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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Deus me livre de dizer tudo quanto ouvi, rebentando do interior de certas casas, ou falando sem reserva nas ruas ao ruído abafado ou a algazarra vergonhosa do vício em dissimulação ou em desenvoltura.

Ouvi finalmente no dobre de alguns sinos o sinal de três horas da madrugada, e dirigi-me então a Rua do Hospício.

Como da primeira vez o Reis me esperava à porta de sua casa.

X

Entrei.

Eu achava-me fatigado do longo passeio e pedi licença para descansar alguns momentos. Sentei-me e respirei afadigado.

O Reis se conservou em silêncio ate que lhe perguntei:

—O armênio?

—Sem dúvida está no seu gabinete; não o preveni.

Eu não posso ver o que porventura terá de se passar dentro em pouco; conto com a sua condescendência para referir-me por miúdo o que não me 6 dado apreciar pela vista.

—Pode estar certo disso.

—Bem; já descansei: vamos procurar o armênio.

O Reis tomou-me o braço e disse:

—Vamos; se ele é, como pretende, verdadeiro mágico, deve ter adivinhado a sua visita; se o não é, surpreendê-lo-emos ou descuidado, ou dormindo.

E tínhamos apenas avançado um passo, quando o armênio mostrou-se à porta do fundo do armazém, trazendo na mão uma lanterna furta-fogo.

—Eu adivinhei a tua visita, mancebo, disse ele.

E fitando o Reis, acrescentou:

—Reconheça-me pois verdadeiro mágico.

O Reis não respondeu; evidentemente ficara confundido.

O armênio adiantou alguns passos para nós, e dirigindo-se a mim, disse-me:

—Criança! não te acuso pelo que fizeste: a tua desobediência aos meus conselhos era um fato previsto pela magia; es homem, tinhas de errar, como erraste. —Não errarei outra vez, balbuciei humildemente, —Errarás sempre, e tornarás a desobedecer-me.

—Não!

—Vê-lo-ás.

—Então conseguirei deveras outra luneta mágica?

—Sim, se a exiges.

—Peço-a de joelhos.

—Criança! para que teimas em querer ver?...

—Porque ver é viver.

—Eu te anunciei da outra vez que o que me pedias era o mal, o gelo do coração, o ceticismo na vida, e sabes que não te enganei.

—Mas ao menos eu vi, e agora de novo me acho cego.

—Criança! tu escolheste um dia benéfico, um domingo, uma hora propícia, a que antecede apenas ou vê despontar a aurora; ainda assim porém tu veras demais!

—Embora!

—Pedes-me uma segunda luneta mágica que te será fatal como a primeira.

—Já tenho por mim a experiência.

—Será o engano infantil na vida...

—Aceito!

—Será a credulidade insensata.

—Aceito!

—Será a inocência indefesa.

— Aceito!

—Será a zombaria do mundo e a cegueira da razão.

—Aceito!

—Por que, criança?…

—Porque eu quero ver.

—Verás demais!

— Aceito.

—Eu o sabia, e tanto que o altar está pronto e nos espera; já evoquei os espíritos elementares: nada falta; vamos.

Mas ao primeiro passo, o armênio levantou a lâmpada, inundou-nos de luz, e disse:

—Trazes vestidos de cor preta, que e antipática a Júpiter, cujo dia é hoje.,,

E fez com a mão um sinal que eu não vi com os olhos; mas a que obedeci, ficando imóvel, e como preso ao lugar que meus pés pisavam.

O armênio saiu do armazém para ir ao seu gabinete.

O Reis silencioso, eu estático, respirávamos apenas, dominados pelo prestigio do mágico que em breve tornou a aparecer, trazendo uma túnica de pano branco bordada de triângulos de prata. Cumprindo as ordens do mágico tirei a sobrecasaca, o jaleco e a gravata que eram de cor preta, e vesti a túnica.

—Agora vamos, repetiu ele.

O Reis e eu seguimos em silêncio o mágico.

XI

Não pude ver o que se passou desde que entramos no gabinete do armênio até o fim da operação mágica; referirei porém o que o meu amigo Reis me contou com inteira verdade e profunda admiração.

Cumpre-me declarar que o meu amigo insiste em não acreditar na magia; confessando porem não poder explicar e menos negar os prodígios de que foi pela segunda vez testemunha.

O Reis jurou culto e fé às ciências físicas e fanático por elas não quer ver o maravilhoso e o sobrenatural que lhe está entrando pelos olhos, nem sentir o que está tocando os seus sentidos. Todavia leal e nobre, o meu amigo referiu-me quanto viu e que vou repetir, e apelo para o seu testemunho que é insuspeito por ser testemunho de incrédulo.

O armênio que nos conduziu ao seu gabinete, trajava vestido de púrpura com tiara e braceletes de ouro; trazia no dedo competente anel de ouro com um rubim, e na cabeça barrete ainda de púrpura com o pentagrama bordado de prata.

A porta do gabinete magico abriu-se em par a um simples aceno da mão direita do armênio O interior do gabinete estava resplendente de luz, e todo ornado das mesmas figuras e símbolos da cabala, que na primeira operação magica se observaram; as cores porém eram outras e diferentes; as paredes estavam pintadas de vermelho vivo, tendo em cor de ouro as vinte e duas chaves do Tarot, e os sinais dos sete planetas; o teto era azul como o céu no dia mais sereno, tendo no centro a figura do pentagrama fulgurando, como se fosse fogo, como se tivera tomado de empréstimo o brilho do sol mais ardente.

(continua...)

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