Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— Se quiser é assim. Pintor é casta que não entra cá na família. Marta há de casar-se com um escrevente, para que eu tenha sucessor. 

Tinha o Ivo amor a seus pincéis e sonhava com a glória; mas os olhos pretos de Marta volviam para ele com um tão mavioso requebro. 

— Decida! tornou o tabelião. 

— Aceito. 

E pelo 2º outorgante foi dito que de sua parte aceitava e prometia sob juramento, et cetera, et cetera. – Menina, chama tua mãe para assinar. 

Enquanto o escrevente punha o fecho da escritura, o Sebastião Ferreira fez o Ivo jurar sobre um missal a condição a que ficava sujeito para obter a mão de Marta. 

Concluída a cerimônia, voltou-se o tabelião para os dois noivos. 

— Agora podem-se beijar, na conformidade da lei. 

Mas esse beijo ob veniam paternam, e como sanção do contrato esponsalício, era desenxabido e não tinha o sainete daquele que o velho tão desastradamente perturbara. O Ivo pousou ao de leve os lábios na fronte rubescente de Marta, prometendo-se mais tarde, naquela mesma noite talvez, roubar à boca faceira de sua amada, outro beijo mais saboroso. 

O casamento dos noivos efetuou-se um ano depois. Já compenetrado da realidade da vida, o Ivo esquecera os seus pincéis, para tornar-se um escrevente de cartório, ao gosto do futuro sogro, a quem devia suceder. Viveu feliz; e se alguma vez lhe perpassavam pela mente os sonhos de glória, que haviam embalado sua juventude, era nuvem passageira. 

 

A leal cidade de São Sebastião perdera um artista, o primeiro talvez que nasceu em seu seio; mas nem se apercebeu disso, como não se apercebe ainda hoje dos talentos que a sua indiferença vai mirrando, e caem por aí esmagados sob a pata do charlatanismo insolente. 

« Primeiro‹ Anterior...3536373839Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →