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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Celina tinha de tal modo tomado gosto por esse gênero de música, que a presença do guarda-portão em seus estudos da tarde já era para ela uma necessidade. Por isso, foi com vivo movimento de prazer que ela viu mostrar-se à porta da sala a cabeça branca e o olhar malicioso do velho Rodrigues.

– Ah! exclamou; entre, entre, meu bom mestre de baladas; então, que teremos hoje?...

– Quase que já esgotei tudo quanto sabia, respondeu o velho.

– Pois então repitamos tudo quanto já ouvimos.

– Esses pobres cantos ouvidos mais de uma vez perdem talvez todo interesse que podiam ter merecido.

– Não; não. Vamos, sr. Rodrigues. Escolhamos um dos que já foram mesmo mais cantados. Por exemplo – Lindóia.

– Esse não...

– A Tamoia feita escrava?...

– Também não...

– O Sino do Colégio?...

– Cantei-o já três vezes.

– Escolha então o senhor um outro.

– Pois bem, senhora, cantarei – o Sonho da Virgem.

– Oh! esse ainda não o ouvi eu.

– É um romance moderno, feito ao molde dos antigos.

– Pois bem; vamos a ele.

O velho começou com voz pausada e melancólica a cantar assim:

Era um dia um mancebo que ardente Pobre vida esquecido vivia,

E uma virgem formosa inocente,

Que outra igual não se viu, não se via.

Quem separa o ardor da beleza?...

Um abismo fatal: – a pobreza.

O mancebo a donzela adorava?...

Quem o sabe?... ninguém dele ouviu.

Em seu peito esse amor sepultava, Se o amor em seu peito nutriu,

E se amava, era triste esse amar; Era um mudo e terrível penar.

E se amava, quem disso curou?

Quem ouvira do pobre o gemido?... Se o seu peito um ai só desatou, Foi um ai no deserto perdido. E podia alta e nobre donzela

Ver um pobre chorando por ela?...

O que é feito da virgem, do pobre?...

Quando o dia voltar to direi.

Negro manto da noite nos cobre. Ela dorme... mas ele... não sei. É na terra das trevas o véu;

Vagam sonhos... misteriosos do céu.

Eis a virgem... num vale formoso, De tapete de relva coberto,

Assentada em outeiro mimoso

Vendo um lago, que mora ali perto: Cobre-a teto de mil trepadeiras,

Há dois montes, que c’roam palmeiras.

Vêm dos montes meninos amores,

Em seus braços cestinhas trazendo; Tiram delas e espargem mil flores

Sobre a virgem, que os olha tremendo; E os amores seus jogos seguindo

Vão brincando, dançando, e se rindo.

Soa um canto dormente, mavioso, Que entoado no céu parecia,

Já das flores ao bafo oloroso, E perfumes o ar rescendia:

E a donzela, que tanto sentiu,

Entre eflúvios e cantos dormiu.

E um menino com seta afiada

Rasga o peito da virgem então,

E com hábil mãozinha apressada Rouba o puro, feliz coração. E a ferida nem sangue jorrou, Nem doeu, antes logo sarou.

Despertou a donzela assombrada

Com os clamores do bando loução. E a chorar desatou desolada

Vendo o roubo do seu coração. E o cruel, o fatal roubador

Foi na terra plantá-lo, qual flor.

A donzela chorava... chorava...

E os meninos as mãos ajuntaram.

E correndo pra onde ela estava,

Nas mãozinhas seu pranto apararam; E vão todos com gesto apressado A regar, o que estava plantado.

E nasceu um arbusto mimoso...

E do céu um anjinho baixou, Que fiel, vigilante, piedoso

Pela virgem constante velou. E esse anjinho amoroso, que vela, Tem o rosto da mãe da donzela...

Já o pranto da virgem secou,

E o arbusto nascido cresceu; De folhinhas mimosas se ornou;

O seu caule de espinhos se encheu. Coração de uma jovem formosa Brotou linda roseira viçosa.

Os meninos fugiram pra o monte, Três botões a roseira brotou,

Dois aos lados um doutro defronte, E o terceiro superno ficou.

Estava ali no envoltório da flor

Um segredo, um mistério de amor.

Veio então pelo lago descendo

Um batel, que em riquezas primava, Tudo quanto ia nele se vendo

De tão rico e brilhante ofuscava; Té que em terra seu dono saltou;

E a donzela, que o viu... trepidou.

Era rico; mas torvo no olhar,

E feroz, no sorrir causa susto; Veio vindo... e enfim té parar

Mesmo junto do flórido arbusto;

E a donzela pra o seu anjo olhando, Soluçou; porque o viu soluçando.

O seu braço monstruoso estendeu Pra roseira o opulento senhor;

Dos botões o da esquerda colheu...

Soa um grito de susto, e de dor;

E o tirano sem nada escutar O colhido botão vai beijar.

Porém pára espantado... sentido...

Frio... pálido espectro ficando, Que o botão encantado, colhido

Vai-se todo mirrando... mirrando... Esvaiu-se... mais forma não tem, E o batel e seu dono também.

Veio então pelo lago chegando Belo carro de prata formado,

E rinchando, bufando, nadando

Os ginetes, que o trazem puxado, Té que em terra seu dono saltou,

E a donzela, que o viu... trepidou.

Era rico; mas velho e cansado

Todo em rugas o rosto mostrou;

Veio vindo a um bastão arrimado, Té que junto do arbusto parou. E a donzela pra o seu anjo olhando, Soluçou, porque o viu soluçando.

O seu trêmulo braço estendeu

Pra roseira o tão velho senhor, O botão da direita colheu...

Soa um grito de susto e de dor, E o tirano sem nada escutar O colhido botão vai beijar.

Porém pára espantado... sentido...

Frio... pálido espectro ficando;

Que o botão encantado, colhido

Vai-se em linda avezinha tornando... Bate as asas... pra o céu já fugiu;

Velho, e carro... quem foi que os sumiu?...

(continua...)

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