Por José de Alencar (1870)
Nesse partido que se preparava para a resistência armada, havia uma fração que era francamente republicana, e aspirava à independência para formação de um estado unido da grande Confederação do Rio da Prata. O espírito republicano dominava essa fração a tal ponto que desvanecia de momento a repugnância tradicional das duas famílias da raça latina. Mais tarde essa antipatia se teria de manifestar, como sucedeu com a Cisplatina.
Neto e Canabarro eram a alma da opinião republicana.
A outra fração muito mais numerosa do partido da resistência não tinha idéias de separação e independência. Limitava-se a restaurar e manter o que chamava liberdade, palavra tão vaga na linguagem dos partidos, que em seu nome se cometem os maiores atentados contra a lei e a justiça.
A essa numerosa parcialidade, da qual era chefe incontestado Bento Gonçalves da Silva, o homem de maior influência na província, aderiram sinceramente não só os liberais da campanha como a classe militar, decaída do antigo lustre com a política democrática e pacífica, inaugurada pela revolução de 7 de abril.
Assim, por uma contradição muito freqüente em política, dois interesses opostos, mas ofendidos, se reuniam para destruir o obstáculo comum. É o efeito dos governos fracos e perplexos como foi o da regência trina; sofrem ao mesmo tempo a irritação dos aliados e o desprezo dos adversários.
Por muito tempo Bento Gonçalves, apesar da sedução do mando supremo, que sorria à sua ambição, resistiu às instâncias do grupo republicano. A história lhe fará essa justiça: que sua energia, a lealdade de seu caráter, e o grande prestígio de seu nome, contiveram a revolução, desde muito incubada no ânimo da população.
Porventura não atuaria no espírito do coronel o princípio monárquico tão fortemente quanto o sentimento da nacionalidade e sobretudo da dignidade da raça. Como brasileiro devia repugnar-lhe a comunhão com os povos de origem espanhola, que ele, veterano encanecido nas pelejas, havia combatido desde os primeiros anos.
Nem podia escapar à sua perspicácia o futuro que estava reservado ao Rio Grande, na sonhada confederação. Fora preciso cegar-se completamente para não conhecer que o novo estado seria mais uma presa do caudilho feliz, que nos devaneios de sua ambição aspirava à restauração do antigo vice-reinado de Buenos Aires, para trocar então por uma coroa o chapéu de ditador.
Receoso da agitação que se manifestava na província, o governo da regência chamara à corte Bento Gonçalves, e afirma-se que ele voltara disposto a empregar sua influência em bem da ordem pública. A verdade é que, embora acusado de excitar os ânimos, não se aproveitou para proclamar a revolta de tantas ocasiões que lhe ofereceram repetidos motins, especialmente o de 24 de outubro de 1834.
Bem longe de defender a revolução, a julgou talvez com extrema severidade. Não foi unicamente um crime político, um atentado à integridade do Império, foi mais do que isso: foi um grande erro que felizmente não se consumou. A separação do Rio Grande seria um sacrifício de sua nacionalidade, que brevemente ficaria absorvida, senão aniquilada pela anarquia das repúblicas platinas. Não se decepa um membro para dar-lhe força.
A história, superior às paixões, restabelecerá a verdade dos fatos. Não é meu propósito antecipá-la. Dessa página apenas destaco o vulto do homem que figurou como protagonista da tragédia política, em cuja cena também se representou o drama simples e obscuro que me propus narrar.
Sucediam-se os dias na vaga expectativa de um acontecimento, que parecia inevitável, quando correu a notícia da demissão de Bento Gonçalves, apeado pelo presidente dos dois comandos, o do 4º corpo de cavalaria e o da fronteira de Jaguarão. Esse e outros atos de energia teriam sopitado a resistência, cuja fraqueza contagiava os auxiliares da administração. A mudança do presidente, talvez com uma concessão a Bento Gonçalves, reanimou seu partido, sem contudo satisfazê-lo.
A demissão do coronel foi considerada como um desafio lançado pelo governo à revolução; e portanto estabeleceu-se na campanha uma convicção de que o rompimento dessa vez era inevitável. Esse ato enchera a medida do descontentamento.
Manuel soube da notícia em uma estância próxima, onde a trouxera um peão chegado naquele momento de Bagé. Entrando em casa, achou a mãe e Jacintinha sentadas numa esteira a trabalhar.
— O coronel foi demitido!
Não se disse mais palavra. Todos compreendiam o alcance do fato. Passado o primeiro movimento de surpresa, Francisca levantou-se e foi procurar a mala velha de João Canho; enquanto a filha tratava de arranjar a roupa do irmão, a velha limpava a reiúna, encostada e sem serventia desde 1812. Manuel de seu lado revistava seus arreios, o laço e as bolas, consertando ou substituindo as peças estragadas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.