Por Aluísio Azevedo (1897)
A filha do comendador estava mulher, e mulher bela.
Aquela criança, franzina e linfática, se transformara em uma mulher encantadora e forte.
A não ser os olhos, que foram sempre formosos, toda ela se havia metamorfoseado. O pescoço, os braços e os quadris enriqueceramse de graciosas curvas, o cabelo fezse volumoso, a tez pálida e fresca, os ombros um primor de estatuária, a boca um ninho de sorrisos corderosa e cor de pérola.
Toda ela respirava, porém, uma híbrida fascinação de anjo e de demônio. Os seus lindos olhos verdeescuros, tanto poderiam servir para ensinar o caminho do céu, como o caminho do inferno.
Havia alguma cousa do pecado de Eva paradisíaca na elasticidade ofídia e ondulosa do seu corpo, na mancenilha daqueles cabelos crespos, no viço provocador daqueles lábios carnudos e vermelhos.
A sua voz era como um hino de amor e de revolta, feito de ironia, de súplica, de desdém e de ternura.
Gabriel só viu e percebeu de tudo isso o lado risonho e claro, quando se achou pela primeira vez em presença de Ambrosina.
Foi em um baile, na casa de um dos seus colegas de academia, que também voltava formado de S. Paulo.
O filho de Violante dançou com a formosa moça; muito, e ele, já cativo, rudemente lhe declarou que a achava encantadora e que seria o mais feliz dos mortais, se pudesse amála com a esperança de ser correspondido.
Ela riuse, e aconselhouo a que desistisse de semelhante loucura.
Na Corte havia muita menina bonita. Gabriel, chegando naquele instante, nada ainda tinha visto; não se deixasse por conseguinte levar pelas primeiras impressões...
— São sempre as melhores... respondeu ele sorrindo.
— Qual o quê! replicou Ambrosina. O senhor arrependerseia. Só eu, tenho mais de uma dúzia de amigas que, se fosse rapaz, amálasia de joelhos... São lindas
— Mas lembrese de que são mais de uma dúzia...
— Ora! se eu fosse rapaz, amavaas a todas. Não há como ser homem!... O homem pode viver como quiser, fazer o que bem entender, amar a todas as mulheres ao seu alcance; enganálas, ridicularizálas, e... nem por isso deixará de ser um rapaz comme il faut, desde que se vista à moda, tenha uma cara suportável, algum emprego ou algum capital, e, um bocadinho de tino... para não dizer asneiras seguidas. Ao passo que a pobre mulher coitadal se quiser amar, há de contentarse com um indivíduo, que ela só conhecerá depois de ter ligado para sempre a seu destino ao dele; quando aliás um marido é como charuto, que só se pode saber se é bom depois de aceso. As aparências nada valem!...
— V. Exa. pinta o charuto tão ao vivo que faria acreditar que já fumou!...
— Figuradamente, como lhe acabo de falar, não, porque sou solteira, e não tenho pressa... mas se o senhor se refere à verdadeira acepção da palavra, responderlheei que sim; já fumei. Pura extravagância
— Não lhe fez mal?
— Muito! Tive vertigens, ânsias; passei mal uma noite inteira... Jurei não cair noutra!
— Ah!
— E creio justamente que com o casamento me aconteça o mesmo... Não com uma noite, mas com a vida inteira!...
— Então não tenciona casar?...
— Tenciono, pois não! Nós, as mulheres, somos muito desgraçadas a este respeito: temos às vez es horror ao casamento, mas que fazer!... Não o podemos dispensar. Oh! o senhor bem sabe que a mulher só se emancipa quando se escraviza ao marido... Desgraçadinha daquela que não tiver um guardacostas que a represente na sociedade e que com ela partilhe um pouco dos perigos que a esperam.
— V. Exa. fazme pasmar com a sua experiência...
— Não sei porquê! Eu não tenho mais experiência que qualquer outra senhorita nas minhas condições; apenas sou menos hipócrita, e não quero impingir minha mão ao primeiro que apareça...
— Mas, uma vez resolvida a casar, qual será o noivo que lhe convém? quais serão nele as qualidades que a poderão conquistar?
— Sei cá! mas, se tivesse rigorosamente de escolher marido, escolheria um homem que me parecesse bem vulgar.
— O que, minha senhora? V. Exa. não preza a distinção?...
— Não, decerto. A distinção será muito boa para o homem que a possua, nunca será para a mulher que com ele se case. A distinção! Mas não vê o senhor que, quanto maior for a superioridade do marido, tanto maior será também a inferioridade da mulher!... Com um homem vulgar, sucede precisamente o contrário: ela terá o primeiro lugar, e não precisará pôrse nas pontinhas dos pés para falar com ele, o que é incômodo.
— Mas terá de abaixarse...
— Qual! ele que trepe! é sempre o mais baixo que procura os meios de subir... Digolhe e repito: A ter de casar, prefiro um homem vulgar, trabalhador e honesto.
— Creio que estou no caso..
— Não sei se totalmente. Trabalhador e honesto, só mais tarde o saberemos, porque o senhor entra agora na vida; quanto ao vulgar, isto está! — a sua observação acaba de proválo...
— Sou tão vulgar quanto V. Exa. é severa...
— Sincera, é que deve dizer...
— Contudo, não me pareceu sincera no que disse a respeito do casamento..
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.