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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Pois não! O homem, meu caro senhor, apresenta­se­nos sempre por um prisma falso; é a capa do charuto de que há pouco lhe falei... Por fora, muito liso, muito cheiroso e com um ar magnífico. Quem dirá pelas aparências que tão sedutor charuto não é bom?... Entretanto, se o senhor o acender e insistir em fumá­lo, far­lhe­á ele uma ferida na língua. Desdobre­o! há de achar dentro, em vez de tabaco, papelão! Imagine que eu encontrasse na sociedade um homem de bom­tom, um elegante com a resposta pronta, a casaca irrepreensível e a luva fresca, e ligasse o meu destino ao dele; mas que, na ocasião íntima de desdobrar esse belo espírito lhe descobrisse o tal miolo de papelão...

— Oh!

— É justamente o que eu diria: "Oh!"

E Ambrosina comprimiu os lábios com a graça de um beijo.

— O que, todavia, não evitava, continuou ela rindo, que tivesse eu aquele trambolho amarrado à minha vida como uma grilheta de condenado. Escolhendo, ao contrário, um homem sem qualidades brilhantes, não teria eu de sofrer decepção de nenhuma espécie, e é possível até que chegasse, depois do casamento, a descobrir em meu marido algum dote, verdadeiro e sólido, para o qual a sociedade não se desse ao trabalho de reparar...

Gabriel soltou uma risada, e Ambrosina prosseguiu:

— Creio, meu caro doutor, que a sociedade é para os homens medíocres o que o palco é para as atrizes de segunda ordem — simplesmente um meio de lhes realçar as graças e emprestar encanto às que o não possuem. Toda a mulher feia, que souber preparar­se bem, será bela no palco; todo o homem vulgar, que souber repetir de orelha certos conceitos alheios e guardar silêncio quando for preciso, será nas salas um homem elegante e do bom­tom. Para aquelas, é preciso pintar os olhos, fazer um sinal na face, dar tinta aos lábios, arranjar os cabelos; para estes, é necessário um título qualquer, algum dinheiro, saber vestir­se à moda, conhecer certos prazeres, falar de óperas e cantores, mulheres e cavalos. E aí tem o senhor como se ama uma mulher bonita ou um homem de salão; ambos com os seus competentes diplomas — uma das platéias, e outro das salas. Entretanto, se o senhor desejar uma mulher verdadeiramente bonita, bonita sem artifícios, sem alvaiade, sem carmim, sem cabeleira, não a irá buscar certamente ao teatro; do mesmo modo, se o senhor quiser um homem que sirva de marido, não o deve procurar nos bailes, porque ele já não existe. Tanto aquele que trouxer para o seu lar uma étoile das rampas do teatro, como aquela que levar para casa um leão caçado ao som de valsas, sofrerá tremenda decepção.

— V. Exa. então não aceitaria para esposo um herói da moda?...

— Está claro que não. Pois eu queria lá marido para os outros?... Queria lá um marido que passasse algumas horas no lar apenas por obrigação doméstica, e viesse impressionado com a toilette da viscondessa tal, como o perfume da baronesa tal e tal, e com os amores escandalosos de todas as mulheres? Para meu marido desejaria eu um homem tão bom, que me não desse ocasião de desejar outro melhor; mas não o procuro, nem faço o menor empenho em o encontrar.

E levantando­se, observou:

— Olhe! está terminada a quadrilha e o meu par desta valsa não tarda a vir buscar­me.

— Mas V. Exa. não respondeu à minha principal pergunta...

— Se o virei a amar?... é muito natural que não.

E separaram­se.

Gabriel só falou depois com Ambrosina em casa do pai dela, na situação em que o deixamos no capítulo anterior.

Vejamos agora o que disseram os dois neste novo encontro:

— Mas, por que faz o Sr. essa cara tão esquisita, ao saber de quem sou filha?. . . perguntou a linda moça, oferecendo uma cadeira a Gabriel.

— O comendador demora­se! averiguou este, assentando­se.

— Depende de nós. Meu pai recolhe­se sempre depois do jantar e não aparece antes das nove horas da noite, a não ser que alguém o procure. Podemos estar à vontade. Nem sabem até que o senhor cá está. Conversemos sem constrangimento...

— Nesse caso, vou falar­lhe com toda a franqueza. Diga­me uma coisa: A senhora, quero dizer, V. Exa....

— Não! trate­me mesmo por Senhora.

— Obrigado. A senhora anda a par dos negócios de seu pai?...

— Valha­me Deus! eu sei cá dos negócios de meu pai! Que posso saber eu disso?.

— Não sabe então que ultimamente ele comprou as dívidas.

— As dívidas do coronel Pinto Leite? Oh! mas isso foi um escândalo; nem há no Rio quem o não saiba. Aqui em casa não se fala noutra cousa! Porém, a que propósito vem tudo isso? o que tem o senhor com esse negócio?...

— Muito mais do que se persuade: e, uma vez que o fato já anda pela imprensa, posso dizer­lhe com franqueza que sou eu a tal pessoa que pagou ao senhor seu pai as dívidas do coronel.

— O senhor?!... interrogou Ambrosina com a mais completa surpresa. E atravessou Gabriel com um olhar penetrante que nem uma sonda. "Ele!" dizia ela consigo. E procurava descobrir­lhe alguma cousa, algum indício, por onde acreditasse nos seus consideráveis bens de fortuna.

— Sim, minha senhora; não desejava entrar nestas explicações, mas...

(continua...)

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