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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O sol, procurando esconder-se por trás da cordinheira, esbraseava as vidraças miúdas das casas voltadas para o ocidente, e uma grande sombra cobria a beira da praia e a parte adjacente do lago, que as águas dos rios e dos montes enchiam. O porto, a vila e o lago achavam-se quase desertos àquela hora. Silves cedia à melancolia profunda das povoações sertanejas, agravada agora pela ausência de muitos habitantes. Uma brisa forte, vinda de sudoeste, agitava as raras folhas das amendoeiras do porto e refrescava o ar. O céu, em todo o quadrante do sul, cobria-se de nimbos pardos que seguiam lentamente em grupo cerrado, obedecendo ao mesmo impulso. Nas alturas, os urubus, parecendo pontos negros, vagavam, descrevendo círculos, vinham descendo e depois subiam até se perderem de vista nos páramos azuis, para reaparecerem a trechos e deixarem-se levar ao sabor do vento, como folhas arrancadas a uma árvore desconhecida. Curumins semi-nus, espojando-se na areia da praia entre gritos e risadas, rolavam até à beira da água, metiam-se pelo lago dentro, mergulhavam, nadavam, fazendo apostas, e logo voltavam à terra, a brincar em pêlo o esconde-esconde, dando uma nota alegre, que aumentava a tristeza do quadro da vila, a meio abandonada.

Francisco Fidêncio estivera mal disposto de espírito e de corpo. Incomodavao aquele barulho de crianças. Levantara-se muitas vezes para as ir ver, pensando encontrar entre aqueles endiabrados algum discípulo, para o responsabilizar pelo excesso, e para o incumbir dum mandado.

Desde a noite do baile do Bernardino Santana, Francisco Fidêncio andava preocupado e descontente. O ingurgitamento do fígado agravara-se-lhe com a imprudência de dois copos de cerveja que o Costa e Silva o forçara a beber, rompendo a dieta que se impusera a conselho do Regalado e a rogos da Maria Miquelina. Demais, a roda, a sua boa roda de amigos, diminuíra depois daquela famosa festa. A poderosa atração dos castanhais arrancava todos os dias as ovelhas ao pastor católico e os ouvintes ao propagandista do livre-exame. Receando ficar isolado, sem os companheiros de palestra, o benévolo auditório que o seu prestígio criara para todas as tardes à porta do Costa e Silva, Francisco Fidêncio era obrigado a dissimular o aborrecimento que o fato lhe causava, para não dar o braço a torcer, não cair em contradição consigo mesmo, pois fora do conselho de preferir as festas alegres das praias e dos castanhais, às maçadas que o zelo antiquado do padreco pregava aos pobres moradores de Silves. Para contrariar o vigário e tirarlhe gente, defendera o partido dos que pretextavam a necessidade de ganhar dinheiro para deixar a vila, e agora era punido com a mesma pena, a deserção chegara aos seus arraiais, o amor das festas rústicas, à sombra dos castanheiros, das pândegas à beira-rio, ganhava os seus mais ferventes adeptos, convictos de que deviam, exagerando o entusiasmo, dar o exemplo do pouco caso em que tinham as prédicas e conselhos do senhor vigário. A vitória fora completa, excedera mesmo a expectativa. Padre Antônio, solitário e abatido, ficava cada vez mais concentrado. O lorpa do sacristão tomara para si o desaforo daquelas maquinações atribuídas a ele, Chico Fidêncio, um ateu desrespeitador da religião. Macário estomagava-se contra todo aquele que falava em sair da vila. No entender daquele idiota, não havia nada melhor do que Silves, depois que morrera padre José e viera padre Antônio de Morais.

O sacristão comia bem, bebia bem, andava bem trajado, gozava de consideração crescente e até já ia a bailes para apanhar indigestões de fatias douradas e de chocolate! Ele dispunha das esmolas, ele dirigia o pequeno serviço do culto, ele vendia os repiques e dobres de sinos conforme lhe aprazia, ele arranjava capa-magna para o batizado dos filhos de seus amigos, ele fazia presentes de cera benta, zelava das opas, distribuía a seu talante as lanternas e as varas do pálio nas procissões solenes ou no simples Nosso-pai, e não maltratava pessoa alguma, não prejudicava a ninguém. Havia em Silves missa todas as manhãs, ladainha todas as noites, um bom sermão de vez em quando, enterros, batizados, casamentos, procissões às vezes, Nosso-pai sempre que era preciso, confissão sempre que pediam, falava-se numa crisma próxima, iam inaugurar-se as missas cantadas para os dias de festa, por um plano que o Macário concebera e que o vigário achara excelente. Que mais faltava, que mais queriam? Como deixar Silves que oferecia todas essas vantagens da civilização, para ir-se meter pelos castanhais dentro, expondo-se a febres, a sezões, a mordeduras de cobras, a ataques de onças? Macário não compreendia um tal procedimento: e queixavam-se do padre José, diziam o diabo do padre José! Mas o que Silves precisava era ter padre José ou padre João da Mata por vigário toda a vida!

(continua...)

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