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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Em poucas palavras poremos o leitor a par deste sujeito, que tão importante papel desempenhou na Guerrados-mascates. E para que o retrato venha com o cunho de severa autenticidade, preencheremos a nossa promessa trasladando aqui as próprias palavras em que um cronista pernambucano o descreveu para conhecimento da posteridade. < Este sujeito era um homem rústico e grosseiro, de idade já maior, que do reino de Portugal tinha há anos vindo para esta terra, trazendo da sua, por divisa, uma grande cutilada no rosto, ou para que a se não desconhecesse, ou para que por ela fosse conhecido; mas diziam que por usar do oficio de parteira, e para disfarçá-la de algum modo, conservava os seus bigodes, ou mustachos, em tempo que ninguém fazia caso deles. Buscando meios de poder acomodar-se, fez em Goiana assento de feitor, por seu salário em casa do sargento-mór Matias Vidal, a fim de no serviço dirigir os negros; mas estes, conspirando-se contra ele em certo dia, lhe deram uma pista de pancadas que na etiópica língua chamam Tunda, e o lugar onde lhe deram chama-se Cumbe. Como se fez o caso publico, por antonosia lhe chamavam o TundaCumbe, e sendo por este nome de todos conhecido, como quem faz do sambenito gala, quis do modo como era apelidado, apelidar-se. Daí se foi para a freguesia da Várzea, e nela esteve com o mesmo exercício de feitor do Capitão Lourenço do Cunha Moreno, e depois tornou para Goiana, e se fez almocreve de peixe, indo, com uma besta, a buscálo pelas praias, e pelas portas dos moradores a vendê-lo: nesta ordem de vida se manteve até que sucedeu o levante do Recife, em que tomou parte, que veremos.

- Então, menino cantador, disse o Tunda-Cumbe a Lourenço, com entono e arrogância mais de quem agredia, do que perguntava – será certo que você está apaixonado pela Bernardina? Pois olhe, quero preveni-lo de uma coisa, para que depois não vá você chamar-se ao engano. Sabe muito bem que todas as semanas, da Sexta para o sábado, ando eu por estas bandas a vender o meu peixe.

- Sei, disse Lourenço, sem se alterar, com os olhos postos, como quem nisso tinha propósito, na funda cicatriz do Tunda-Cumbe não tão oculta pelo espesso bigode, que se não pudesse deixar ver.

- Pois fique sabendo mais que aquilo é tainha que eu tenho contado há de cair, mais dia, dentro do meu caçuá.

- Você refere-se a Bernardina?

- A ela mesma é que me estou referindo, sim, senhor.

Pois eu também quero dizer-lhe uma coisa. Eu com ela nada tenho. Se canto e gracejo com a rapariga, é porque tenho amizade na casa. Nela não tenho intenção de espécie nenhuma, porque, quando a gente não sente inclinação para uma mulher, por muito que ela se derrengue para a gente, não passa tudo isso de divertimento sem maldade. Mas como diz você que já conta com aquela tainha no seu caçuá, a coisa muda de figura.

- Menino – tornou o Tunda-Cumbe, você para Ter comigo esta linguagem, preciso fora primeiro que ou não estivesse no seu juízo, ou não me conhecesse devidamente. Saberá acaso com quem é que está falando?

- Sei muito bem que estou falando com seu Manoel Gonçalves Tunda-Cumbe.

Pois então veja d’ora em diante como anda. Depois não vá dizendo que Santo Antonio o enganou.

- Você é que parece estar enganado comigo, retorquiu-lhe Lourenço, sentindo faiscar-lhe já os olhos. Eu há muito tempo não faço uma das minhas, mas, em ocasião se oferecendo, não lhe hei de torcer a cara, e bem pode acontecer quem para ficar você melhor assinalado, lhe vá eu deixar no queixo direito o golpe que lhe falta para fazer parelha com o que lhe plantaram no outro queixo, quando você tinha o oficio de partejar na santa terrinha.

A violência desta represália deixou perplexo, e como espantado por momentos o Tunda-Cumbe, pouco habituado, não obstante a tunda sabida, a ouvir cara a cara tão pesadas reprimendas.

Não conhecia ele o Lourenço senão de o ver uma vez por outra almocrevando, e pensou que com a simples ameaça, sendo tão conhecido por seus feitos que, em abono da verdade, davam para um in-fólio, levaria logo o terror ao animo do rapaz. o seu desengano foi formal, ou como quem procurava recursos e força dentro em se mesmo, TundaCumbe esteve um instante sem proferir palavra, dizendo porém mil coisas pelos olhos que não arredou de sobre a cara de Lourenço.

- Não embatuque por tão pouco, acrescentou este como em acrescentamento do pouco caso em que revelara ter o seu agressor. O que você disse está dito; não queira agora tornar atrás, que você seria mais desprezível do que a besta em que costuma vender o seu peixe velho e moído, se recuasse depois desta avançada. Agora, de que eu sou capaz de fazer o que prometi, você a seu tempo há de ter a prova. E para que fique logo conhecendo que eu não sou de caixas encoiradas e que aonde vou não mando, veja lá como me ponho já a derreter com a filha de seu Victorino, mesmo aqui nos seus bigodes.

(continua...)

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