Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Está o rio e barra de São Vicente em altura de vinte e quatro graus e meio, o qual rio tem a boca grande e muito aberta, onde se diz a barra de Estêvão da Costa. E quem vem do mar em fora para conhecer a barra, verá sobre ela uma ilha com um monte, da feição de moela de galinha, com três mamilões. Por esta barra entram naus de todo o porte, as quais ficam dentro do rio mui seguras de todo o tempo, pelo qual entra a maré cercando a terra de maneira que fica em ilha muito chegada à terra firme, e faz este braço do rio muitas voltas. Na ponta desta barra, da banda de leste, está a vila de Nossa Senhora da Conceição; e desta ponta à outra, que se diz de Estêvão da Costa, se estende a barra de São Vicente; e entrando por este rio acima está a terra toda povoada de uma banda e da outra de fazendas mui frescas; e antes que cheguem à vila estão os engenhos dos Esquertes de Frandes e o de José Adorno; e no rio está uma ilheta, além da qual, à mão direita, está a vila de São Vicente, que é a cabeça desta capitania. Pelo sertão desta capitania nove léguas está a vila de São Paulo, onde geralmente se diz "o campo", na qual vila está um mosteiro dos padres da companhia, e de redor dela quatro ou cinco léguas estão quatro aldeias de índios forros cristãos, que os padres doutrinam; e servem-se desta vila para o mar pelo esteiro do Ramalho. Tem vila mais dois ou três engenhos de açúcar na ilha e terra firme; mas todos fazem pouco açúcar, por não irem lá navios que o tragam. E aparta-se esta capitania de São Vicente, de Martim Afonso de Sousa, com a de Santo Amaro, de seu irmão Pedro Lopes, pelo esteiro da vila de Santos, donde se começa a capitania da vila de Santo Amaro.
C A P Í T U L O LX
Em que se declara cuja é a capitania de São Vicente.
Parece que é necessário, antes de passar mais adiante, declarar cuja é a capitania de São Vicente, e quem foi o povoador dela, da qual fez elrei D. João III de Portugal mercê a Martim Afonso de Sousa, cuja fidalguia e esforço é tão notório a todos, que é escusado bulir, neste lugar, nisso, e os que dele não sabem muito vejam os livros da Índia, e verão os feitos maravilhosos que nela acabou, sendo capitão-mor do mar e depois governador. Sendo este fidalgo mancebo, desejoso de cometer grandes empie-sas, aceitou esta capitania com cincoenta léguas da costa, como as de que já fizemos menção, a qual determinou de ir povoar em pessoa, para o que fez prestes uma frota de navios, que proveu de mantimentos e munições de guerra como convinha; na qual embarcou muitos moradores casados que o acompanharam, com os quais se partiu do porto de Lisboa, donde começou a fazer sua viagem, e com próspero tempo chegou a esta província do Brasil, e no cabo da sua capitania tomou porto no rio que se agora chama de São Vicente, onde se fortificou e assentou a primeira vila, que se diz do mesmo nome do rio, que fez cabeça da capitania. E esta vila foi povoada de muita e honrada gente que nesta armada foi, a qual assentou numa ilha, donde lançou os guaiana-ses, que é o gentio que a possuía e senhoreava aquela costa até contestarem com os tamoios; a qual vila floresceu muito nestes primeiros anos, por ela ser a primeira em que se fez açúcar na costa do Brasil, donde se as outras capitanias proveram de canas-de-açúcar para plantarem, e de vacas para criarem e ainda agora floresce e tem em si um honrado mosteiro de padres da companhia, e alguns engenhos de açúcar, como fica dito. Com o gentio teve Martim Afonso pouco trabalho, por ser pouco belicoso e fácil de contentar, e como fez pazes com ele, e acabou de fortificar a vila de São Vicente e a da Conceição, se embarcou em certos navios que tinha, e foi correndo a costa descobrindo-a, e os rios dela até chegar ao Rio da Prata, pelo qual navegou muitos dias com muito trabalho, aonde perdeu alguns dos navios pelos baixos do mesmo Rio, em que se lhe afogou alguma gente, donde se tornou a recolher para a capitania, que acabou de fortificar como pôde. E deixando nela quem a governasse e defendesse, se veio para Portugal chamado de Sua Alteza, que se houve por servido dele naquelas partes, e o mandou para as da Índia. E depois de a governar se veio para estes reinos que também ajudou a governar com el-rei D. João, que o fez do seu Conselho de Estado; e o mesmo fez reinando el-rei D. Sebastião, no tempo em que governava a rainha D. Catarina, sua avó e depois o cardeal D. Henrique, para o que tinha todas as partes convenientes. Nestes felizes anos de Martim Afonso favoreceu muito esta sua capitania com navios e gente que a ela mandava, e deu ordem com que mercadores poderosos fossem e mandassem a ela fazer engenhos de açúcar e grandes fazendas, como tem até hoje em dia, do que já fizemos menção.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.