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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Manjericão verde-escuro

Tem a folha miudinha;

Só em te ver eu te amo:

Que fora se fosses minha?

Passei pela tua porta,

Pus a mão na fechadura;

Eu falei, tu não falaste,

Coração de pedra dura.

Meu passarinho tão manso,

Das minhas mãos escapou;

Para mais penas me dar,

Penas nas mãos me deixou.

- Molha a guela, Lourenço, molha a guela com a patricia – disse neste ponto ao cantador o Ignacio Macambira. A patricia é o vinho do pobre – acrescentou Chico – rosado.

E Victorino, despejando aguardente na xícara, que não estava quieta um só instante em cima da banquinha do canto da sala, apresentou-a a Lourenço, que dela tomou um trago forte.

Mas como se sentia cansado, poucos versos cantou ainda, e concluiu pelo seguinte:

As convivências do mundo

São amparo da pobreza;

Enquanto o pobre convive,

Não se lembra da riquez

- Aqui está o lugar para quem quiser, minha gente, disse ele, sentando-se.

- Deste tão cedo parte de fraco?

- É enquanto tomo fôlego.

- Quem vem? Quem vem? perguntou o violeiro. Quem vem, venha logo, que o fogo está esfriando. - Vai tu, Bernardina – disse Victorino.

- Muito bem, Victorino.

- Logo, logo, Bernardina.

A rapariga foi ocupar o lugar deixado por Lourenço.

XIV

A voz de Bernardina era volumosa e límpida. As mulheres invejavam a filha mais velha de foreiro este grande dote que atraia os homens a ela e lhe dava o prestigio e o renome de uma sereia. Não sendo tão bonita, como a irmã, via entretanto em roda como de se um sem numero de entusiastas e adoradores sempre que exercitava o seu divino privilegio. Por isso, quando rapariga se encaminhou para o lugar que Lourenço deixara desocupado, surdo rumor, indicio da curiosidade, se fez ouvir em todos os cantos do casebre. Seguiu-se-lhe porém logo profundo silencio. Eis os versos que a matutinha cantou por entre aplausos repetidos e frenéticos:

Benzinho, quando te fores,

Escreve-me do caminho;

Se não achares papel,

Nas asas de um passarinho.

Assim, assim, Bernardina – disseram três ou quatro convivas, enfeitiçados do desembaraço, já conhecido, da filha do dono da casa.

A rapariga, requebrando-se senhorilmente, prosseguiu relanceando os olhos para o namorado, que a esse tempo, já tinha desamparado o terreiro e encostado a um canto o clavinote:

Da boca faze o tinteiro,

Da língua pena aparada,

Dos dentes letra miúda,

Dos olhos carta fechada.

Oh, que rapariga candeia! exclamou o Ignacio Macambira, sem poder conter o entusiasmo, acrescentado pela cana.

Bernardina prosseguiu:

Manjericão verde cheira,

Ele seco cheira mais;

Mulher que se fia em homem

Anda sempre dando ais.

Eu de cá e tu de lá,

Fica um rio de permeio;

Tu de lá dás um suspiro,

Eu de cá suspiro e meio.

Meu coração é de vidro,

Feito de mil travações:

Com qualquer coisa se quebra,

Não atura ingratidões.

Longo tempo levou Bernardina a cantar, ora variando, ora repetindo as letras ao paladar dos circunstantes.

No mais aceso do samba, quando não só se ouviam os sons das violas, mas também os ásperos rechinar das costas da faca sobre a botija segundo praticam em ajuntamentos tais; quando os aplausos se manifestavam por meio de gritos e gargalhadas estridentes; quando não se dançava só o cocô e o baiano, mas uma mistura de todas as danças populares com o acréscimo da fantasia de cada um, escaldada pelos vapores espirituosos; quando enfim era tudo algazarra, derriços pouco decentes, demonstrações menos dignas, apareceu um novo conviva no meio da multidão. Era Francisco, o qual, depois da entrega das cartas no engenho, viera em busca do filho, pelo motivo que adiante saberemos. Não podia o matuto chegar mais oportunamente àquele ponto. No momento exatamente em que ele se fez ver por entre a matutada que enchia a salinha, sentiu Lourenço bater-lhe no ombro pesada mão, que o obrigou a voltar-se, a fim de saber quem era que lhe fazia tão estranho cumprimento. O rapaz reconheceu o Tunda-Cumbe.

(continua...)

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