Por Adolfo Caminha (1896)
D. Branca esticava o pescoço, erguia-se na pontinha dos pés, a mão enluvada no ombro do marido, equilibrando-se. Nada lhe escapou à indiscreta curiosidade: viu o desembargador Lousada e a mulher, os príncipes, a princesa, o monarca e a imperatriz e, por fim, o visconde, o Santa Quitéria enfronhado na sua casaca solene, de braço com uma ilustre dama que ela não pôde reconhecer. O banqueiro levava ao peito um crachá faiscante, uma grande comenda que a todos causava admiração. - Mas de braço com uma mulher! Oh, a esposa de Furtado arriou os calcanhares, estremeceu de ciúme, como se lhe houvessem roubado a mais querida jóia, trincou o lábio num assomo de desespero, e abanou-se com fúria.
— Vocês não estão sentindo calor! — disse para Adelaide e o secretário.
— Muitíssimo! — exclamou Furtado.
— Muito — respondeu Adelaide.
— Oh, eu estou sufocada! Se houvesse água por aqui...
— Arranja-se – tranqüilizou o marido. — Queres? — Quero, sim, tem paciência...
E quando ele afastou-se muito cavalheiro, para trazer água:
— Viste o Santa Quitéria? — perguntou D. Branca à amiga.
— Não.
— Que pena! Pois ia de braço...
— Com quem?
— Com uma velha, com uma mulher horrivelmente feia... — Sim.
O Santa Quitéria, um visconde, um homem tão elegante!
— É para você ver o que são os homens.
— Não, que há homem de muito bom gosto! Eu não creio que o visconde esteja cego...
— Exigências de ocasião, coitado! ele até acha quase todas as mulheres feias... Pelo menos já o ouvi dizer.
— E, mas lá ia com unia coruja!
Adelaide achou graça no epíteto e, sem desviar os olhos da onda de gente que se aglomerava no cais, respondeu com um sorriso em que se lia toda a tristeza de uma alma ingênua. Não podia esquecer o imperador com a sua longa barba muito branca, uma névoa no olhar, inclinado para frente, caminhando devagar, como quem já está marchando para a sepultura... Tinha os olhos úmidos ainda e ficava-lhe dentro d'alma uma piedade imensa, uma ternura por aquele velho tão diferente do que ela imaginava...
Um servente aproximou-se com uma bandeja e água para as duas senhoras. Furtado vinha com um riso de profunda ironia nos lábios.
— Este mundo! este mundo!...
— Que é? — perguntou D. Branca olhando o secretário.
— Adivinha, se és capaz! — Eu não...
E Furtado cruzou os braços em atitude de misteriosa surpresa.
— Olhem que a vida é uma comédia!...
— Explica-te, homem! — tornou D. Branca, muito inquieta já.
Adelaide tinha uma interrogação curiosa nos olhos.
— O Condicional, Branca, o Dr. Condicional, sabes? o grande republicano, o inimigo dos reis, o poeta da Ode à Coroa - todo empertigado, assistindo ao embarque do imperador, entre os amigos da casa imperial! - exclamou o secretário num tom de comiseração.
— Ora!...
— Não achas um cinismo, uma pouca-vergonha?
— Está você a se preocupar com um idiota!
— Porque, minha mulher, inda outro dia ouvi o Manhães dizer horrores de Pedro Segundo e agora vejo-o aumentando o número dos monarquistas!..
— O Evaristo é que havia de se rir muito — disse Adelaide.
— E com razão, com toda a razão!
— Vamo-nos daqui — interrompeu D. Branca.
— Vamos... vamos — concordou Furtado. — Este mundo! este mundo velho!
Já não havia quase ninguém no Arsenal e fora, na rua. Tudo nos cais da cidade, no Pharoux, no Arsenal de Guerra, na Lapa, na Glória, no Flamengo... até Botafogo, para assistir à saída do Gironde. Viam-se grupos de homens e senhoras no alto dos morros, à luz quente do sol. Prolongava-se o cordão negro dos espectadores até os confins da Praia Vermelha - extensa linha de curiosos que abandonavam o trabalho, as oficinas, as repartições na ânsia de ver as últimas despedidas do monarca.
Com as primeiras salvas de bordo explodiu o sentimentalismo ingênuo do povo. Aqueles tiros ritmados, um após outro, e logo todo o confuso estourar da artilharia dos navios de guerra e das fortalezas, numa balbúrdia de mágica, eram como o último adeus, a um general que se enterra.
Às salvas corresponderam ruidosas aclamações: — Viôôô! Viôôô!... Viôôô!
E o Gironde singrava barra fora, numa inconsciência de ave que solta o vôo para a morte... O olhar da multidão acompanhou-o longe, como se o quisesse levar até o fim da travessia.
Mas a distância encobriu tudo numa névoa... desde esse dia ficou entregue o governo à Sua Alteza Imperial Regente D. Isabel, herdeira do trono.
— Agora é mais fácil arranjar uma comissão à Europa - dizia Furtado à esposa.
— Por quê?
— Já te não lembras de que a princesa é nossa comadre?
— Sim... sim... Qual Comissão à Europa! Estamos muito bem no Brasil!
— Isso hei de ir custe o que custar! Morrer sem ir à Europa? Não. Morrer depois de ter gozado...
— Bem, mas eu fico...
— Pois fica; é como quiseres.
— O Sr. Furtado deseja tanto sair do Brasil? — perguntou Adelaide entre admirada e risonha.
— Não é sair do Brasil — é passear, viajar, gozar um pouquinho as decantadas belezas do Velho Mundo.
— Eu irei depois, quando já o conheceres — tornou D. Branca. — Pois sim, pois sim - irás depois...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.