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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Estes preparativos de longa ausência, talvez eterna, duraram dois dias. Ao cabo deles, o gaúcho abraçou a mãe e a irmã, que se debulhavam em pranto, e montando no Juca, partiu a galope acompanhado da Morena e mais tropilha. 

Em caminho soube que o coronel já não estava em Jaguarão, e se retirara à sua estância. Seguiu, portanto, na direção de Camacã, onde chegou ao cabo de oito dias de jornada. 

Bento Gonçalves tomava seu mate chimarrão passeando na varanda.

— Então, que novidade é esta? 

— Eu assim que soube, vim. Bem si que meu padrinho não precisa de mim; mas o coração me pedia. 

— E por que não hei de precisar de ti, rapaz? disse Bento Gonçalves abraçando-o. Estava justamente eu à procura de três camaradas valentes e prontos para tudo. Assim arranjo-me contigo que vales por três, mas tens um corpo só, o que não dá tanto na vista como um farrancho de capangas.  

— Força, não terei; mas boa-vontade tenho por dez. Pode ficar certo. 

Bento Gonçalves ia freqüentemente a Porto Alegre, onde gozava de uma grande popularidade conquistada por seu caráter franco, gênio liberal e maneiras cavalheirescas. Em princípio, essas excursões tinham um fim político; irritado com a demissão, assentara de reagir, ameaçando a presidência com manifestações populares em favor de sua causa. 

Satisfeito porém o amor-próprio com o receio que seu nome incutia, descansou na certeza da mudança próxima, não só do presidente, como do governo-geral pela eleição de Feijó para o cargo de regente. O fim das constantes visitas a Porto Alegre já não era senão dar pasto à prodigiosa atividade, consumindo o tempo nos divertimentos da capital, e nos jogos de azar onde se perdiam grandes somas. 

Depois de sua chegada a Camacã, era Manuel quem acompanhava Bento Gonçalves nessas excursões freqüentes. Naquele tempo não havia segurança pelos caminhos; e um homem da posição do coronel devia ter muitos inimigos, para com razão acautelar-se contra qualquer surpresa.  

Tal era porém a confiança que tinha em si e no camarada, que viajava tão tranqüilo como no meio de uma escolta. 

 

XIII 

A PROMESSA 

 

Uma semana tinha decorrido, depois que Manuel Canho deixara Ponche-Verde. 

Deviam ser 10 horas da manhã. 

Estava Jacintinha sentada no alpendre da casa ocupada em bordar a crivo uma nesga de cambraieta. Seus dedos ágeis iam debuxando os relevos do desenho, estampado em um molde cujos lavores apareciam sob a transparência do linho. 

A linda menina prometera a Nossa Senhora cobrir com uma toalhinha bordada por suas mãos o berço de seu adorado Menino Jesus, para que a Virgem em sua infinita bondade conservasse à mãe o filho ausente. 

Por isso, desde muitos dias se ocupava a menina tão assiduamente com esse trabalho. Estava impaciente por cumprir a promessa, e assegurar para seu querido irmão a proteção da Mãe de Deus. Em sai fé ingênua, imbuída das crenças populares, pensava ela que o favor divino dependia dessa humilde oblação. Acabada a toalhinha e levada ao altar para servir no dia de Natal, Manuel ficaria invulnerável; não haveria mal que lhe chegasse mais. 

Soou no campo o tropel de uma cavalo. Erguendo os olhos com a curiosidade própria de sua vida retirada e monótona, viu Jacintinha um cavaleiro desconhecido; pelo ar, como pelo trajo, dava mostra de não ser do lugar. Tinha um chapéu de abas curtas e reviradas, com galão à moda espanhola; calções e jaleco de pano verde-escuro bordado com torçal escarlate; faixa de seda vermelha; e botas à escudeira. 

O cavaleiro também de seu lado já tinha descoberto Jacintinha, e olhava para ela atentamente. Passando além da casa, voltou-se na sela e assim caminhou algum tempo para não perder de vista a moça. 

Seguiu o desconhecido na direção do pequeno povoado, que se compunha apenas de uma dúzia de casebres agrupados na margem do arroio. Não havia decorrido meia hora, quando ele tornou pelo mesmo caminho, passando segunda vez em frente à casa. Agora, porém, trazia o cavalo, a sacar, não só para mais garbo do andar como para disfarce da demora. 

Esse passo alto e cadente, que o animal tira com nobreza, apesar de vivo e pronto, pouco avança; e sucede muitas vezes, colhendo a rédea o cavaleiro, ser marcado no mesmo lugar, à semelhança de um soldado quando executa uma evolução. Foi justamente o que sucedeu daquela vez. 

Quase fronteiro ao alpendre, o desconhecido fez o cavalo brincar no mesmo terreno, sem adiantar uma polegada; ao contrário, de vez em quando empinava o garboso ginete, que passarinhando recuava a escarvar o chão. 

No meio destes floreios o cavaleiro cortejo com um gesto de galanteria a moça, que excitada pelo rumor erguera os olhos, porém logo os abaixou confusa para o bordado, onde ficaram pregados. 

Depois de algumas escaramuças, para chamar de novo a atenção da menina, vendo que era baldado o intento, usou o cavaleiro de uma estratégia. Fez empinar o ginete e soltou um grito fingindo espanto ou medo. Assustada, Jacintinha voltou-se, cuidando que uma desgraça sucedera ao desconhecido. 

(continua...)

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