Por José de Alencar (1857)
O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu caráter nobre simpatizava com aquela natureza inculta.
Cecília porém, apesar do reconhecimento que lhe inspirava a sua dedicação por ela, não podia vencer o receio que sentia vendo um desses selvagens de quem sua mãe lhe fazia tão feia descrição, e de cujo nome se servia para meter-lhe medo quando criança.
Em Isabel o índio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a presença de um homem daquela cor; lembrara-se de sua mãe infeliz, da raça de que provinha, e da causa do desdém com que era geralmente tratada.
Quanto a D. Lauriana, via em Peri um cão fiel que tinha um momento prestado um serviço à família e a quem se pagava com um naco de pão. Devemos porém dizer que não era por mau coração que ela pensava assim, mas por prejuízos de educação.
Quinze dias depois que Cecília fora salva por Peri, uma manhã Aires Gomes atravessou a esplanada e foi ter com D. Antônio que estava no seu gabinete.
— Sr. D. Antônio, esse estrangeiro a quem destes hospedagem há duas semanas, pede-vos audiência.
— Manda-o vir.
Aires Gomes introduziu o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano que em se havia transformado o carmelita Fr. Ângelo di Luca.
— Que desejais, amigo, faltaram-vos em alguma coisa?
— Ao contrário, sr. cavalheiro; acho-me tão bem, que o meu desejo seria ficar.
— E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o nome do que chega, também não lhe inquire o tempo de partida.
— A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, sr. cavalheiro; mas não é dela que desejo falar.
— Explicai-vos então.
— Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e filhos que lhe chegaram do Reino.
— Sim; já ontem me falou disso.
— Falta-vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso inconveniente.
— Nenhum absolutamente.
— Nesse caso posso considerar-me como admitido?
— Atendei; Aires Gomes vai dizer-vos as condições a que vos sujeitais; se estiverdes por elas, é negócio decidido.
— Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo.
— Ide sempre.
O fidalgo chamou o seu escudeiro e incumbiu-o de pôr o italiano ao fato das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu serviço. Era este um dos privilégios de Aires Gomes, que o desempenhava com toda a gravidade de que era suscetível a sua personagem um pouco grotesca.
Chegados à esplanada, o escudeiro perfilou-se e proferiu o seguinte intróito:
— Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que se sujeita todo aquele que entrar à soldada na banda do Sr. cavalheiro D. Antônio de Mariz, fidalgo cota d’armas, do tronco dos Marizes em linha reta.
Aqui o escudeiro molhou a palavra e prosseguiu:
— Primo: Obedecer sem replicar. Quem o contrário fizer, pereça morte natural. O italiano fez um gesto de aprovação.
— Isto quer dizer, misser italiano, que se um dia o Sr. D. Antônio vos mandar saltar deste rochedo embaixo, fazei a vossa oração e saltai; porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Aires Gomes, lá ireis.
Loredano sorriu.
— Secundo: Contentar-se com o que há. Quem o contrário...
— Com o vosso respeito, Sr. Aires Gomes, não vos deis a um trabalho inútil; sei tudo o que ides rezar-me, e por isso dispenso-vos de continuar.
— Que quereis dizer?
— Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me descreveram a cerimônia que ora pondes em prática.
— Não obstante...
— Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quiserdes.
E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigiu-se para o gabinete de D. Antônio enquanto o escudeiro, zangado por não ter levado ao fim a cena de iniciação a que dava tão grande valor, resmungava:
— Não pode ser boa casta de gente!
Loredano apresentou-se a D. Antônio.
— Então? disse o fidalgo.
— Aceito.
— Bem; agora só falta uma coisa, que Aires Gomes não vos disse naturalmente.
— Qual, sr. cavalheiro?
— É que D. Antônio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o ombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de toda a família a que atualmente pertenceis.
O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a alteração da fisionomia.
Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentiu-se perturbado: porque já então lhe fermentava no cérebro o plano da trama que ia urdir, e que vimos revelar-se um ano depois.
Saindo do lugar em que deixara oculto o seu tesouro, o aventureiro caminhou direito à casa de D. Antônio de Mariz e pediu a hospitalidade que a ninguém se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna.
Duas idéias se tinham apresentado ao seu espírito no momento em que se vira possuidor do roteiro de Robério Dias.
Iria à Europa vender o segredo a Filipe 11 ou a qualquer outro soberano de uma nação poderosa e inimiga da Espanha?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.