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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Veio enfim pelo lago descendo, Não um carro, nem rico batel.

Nem riquezas, nem luxo trazendo Vasos d’ouro repletos de fel;

Mas somente uma cesta de flores,

Que teceram benignos amores.

Já o ar outra vez rescendia, E outra vez doce canto se ouviu;

Entre eflúvios e a terna harmonia. A donzela porém não dormiu. Belo jovem em terra saltou;

Por que a virgem não mais trepidou?...

Era lindo o donzel... tão formoso...

Seu sorrir tem feitiços de amor; Veio vindo... e parou cobiçoso Como em êxtase olhando pra flor: E a donzela pra o seu anjo olhando, Suspirou, porque o viu suspirando.

O seu braço gracioso estendeu Pra roseira o dileto de amor, O terceiro botão já colheu...

Não se ouviu mais o grito de dor. E o mancebo com fogo, e paixão Vai beijar o colhido botão.

Porém pára... enlevado... perdido...

O presente de amor contemplando, Que com tanta ventura colhido

Pouco a pouco se vai desfechando, E oferece, em lugar de botão, Da donzela o feliz coração...

Bate as asas o anjo contente,

E primeiro baixando o adejo, Da donzela tão pura, inocente,

Vai nos lábios deixar santo beijo. E saudoso alça então vôo seu Para sua morada... no céu.

E o mancebo feliz... belo... ardente Corre à virgem com vivo fervor,

E sem ver, que ela é toda inocente,

Quer também dar-lhe um beijo de amor, Mas a virgem tremeu... não ousou...

E um grito soltando... acordou. -------------------------------------------------- O que é sonho?... é verdade ou quimera!...

O que é sonho?... é a alma que vela, Que vagando por mais alta esfera Do porvir os arcanos revela?...

O que é sonho?... futuro sem véu?...

O que é sonho?... – mistério do céu.

Mas que é feito da virgem, do pobre?...

Já o dia voltou – Vou dizer:

Seu amor denso véu inda cobre;

Que ele ama não posso esconder;

Porém teme... receia... não diz;

Porque é pobre, por isso infeliz.

E a donzela formosa, inocente,

Inda livre, inda isenta de amor,

A ninguém ganhar dela consente

De seu sonho um botão,., uma flor; Pois no rubro virgíneo botão, Julga ver seu feliz coração.

E o mancebo, que tinha tentado A paixão, que nascia, abafar, Hoje a ela de todo curvado

Está com os olhos no céu a clamar:

“Quem não fora nascido; – ou então

“Quem colhera o terceiro botão!...”

Longo tinha sido o cantar do velho, e durante todo ele mil e diversas sensações havia experimentado a “Bela Órfã”.

Um segredo de seus mais belos dias, o primeiro romance de sua alma de moça estava revelado.

Quem o revelara?

E sobretudo havia ali naqueles versos a expressão e a confissão de um amor profundo mas temeroso... era o poeta que amava a bela.

O primeiro pensamento de Celina foi perguntar ao velho Rodrigues o nome do autor daquele romance; corando porém diante de sua consciência de virgem hesitou...

O velho estava em pé diante dela com seus olhos pequenos, porém penetrantes, fitos em seu rosto, e obrigando-a a abaixar a cabeça.

Enfim, Rodrigues rompeu o silêncio.

– Está triste, senhora?...

– Não! respondeu ela.

– Mas também ninguém a julgará alegre.

– Também não estou alegre.

– Ah!... está pensativa.

Celina olhou para o velho guarda-portão, e o achou sorrindo maliciosamente.

– De que se está rindo assim? perguntou.

– É porque estou adivinhando o pensamento que a ocupa.

– E qual é?...

– Deseja saber a história do meu romance, o nome da virgem inocente e do mancebo pobre, não é assim?

– É verdade, respondeu Celina hesitando.

– Pois eu vou satisfazê-la.

A “Bela Órfã” corou,

– Não sei o nome da virgem, disse o velho.

– E o do mancebo?... perguntou Celina respirando.

– Esse eu o sei. É um jovem modesto e cheio de mérito, porém pobre; ele ama apaixonadamente, ama como nenhum outro poderá amar mais do que ele; mas o seu amor morreria no silêncio de seu quarto se uma generosa e traidora mão não roubasse nesse romance a confissão dele tão extremosa e tão pura...

– Mas quem é ele?...

A bela queria conhecer o seu poeta.

O velho Rodrigues estendeu a mão para o lado do “Purgatório-trigueiro”, e apontando com seu longo e trêmulo dedo, disse:

– É o sr. Cândido.

E como se tivera concluído uma comissão importante, de que se encarregara, saiu da sala com passos vagarosos.

A “Bela Órfã” ficou pensando muito tempo no mesmo lugar, e quando se levantou disse como falando consigo mesma:

Deveria ter adivinhado... anteontem à noite, quando eu meditava, ele também meditou... e cantou depois, sem dúvida, este mesmo romance; porque eu me lembro de ter ouvido distintamente dizer a sua voz:

– Quem colhera o terceiro botão!...

CAPÍTULO XIV

O MOÇO E A MOÇA

APROXIMA-SE a hora encantada do crepúsculo vespertino.

À calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, sucedera uma dessas tardes frescas e belas, que fazem as delícias dos países tropicais.

Uma multidão imensa pejava as alamedas, os dois pequenos largos, e o terraço do Passeio Público da boa cidade do Rio de Janeiro. Era como uma tarde de festa.

Entre os novos concorrentes que a todo o instante formigavam, quatro vieram enfim que atraíram a atenção de muita gente. Eram um homem e uma mulher velha; e um homem e uma mulher moça.

(continua...)

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