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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Ela hesitou; por fim prorrompeu-lhe a voz do seio arquejante: 

 

— Porque não posso fazer-lhe a vontade... Não! Sofro horrivelmente! 

 

— Isto quer dizer que eu te incomodo vindo aqui. 

 

— Ao contrário, meu Deus! É a única alegria que tenho neste mundo. Dê-me esse consolo! Venha conversar comigo! Todos os dias!... 

 

— Tenho agora muito que fazer: estou tratando de estabelecer-me. A tua conversa é bastante agradável, mas falta-me o tempo! 

 

— E nos domingos ?... 

 

— Ora Lúcia, sejamos francos. Melhor é confessares que eu te importuno. Já sabia disso; não me dirias nada de novo. 

 

Quer saber o que respondeu? 

 

— Se lhe incomoda vir aqui, eu irei vê-lo. 

 

— Para conversar?... 

 

Deixou pender a cabeça abatida. 

 

— Para isso, continuei, não se incomode. É até favor não ir; porque vendo-a não me saberei dominar, e posso causar-lhe algum horrível sofrimento. 

 

— É justo! Servi apenas para matar um desejo! E hoje nem para isso!.. . 

 

Ainda voltei uma vez à casa de Lúcia. 

 

Era natural; à medida que eu sentia essa criatura desapegar-se de mim, agarrava-me a ela com a ânsia do náufrago. Suspeitava que Lúcia tinha um amante. Queria desenganar-me; o acaso favoreceu-me. 

 

Vi entrando na sala um objeto que pela sua novidade atraiu logo a minha atenção. Era um elegante vaso de cristal cor de leite, representando uma tuberosa; a flor que lhe servia de bocal ostentava uma camélia soberba; o ciúme, que é instinto e faro da paixão, descobriu logo entre o pé do vaso e o mármore do consolo a ponta de uma carta em papel rosa. 

 

Lúcia teve um sobressalto quando entrei. Podia ser um assomo de alegria, por me ver depois de três dias de ausência; podia ser também um movimento de contrariedade. Atribui ao segundo motivo. 

 

— Estavas esperando alguma pessoa? 

 

— Já ninguém me visita. 

 

— Por que razão? 

 

— Os meus antigos amantes se enfastiaram de mim! disse com voz amarga. 

 

— Virão novos! Já eles se anunciam! respondi indicando a camélia. É naturalmente pela pessoa que te mandou esta flor, que esperas. 

 

Lúcia ergueu os olhos surpresos e pareceu ver pela primeira vez o vaso e a camélia. 

 

— É um lindo presente com efeito! disse ela chegando-se ao consolo. E uma flor tão bonita não tem perfume!... 

 

Levantando o vaso, descobriu a carta que eu entrevira, e que ela passou-me sem ter rompido o fecho. 

 

— Leia. 

 

Corri os olhos pela carta; era do Cunha; insistia com Lúcia para aceitar o seu amor, oferecendo-lhe as condições mais brilhantes que poderia desejar uma mulher na sua posição. Enquanto lia, ela se aproximara da janela. 

 

— Ah! que pena! exclamou rindo. 

 

O vaso e a flor acabavam de despedaçar-se nas pedras da calçada. Lúcia tomou-me a carta das mãos e sem ler rasgou-a friamente. 

 

— Não desconfie; desse menos que de qualquer outro. Já foi meu amante; uma noite vi sua mulher, que ele abandonava por minha causa, triste e pensativa. Desde esse momento deixou de existir para mim. 

 

Lembra-se do que me dissera o Cunha no teatro? Era assim que caluniavam essa moça; porque também ela punha sobre o coração a máscara do capricho. 

 

Tínhamos esquecido o Cunha e falávamos de outras coisas. 

— Decididamente, Lúcia, não queres mais saber de mim? 

 

— Eu!... Se é preciso, suplico-lhe de joelhos que me venha ver! 

 

Abanei a cabeça. 

 

— Se tens um amante e desejas guardar-lhe fidelidade, é diferente; podemos ficar amigos e ver-nos ainda de vez em quando. Mas para satisfazer um capricho pueril! Não estou disposto. 

 

— Então se eu tivesse um amante, faria o que eu lhe peço? Viria ver-me? 

 

— Nesse caso haveria um motivo justo, que eu respeitaria. 

 

— Pois bem; eu tenho! 

 

— Um amante? 

 

— Sim! 

 

— Quem é ele? 

 

— Não sei. Ainda não tenho; mas terei amanhã; hoje, se quiser. 

 

— Agora mesmo! Serei eu! 

 

— Oh! não! 

 

— Bem vês que não passa de um capricho. Já me tinham falado dessa tua excentricidade. Gostas de fechar a porta aos teus amantes, quando eles menos esperam; talvez para puni-los do prazer que lhes deste! É uma vingança! 

 

— Aqueles que lhe falaram assim tinham razão; mas nenhum, fique certo, se queixará de o ter eu enganado. 

XVII 

 

Havia mais de quinze dias que já não ia a casa de Lúcia; tinha-a encontrado três ou quatro vezes na rua, e não lhe falara: fingia não vê-la. 

 

A princípio custou-me não ceder àquele doce hábito; mas convencido como estava de que essa mulher zombava de mim, e queria ver-me representar o ridículo papel de amante titular, ou honorário, satélite de um astro que brilha para outros, paciente caudatário que as cortesãs gostam de trazer por orgulho e vaidade, revesti-me de coragem, e quebrei de uma vez com essas relações. O tempo é remédio soberano; os dias correram; a pouco e pouco fui-me resignando à separação. 

 

Tinha aproveitado a minha liberdade para me preparar à vida séria. Mudara-me do hotel, e tomara um primeiro andar na Rua da Assembléia. As passadas necessárias para fazê-lo mobiliar e arranjar, as compras de arranjos domésticos tinham feito uma poderosa  diversão que muito concorreu para fortalecer-me na resolução  que havia tomado. 

 

(continua...)

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