Por Aluísio Azevedo (1880)
Afora estes, roda imensa de admiradores incensava infrutiferamente, noite e dia, a formosa e rica órfã, mas embalde procurava ela, nos cantos empoeirados do seu coração, alguns restos de respeito e amizade séria para aquela gente que, a despeito da sua boa vontade, só lhe aparecia pelo prisma do interesse e da especulação. No fim de contas tão embotadamente desgraçados eram os adoradores, como o objeto da adoração, que se aqueles amavam por cobiça, este não o podia fazer por desconfiança, e infeliz, muito infeliz da mulher que não ama, o amor é o caminho da maternidade.
O próprio moço dos bigodes não passava para Rosalina de uma fantasia de igual criminalidade de outros muitos, que, com a mesma amorosa indiferença, entretinha a desregrada rapariga; e tanto assim era que, sendo por ele pedida em matrimônio, recusara-se, dizendo cinicamente que o casamento era a única parte ascendente de sua vida por onde poderia trepar em algum tempo à nobreza, e por isso não a barateava assim tão facilmente.
O dos bigodes, cujo empenho único era enriquecer, vendo malogrado em Nápoles os seus planos de abastecimento, deu-se de velas para Milão, sua pátria, em busca de nova fortuna, depois de ter chamado a amante de ingrata e perjura.
Rosalina riu-se da saída aparentemente romanesca do cavalheiro de bigodes e insensivelmente o substituiu por outro.
O visconde em ruínas, esse, coitado! é que não desistia, nem era preterido; barreira firme, rochedo inalterável, recebia impassível e com verdadeira coragem, digna da nobreza de sua ilustre raça, os embates tempestuosos daquele pélago de lama. Coitado! a desonra lhe seja leve!...
E neste estado deplorável de coisas decorria o tempo, sem outro fato de notar, além do que se vai seguir.
CAPÍTULO XIII
Ia uma dessas noites quentes de verão, em que a natureza parece adormecida aos beijos ardentes do sol; em que as águas dos lagos são mornas como a brisa, que acaricia os pícaros abrasados das montanhas, e a lua se ergue vermelha, como uma chaga viva.
Uma dessa formosas noites napolitanas, em que tudo se converte em volúpia e cansaço, em que se derretem os corações e volatizam-se os beijos para vagarem pelo espaço, como um bando de mariposas sensuais.
Noite de sonhos ardentes e dores indefinidas! noite feliz para o mancebo e perigosa para a donzela!...
As mulheres estremecem ao tato dos amantes e as criancinhas torcem-se no berço, acometidas de precoce irritabilidade; o olhar transforma-se em boca que beija; o hálito em palavra que excita; a palavra em corpo que morde, afaga, queima e estreita.
Abraçam-se nos montes os pinheiros e os ciprestes nos cemitérios; entrelaçam-se flores no campo; amam-se feras nos covis; nos ares os passarinhos e os reptis no charco.
A natureza toda transforma-se numa mulher de trinta anos, de carnes brancas e palpitantes, sofre nessa noite da nevrose, tem ataques histéricos, estrebucha, grita, contorce-se e solta, de vez em quando, suspiros prolongados e gemidos voluptuosos.
E quando, pela volta da madrugada, à brisa fresca e cor-de-rosa da manhã, adormecem os membros frouxos e fatigados, levanta-se da terra um murmúrio suave e trêmulo para o céu; é a música dos beijos!
CAPÍTULO XIV
A alcova de Rosalina recendia a amor. O amor tem o seu perfume especial que se aspira pelo coração; esse perfume, à semelhança dos do Oriente, quando não mata, embriaga, mas sempre encanta.
A bela italiana, perseguida pelo calor da noite, refugiara-se sozinha no seu ninho, como a lebre que foge ao caçador, e arremessando negligentemente as roupas para o chão, envolvera-se nas cambraias do leito, rolando de um para outro lado, como uma serpente.
Extenuada, caíra a moça nessa prostação mofina que precede o sono, e só de vez em quando dava acordo de si para refrigerar-se com um gole de orchata, que à cabeceira do leito estava preparada num copo de cristal. Isto feito, recaía no mesmo entorpecimento, com as pálpebras pesadas e os olhos descerrados pelo calor; mais parecia uma bela produção artística do que uma realidade. Quando quieta, difícil seria de dizer o que mais era, se uma estátua animada, se uma mulher de mármore.
Súbito, assomou na janela uma cabeça, depois um busto, e finalmente um homem, vestido de blusa, pulou na sala com a ligeireza de um gato.
O barulho fez Rosalina voltar-se e soltar um grito que queria dizer:
— Miguel!...
O recém-chegado parou, levando aos lábios o dedo em sinal de silêncio; ela respondeu a esse sinal com um outro que o intimava a aproximar-se.
O artista obedeceu, encaminhando-se sombriamente para o leito.
— És livre agora?!... disse, caindo de joelhos aos pés.
A moça não respondeu e sorriu.
— Fala, meu anjo!... não percamos tempo, dize-me se és já livre os se...
— Ouve! interrompeu Rosalina, fingindo dificuldade no falar. Ouve. Desde que morreu meu pai, uma fraqueza doentia me tem de tal modo perseguido, que me suponho irremediavelmente perdida; posso dizer que tenho vivido neste leito, donde não conto levantar-me com vida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.