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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

— Então ? Que fazem ? Vão sentando-se, e toca a comer.

Não esperem por mim, que sou de casa e não tenho etiquetas.

E entrou novamente, manifestando, pela prontidão com que tratava de pôr a ceia, a melhor vontade de ser agradável aos estranhos hóspedes.

Não eram estes no todo simpáticos, mas também não eram mal encarados.

O que representava ser mais moço era seco de corpo, tinha boa estatura, cor fula, olhos cintilantes e redondos, cabelo chegado ao casco. O nariz um pouco rombo estava em desarmonia com as outras partes da cara onde se lia uma expressão de audácia, que respondia bem à agilidade do corpo.

O outro era feio de feições, baixote e roliço. A cor, o ângulo facial, o cabelo carapinha estavam claramente denunciando a sua proveniência africana.

Por baixo dos capotes, já velhos, cingia-lhe os rins um cinto de couro donde a cada um pendia uma espada de ponta direita. Eram as espadas as únicas armas que traziam à vista. Sentaram-se à mesa sem tirar os chapéus de palha com que estavam cobertos.

— Vinho ou cachaça ? — perguntou o velho, apontando, de volta, na porta, com uma penca de bananas que lhe vinham caindo das mãos de maduras.

— Vinho — disse o mais moço.

— Traga da cana para mim — acrescentou o outro.

— Muito bem — respondeu Timóteo. — Olhem: o pão é da padaria do Zé Braga, o peixe é do viveiro do Muniz, a farinha é de Muribeca, e as bananas são do meu quintal. A cachaça é do engenho Mendonça, e o vinho é puro de Lisboa.

No fim da ceia, que as reiteradas libações prolongaram, e que correu animada, por mais de um dito, um gracejo, uma sentença licenciosa, o Timóteo dirigiu estas palavras aos hóspedes:

— Não está má esta. Dei-lhes da minha ceia sem saber quem são vosmecês. Agora, os seus semblantes, se não me falta a memória, não me são de todo estranhos.

— Assim deve ser — disse o cabra. — Mais de uma vez tenho comprado aqui o meu vintém de aguardente.

— Isto é outro cantar; já vejo que somos conhecidos velhos.

— Tão conhecidos somos, seu Timóteo — replicou o cabra — , que tomo a liberdade de o convidar para um passeio agora mesmo por esta estrada afora.

— Nossa Senhora da Paz livre-me tal — disse Timóteo empalidecendo. — Sair a esta hora, por este tempo, deixar a minha casa à revelia, Santo Deus! Nem pensem nisto, meus bons amigos.

— Não tem que recear, meu caro. Cada um de nós traz, como vê, uma espada à cinta, e a sabe manejar.

— Bem estou vendo — disse Timóteo. — Mas sempre lhes quero dizer: o crioulo Gabriel sabia muito bem jogar a espada, e melhor a faca, mas o Cabeleira o lambeu.

— Ah ! o Cabeleira? — disse o negro.

— Sim, senhor; ele aparece por aqui às vezes; eu o tenho visto fazer proezas de espantar.

— Seu Timóteo — disse o cabra, levantando-se — , fez bem em falar no

Cabeleira. Eu quero perguntar ao senhor uma coisa…

Antes que terminasse a sua oração fez-lhe um sinal o negro, e ele disfarçou por este modo:

— Mas é já tarde, e nós não podemos demorar mais. Vem ou não vem ?

— Para onde, senhor ? — perguntou o vendeiro, levantando-se aterrado por haver finalmente compreendido que tinha diante dos olhos dois inimigos.

— Saberá depois. O essencial é que nos acompanhe.

— Não posso fazer tal coisa.

Timóteo recuou instintivamente quando ouviu as últimas palavras do desconhecido. Este porém, em um instante o tinha segurado pelos pulsos enquanto o negro lhe passava uma corda nos braços.

— Como é que me fazem isto ? — perguntou Timóteo — Querem matar-me ?

— Não, senhor — disse o cabra. — Você há de chegar vivo, bem vivo a seu destino, ainda que o Cabeleira se meta a tirá-lo das nossas unhas, o que eu duvido.

— E a minha venda ?

— A sua venda fica aí; nós não a levamos.

— Mas... roubam-me tudo, tudo.

— Não tem você roubado a tanta gente ?

— Ora ! Feche bem as portas, e avie-se que é tempo. Se não quer ir pelos pés, irá amarrado como um porco.

Timóteo aceitou, contra vontade, já se vê, e por não ter outro remédio a situação que lhe afigurou irrevogável.

—Vista o seu gibão, que você vai ser apresentado a gente nobre.

— Ah ! — disse o vendeiro, respirando, mas não sem grande espanto, que mal disfarçou.

Pouco depois os três convivas seguiam, a marcha batida, pela estrada de Santo Antão. Tendo deixado a taberna, cujas chaves o Timóteo levava consigo por permissão dos desconhecidos, haviam estes pouco adiante entrado com ele no mato para tomarem dois cavalos que ali tinham deixado ocultos. Em um deles montou o negro, e no outro montaram o cabra e o vendeiro, este passado de medo, que o acaso não era para menos, aquele guardando-o na garupa, e tendo uma faca nua na mão. Tomaram novamente a estrada, e logo desapareceram como sombras fantásticas, no fundo da escuridão.

Conforme a deliberação tomada no senado da câmara pelo governador, capitães mores e coronéis de ordenanças, a busca dos malfeitores tinha de ser dada ao mesmo tempo nas matas dos respectivos distritos.

(continua...)

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