Por Domingos Olímpio (1903)
— Sabe, Luzia – disse-lhe ele – A senhora do Promotor pediu-me que não lhe desse serviços braçais. Ela se interessa muito por você, como eu, como todos que a conhecem. Era também intenção minha deixá-la repousar. Está-se vendo quanto a fatigaram os cuidados, os vexames sofridos pela saúde de sua mãe.
Luzia baixou os olhos, e corou humilhada. Preferira à ocupação sedentária de costureira, continuar na faina de carregar água nos grandes potes, que estavam servindo de depósito, conduzir telhas em companhia daqueles infelizes, que vergavam ao peso de uma dúzia delas, ir às caieiras longínquas buscar tijolos nas altas tulhas, que ao Paulo, francês, se haviam afigurado paredes na cabeça de uma mulher, rolar pesados madeiros, grandes pedras, trabalhos que lhe exercitassem os músculos e lhe produzissem o atordoamento da fadiga.
Acudiu-lhe, então, à memória, a quadra da infância, passada no Ipu, em casa da mestra que lhe ensinara ler; os cocorotes e castigos sofridos por não resistir ao sono, quando condenada a ficar dias inteiros sentada diante de uma almofada a trocar bilros crepitamos, entretecendo delicadas rendas e curtindo a nostalgia do ar livre e puro nos campos verdejantes e floridos da fazenda Ipueiras.
Mas... era forçoso submeter-se à ordem do administrador, tão bom e compassivo, que lhe dera muitos dias de licença para tratar a pobre mãe enferma.
Na maioria das barracas, em forma de meia-água, coberta de folhas de carnaubeira, Dona Inacinha, que, desde as missões do padre Ibiapina, renunciara os efêmerosgozos mundanos, para se fazer beata professa, distribuía o serviço de agulha em tarefas. A Luzia, coube um enrolado de algodãozinho, onde estava cravada uma agulha, atravessando um molho de linha e sustentando, subposto, um dedal de cobre.
— Cosam com muito cuidado – recomendou ela às costureiras – que isto é trabalho especial para a comissão de senhoras, que me mandou seis peças de fazenda para desmancharmos em roupa. Não quero obra de carregação como a dos sacos. Vejam que as mãos estejam bem lavadas, pois tenho singular implicância com a costura suja.
Luzia ocupou o primeiro lugar vago, distanciada das outras, surpreendidas com o vê-la ali, quando trabalhava sempre com os homens; enfiou a linha na agulha e estava muito atrapalhada com o adaptar e alinhavar peças já cortadas, quando Dona Inacinha se acercou, como sempre, enfezada e rabugenta.
— Você parece que nunca viu costura – rosnou, em tom de áspero remoque – Tamanha mulher, e não sabe por onde há de começar um par de ceroulas de homem.
Luzia sentiu subir-lhe ao rosto, impetuosa onda de sangue.
— Olhe – continuou a beata, armando sobre o nariz rubro e adunco, grandes óculos de latão com as hastes ligadas em torno da cabeça por um cadarço preto, lustroso de banha – primeiro as pernas pospontadas e sobrecosidas; depois o gavião em separado, terminando nesta tira que serve de cós. Você ajunta as duas pernas, cosendo-as no gavião com as preguinhas que forem necessárias para dar certo. No meu tempo, dava conta de duas por dia sem me cansar.
As companheiras de trabalho sorriam, ironicamente, da lição e do desazo de Luzia, confusa e amesquinhada, injustamente, porque sabia coser bem e depressa, mas não estava habituada a fazer roupas masculinas.
Aquela tarefa, escolhida ao acaso, era um prolongamento da obsessão que a torturava; avivava-lhe, a cada ponto da agulha, a lembrança do prisioneiro a pungirlhe o coração com o remorso de o haver abandonado num ímpeto de despeito, ciúme ou capricho pueril que ela tentava em vão justificar com o pretexto de preservá-lo da influência funesta com que a marcava o destino. Causava-lhe, também, imenso dó o haver deixado, com desdém, no parapeito da grade da cadeia, os cravos vermelhos, emurchecidos nos seus cabelos, ao calor do seu seio, onde os guardara carinhosamente, como um talismã prestigioso.
E assim passou o dia, até que o martelo do mestre da obra anunciou a terminação do trabalho, batendo, rijo, cadenciados golpes secos, vibrantes, sobre uma das tábuas dos andaimes.
Luzia ergue-se aliviada, entregou a tarefa concluída, e partiu, ansiosa por ver a mãe e Teresinha, que lhe daria notícias de Alexandre, notícias más porque ele devera ficar magoado, vendo-se tratado com tanto rigor por quem lhe devia, pelo menos, favores inestimáveis, desses que impõem o suave jugo de gratidão imperecível.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.