Por Franklin Távora (1876)
Enfim, tendo reunido todos estes elementos de duvidar e de decidir, e os tendo pesado na balança da crítica, arte ou ciência comum a todas as sociedades ainda as que se acham no estado mais rudimentar, julgou-se o publico autorizado a afirmar que se tratava de efetuar uma diligência de alta monta, para a qual tinham de concorrer simultaneamente as diferentes forças locais, de combinação com algum destacamento da capital.
CAPÍTULO XI
Antes de se haver movido da capital o destacamento que foi estacionar em Afogados, grande confusão dominara nos espíritos dos habitantes desta localidade.
Foi o caso que pelas oito horas da noite, pouco mais ou menos, dois vultos se tinham ido colocar defronte da taberna do Timóteo.
A alguns fregueses e freqüentadores do taberneiro causou reparo o misterioso par que ninguém se animou a ir reconhecer, não obstante a todos parecer ele equívoco e digno de recear-se.
Não se podia confiar no tempo, principalmente nos lugares afastados da vila.
Roubos e assassinatos repetiam-se a cada canto. Na própria capital os habitantes não tinham por seguras nem sua propriedade nem sua vida. Por isso, qualquer sujeito duvidoso suscitava, com razão, desconfianças e medos nos homens pacíficos que por interesse próprio se apartavam sem demora dos pontos onde tais sujeitos apareciam ou podiam aparecer.
Quem menos se inquietou com os desconhecidos foi o Timóteo que, acostumado a tratar, de instante a instante por assim dizermos, com essa espécie de gente, se considerava fora de todo risco ainda quando este se desenhasse, como em certas ocasiões, com as mais vivas e medonhas cores. A seu parecer, de indivíduos tais só tinha ele que esperar favor e proteção, visto que, sendo sua taberna ponto obrigado das relações da capital com o centro, quer fosse de dia quer de noite, assim de inverno como de verão, tinham eles, como ele próprio, grande interesse, se não maior do que ele tinha, em conservar, defender, amparar esse poderoso ponto de apoio para os seus dolos, violências e infames ciladas de que era vítima o matuto simplório, o sertanejo de boa fé, o mascate, enfim quem quer que passava por aquela infernal estância.
Apontavam-se no lugar outras tabernas, das quais algumas tinham à sua frente patrões mais hábeis do que o Timóteo; a do velho, porém, mestre no mister como nenhum outro, tinha fama extensa, quase geral na província. Era uma taberna tradicional por ter servido muitas vezes de teatro a cenas de sangue e morte.
Pelas festas de arraial, o jogo, a crápula aí se praticavam com prejuízo considerável da ordem pública, da fortuna particular, do sossego e honra das famílias.
Estas circunstâncias, este passado davam-lhe certo prestígio que atraía para o imundo balcão, ou para a lôbrega camarinha da tasca o vicioso por hábito, o filho da viúva, a rapariga infeliz, os quais iam encontrar debaixo das quatro telhas do casebre largo campo onde dar expansão a suas paixões reprovadas.
Quando algum freqüentador, exaltado pela cachaça, ameaçava esfaquear o vendeiro por alguma das suas, respondia ele, abrindo a camisa, e mostrando o largo peito coberto de espessos e avermelhados pelos:
— Pode fazer do peito do velho Timóteo bainha da sua faca. Já bebeu a minha aguardente, não será para admirar que queira agora dar meu sangue a seu cachorro magro. Mas de uma coisa tenha você certeza; ainda que me mate, ainda que me esfole, não passa o gadanho no meu zimbo. Poderá comer mais sardinhas, chupar do meu vinho, mas de dinheiro nem ceitil há de cair na sua unha.
Timóteo dizia a verdade. Ele tinha todo o seu haver amoedado em lugar só dele conhecido.
Ficara só no mundo depois da morte da Chica, e entesourava sem destino o que ilicitamente adquiria. Seus únicos companheiros de casa eram um cão e dois gatos. Estes últimos comiam com ele à mesa, quase no mesmo prato, e, para bem dizermos, dormiam na mesma cama.
Por isso, quando viu os misteriosos vultos parados defronte da taberna; quando os viu mais tarde dirigir-se para esta no momento em que ele ia fechar as portas por se haver de uma vez retirado a freguesia do dia, disse Timóteo com a maior fleuma:
— Podem entrar sem susto, que o Timóteo é amigo.
Os desconhecidos ganharam de um pulo a tasca, e trataram de fechar as portas.
— Fazem bem — disse-lhes o vendeiro, sem se dar por achado. — O tempo não está para graças. Mas se vosmecês estão aqui de emboscada a algum tonante, será bom deixarem aberta esta janelinha da porta.
— Não estamos de emboscada a ninguém, porque quem queríamos já está seguro — disse um deles, trancando com a taramela a janelinha indicada. — Ah ! Já sei. Querem cear comigo. Não ponho dúvida.
Os desconhecidos entreolharam-se como se consultassem.
— Não façam cerimônia, camaradas. Naquela mesinha, que ali vêem, muito fidalgo tem feito a sua refeição. Tirem os capotes, se querem estar à vontade; e esperem um momento que não há demora.
Sem esperar resposta, o velho tomou o interior do casebre, e voltou logo, trazendo pães, postas de peixe frito, e uma cuia com farinha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.