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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

— O respeito não está na roupa, doutrinou Aleixo, abotoando-se; é respeitado quem procede bem. Deixa-me ao menos variar!

Ela gostava tanto de o ver em seu uniforme, “todo bonitinho”, como uma pintura, chamando a atenção dos burgueses, admirado, invejado, gabado. Assentava-lhe muito mais a roupa de marinheiro; sem comparação! O que era um soldado à paisana? Um homem como qualquer outro, um pobre-diabo que ninguém respeitava. Oh! a farda...

— Mas eu não quero, filha, não gosto. São cousas... — Bom, não precisa brigar. Vai como quiseres.

Estava escurecendo. No interior do sobradinho já se não distinguiam os objetos. Fora, na rua, acendiam-se os primeiros bicos de gás e havia grande calma, uma sonolência profunda no quarteirão.

— Creio que vamos ter chuva, disse Aleixo dando um salto à janela.

Com efeito, nuvens escuras alastravam-se pelo céu, baixas, pesadas, rolando como fumarada negra de incêndio. O tempo refrescava. Corria mesmo uma aragenzinha branda e acariciadora. Uma voz humana imitava guinchos de locomotiva para os lados da Misericórdia.

Passava o bonde da Lapa. D. Carolina e Aleixo embarcaram, ela muito alegre, muito expansiva, na sua toilette improvisada, que lhe dava um ar bonachão e honesto, ele um pouco triste, chapéu de palhinha derreado para a nuca, mostrando o cabelo penteado em pastas, uma gravata cor de sangue — aprumado e circunspecto.

O bonde tocou.

CAPÍTULO XI

Um desespero surdo, um desespero incrível, aumentado por acidentes patológicos, fomentado por uma espécie de lepra contagiosa que brotara, rápido, em seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, lívidas marcas de castigo — um desespero fantástico enchia o coração amargurado de Bom-Crioulo. Não lhe restava mais esperança que Aleixo fosse vê-lo ao hospital: estava desiludido. O grumete abandonara-o, esquecera-o, e nem ao menos dera-lhe uma satisfação! — Atrás dos apedrejados vem as pedras... Uma pessoa, no fim das contas, era obrigada a tornarse ruim, a fazer todas as loucuras... Isso de a gente pensar na vida, sacrificar-se, proceder bem, não vale nada, é uma grande tolice, uma grande asneira.

Tinha momentos de calma, procurando afastar do espírito qualquer idéia de vingança, de desforra, como quem se julga superior às pequeninas misérias da vida. Durante o dia jogava a dama com o tal empregado que lhe fizera o bilhete, resignado, sem cólera, prazenteiro mesmo, não perdendo, entretanto, aquela vaga expressão de melancolia que boiava em seus olhos traindo mistérios d’alma...

Era à noite, porém, que o caso de Aleixo voltava-lhe à imaginação, enchendoa de fantasmas, povoando-a de sonhos, com a insistência de um remorso —à noite, nas horas de repouso, quando tudo era silêncio no hospital.

Positivamente não se conformava com a idéia de que o Aleixo o abandonara por outro... E quem seria esse outro? Algum marinheiro também, decerto, algum “primeira-classe”... Era muita ingratidão, muita baixeza! Abandoná-lo, por quê? Porque era negro, porque fora escravo? Tão bom era ele quanto o imperador!...

Consumia-se em reflexões pueris, verberando o procedimento de Aleixo, uivando pragas que ninguém escutava, dardejando cóleras, tempestuoso e medonho na sua mudez alucinada. Eram noites e noites de um sonambulismo fantástico e enervante, de uma obsessão rude e esmagadora. E quando, pela madrugada, vinha-lhe o sono, era impossível dormir, porque vinham-lhe também o que ele chamava “as coceiras”, um horroroso prurido na pele, no corpo todo, como se o sangue fosse esguichar pelos poros numa hemorragia formidável ou como se estivesse crivado de alfinetes da cabeça aos pés; — não podia fechar os olhos, nem tranqüilizar o espírito. Seu desejo era sair como um doído por ali fora, meter-se num banho e ficar n’água um ror de tempo agachado, nu em pêlo. Parecia uma maldição! Rebentavam-lhe feridas: havia uma grande aberta no joelho esquerdo. Não atinava com aquilo. Talvez alguma praga injusta... Era horroroso! Levar um homem a noite inteira sem dormir, pensando numa cousa, noutra, e, ainda por cima, o diabo de umas coceiras que punham a gente doida!

Então é que tinha raiva de Aleixo, então é que se revoltava contra o grumete, o “causador de todos os seus males”. Naquele estado aflitivo de desespero de corpo e d’alma ia-se-lhe a razão — Bom-Crioulo só tinha uma idéia: vingar-se do efebo, persegui-lo até a morte, aniquilá-lo para sempre!

Era um misto de ódio, de amor e de ciúme, o que ele experimentava nesses momentos. Longe de apagar-se o desejo de tornar a possuir o grumete, esse desejo aumentava em seu coração ferido pelo desprezo do rapazinho. Aleixo era uma terra perdida que ele devia reconquistar fosse como fosse; ninguém tinha o direito de lhe roubar aquela amizade, aquele tesouro de gozos, aquela torre de marfim construída pelas suas próprias mãos. Aleixo era seu, pertencia-lhe de direito, como uma cousa inviolável. Daí também o ódio ao grumete, um ódio surdo, mastigado, brutal como as cóleras de Otelo...

(continua...)

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