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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Alguns dias cruéis e noites de agonia passou Eugênio nesta tempestuosa agitação, que quase tocava ao delírio. Às vezes lhe fervia o coração em desejos de vingança e idéias de sangue e suicídio lhe pairavam lôbregas pelo espírito. Outras vezes, inculpando-se a si mesmo da deslealdade de Margarida, e tendo-a como um merecido castigo de sua atroz ingratidão, corria após ela, e ia cair-lhe aos pés suplicante e debulhado em lágrimas, pedindo-lhe perdão do seu monstruoso perjúrio, e maldizia a loucura e covardia que lhe havia feito desprezar um tesouro real, que o destino lhe havia colocado entre os braços, para correr após a sombra de um bem, que o céu lhe recusava.

Esta extrema e violenta superexcitação não podia durar muito tempo sem produzir a morte ou a loucura. Sucedeu-lhe porém felizmente a prostração profunda, o desalento glacial do desengano.

A alma do mancebo, que era até então como um foco de chamas açoitadas por ventos tempestuosos, converteu-se em um limbo silencioso, gélido e sombrio, onde não havia um eco nem para a dor, nem para o prazer, onde não se exalava o perfume de uma saudade, nem luzia o reflexo de uma esperança.

Seu espírito parecia adormecido em pesado torpor, sobre as ruínas de todas as suas afeições mundanas, de todas as suas aspirações de ideal e celeste misticismo.

— É mais uma provação, que Deus vos reservava, filho — dizia-lhe o padre diretor, procurando consolá-lo -; mais um cálix de amargura, para vos acrisolar nas atribulações da vida, e vos servir de escarmento eterno contra as ilusões do mundo. Era necessária ainda esta última gota de fel, para tornar o sacrifício mais perfeito e agradável aos olhos de Deus. Bem-aventurados os que choram.

CAPÍTULO XX

Banidas da fazenda do capitão Antunes, Umbelina e Margarida, tristes, como outrora Agar e Ismael despedidos da tenda de Abraão, e internando-se pelo deserto, tomaram o caminho da vila de Tamanduá, onde Umbelina possuía ainda uma pequena casa habitada por uma velha parenta, ainda mais pobre do que ela.

Umbelina, já bastante entrada em anos, e cheia de achaques, quase nada mais podia fazer. Sua velha companheira, essa coitada!... vivia quase às esmolas. Aquela pequena e desvalida família teria caído na mais extrema miséria, se não fosse Margarida que, cheia de mocidade, robustez e boa-vontade, se entregava a um contínuo trabalho, cosendo, lavando, engomando, e assim provia à parca subsistência de todos, e lhes proporcionava mesmo um pouco de abastança.

Mesmo naquela humilde condição, a formosura de Margarida, que havia atingido a todo o opulento viço, a todo o esplendor da juventude atraía a atenção geral, e fascinava todos os olhos.

Lavando roupa, com os lindos braços nus, como as asas de uma ânfora de alabastro, os cabelos entornados pelos ombros, como a ramagem do salgueiro, com os pés embebidos na água, e as roupas arregaçadas deixando ver as extremidades de duas colunas do mais perfeito lavor era a náiade da fonte.

No templo, vestida pobremente mas com esmerado asseio e elegante singeleza, com os tímidos e pudibundos olhos velados pelos longos cílios, em sua cândida e modesta atitude tomá-la-íeis por uma estátua da Virgem, produção genial de inspirado cinzel.

Em casa, fiando ou entregue aos trabalhos de agulha, vendo aquele busto angélico pendido sobre a almofada, vos lembraríeis da casta Lucrécia, ou da pudica Susana.

Desprotegida como se via, sua pureza navegava entre mil riscos em um mar semeado de cachopos e sirtes traiçoeiras, e como lâmpada exposta a todos os ventos, mantinha-se como por um milagre. Não faltaram libertinos e sedutores, que dispondo dos favores da fortuna, da posição e da mocidade, empregassem inúteis esforços para arrastá-la ao lodo da prostituição; nem também amantes, que possuídos de sincero e verdadeiro amor, cobiçassem com ardor a posse do coração e da mão de Margarida.

Não era porém somente o inimigo externo, que ela tinha a temer. De temperamento ardente, de compleição sangüínea vigorosa, Margarida não era muito própria para manter por largo tempo a sua afeição na esfera de uma aspiração ideal de um celeste devaneio. Feita para os prazeres do amor e para as expansões ternas do coração, os instintos sensuais achavam em sua natureza estímulos de indomável energia; sua pudicícia teria infalivelmente naufragado no meio dos perigos que a rodeavam, se uma paixão casta e santa, que desde a infância lhe enchia o coração, lhe não servisse de broquel contra todas as seduções do mundo.

O anjo do amor puro velava desde o berço sobre a encantadora menina, e com suas asas cândidas afugentava para longe dela as larvas do gênio da devassidão.

Graças a este celeste talismã, Margarida, como um lírio de alvura deslumbrante, balanceava incólume e orgulhosa o cálix imaculado no meio da torrente turva e impetuosa, que lhe rugia em derredor.

Já perto de sete anos eram volvidos, desde que se partira o querido companheiro de sua infância.

(continua...)

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