantar fora! Caprichou em não levar-me à casa de minha madrinha; é ainda o direito. Daqui nasceram os nossos arrufos, arrufos sérios. Uma santa zangar-se-ia, como eu. Para caprichoso, caprichosa!

LULU

Pois sim! Mas estas coisas vão dando na vista; já as pessoas que freqüentam a nossa casa têm reparado; o Venâncio Alves não me deixa sossegar com as suas perguntas.

ELISA

Ah! Sim!

LULU

Que rapaz aborrecido, prima!

ELISA

Não acho!

LULU

Pois eu acho: aborrecido com as suas afetações!

ELISA

Como aprecias mal! Ele fala com graça e chamá-lo afetado!...

LULU

Que olhos os seus, prima!

ELISA

(indo ao espelho)

São bonitos?

LULU

São maus.

ELISA

Em que, minha filósofa?

LULU

Em verem o anverso de Venâncio Alves, e o reverso do primo.

ELISA

És uma tola.

LULU

Só?

ELISA

E uma descomedida.

LULU

É porque os amo a ambos. E depois...

ELISA

Depois, o quê?

LULU

Vejo no Venâncio Alves um arzinho de pretendente.

ELISA

À tua mão direita?

LULU

À tua mão esquerda.

ELISA

Oh!

LULU

É coisa que se adivinha... (ouve-se um carro) Aí está o homem.

ELISA

Vai recebê-lo. (Lulu vai até à porta. Elisa chega-se a um espelho e compõe o toucado)

Cena VII

ELISA, LULU, VENÂNCIO

LULU

O Sr. Venâncio Alves chega a propósito; falávamos na sua pessoa.

VENÂNCIO

Em que ocupava eu a atenção de tão gentis senhoras?

LULU

Fazíamos o inventário das suas qualidades.

VENÂNCIO

Exageravam-me o cabedal, já sei.

LULU

A prima dizia: "Que moço amável é o Sr. Venâncio Alves!".

VENÂNCIO

Ah! e a senhora?

LULU

Eu dizia: "Que moço amabilíssimo é o Sr. Venâncio Alves!".

VENÂNCIO

Dava-me o superlativo. Não me cai no chão esta atenção gramatical.

LULU

Eu sou assim: estimo ou aborreço no superlativo. Não é prima?

ELISA

(contrariada)

Eu sei lá!

VENÂNCIO

(continua...)

1234567
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →