Por Adolfo Caminha (1896)
Compunha-se a comitiva de S. M. Imperiais, conde e condessa d'Eu, príncipes D. Antônio, D. Luís e do Grão-Pará, visconde da Mata, visconde de Santa Quitéria, um general, um almirante, o desembargador Lousada e a esposa, e outras pessoas de distinção.
O povo cercou o monarca e quis beijar-lhe a mão antes dele entrar no Arsenal; mas o velho, todo trêmulo, com os olhos úmidos, partido de saudade, balbuciou fitando os que o rodeavam:
— Não, aqui não: o sol está muito quente!
— Viva Sua Majestade a Imperatriz! — berrou uma voz.
E todas as cabeças se descobriram e todas as bocas exclamaram — Vi.... ôôô! num entusiasmo ardente e apaixonado.
Vozes de comando estrondeavam no recinto da praça; uma guarda de honra do batalhão naval fazia as continências ao monarca. E ele, muito amável, muito cheio de cortesias ao lado da Sra. D. Teresa, a mãe dos brasileiros, ia-se multiplicando em cumprimentos para aqui, para ali, curvado ao peso dos anos e da traiçoeira enfermidade que o minava.
Uma onda acompanhou-o vitoriando-o, aclamando-o de chapéu no ar, aos gritos de Viva Sua Majestade o Imperador! Viva Sua Majestade a Imperatriz! Viva Sua Alteza a Sra. D. Isabel! Viva o Sr. Conde d'Eu!
E a música repetia o hino nacional uma vez, duas vezes, três vezes, confundindo-se com o alvoroço da multidão.
Por fim um silêncio medroso caiu aos pouquinhos, amortecendo o entusiasmo e transformando-o num vago pigarrear abafado e tímido.
A galeota resfolegava e dentro dela já se moviam homens pressurosos, na sofreguidão de evitar o arrocho e de se garantirem um lugar cômodo. O imperador do Brasil, com os olhos vagamente nublados, num grande círculo de homens e senhoras que o queriam ver e beijar, tinha a fisionomia resignada dos mártires que a lei desterra para longínquos países, donde não voltam nunca.
Ainda não era chegado o momento das despedidas, hora trágica dos beijos e das lágrimas. Havia uma ansiedade em todos os olhares; uma tristeza calada e circunspecta ia dominando os espíritos, empolgando-os de leve, penetrando os corações vitoriosamente.
A herdeira do trono enxugava os olhos, muito rubros de comoção e de calor, em contraste com a branca fisionomia do pai. O monarca repousava numa cadeira que lhe fora oferecida por um velho almirante de rosto escanhoado. Mas de repente ergueu-se, compungido, e abriu os braços à filha. Sua Alteza percebeu que o velho ia-se despedir e murmurou:
— Não, meu pai, eu vou a bordo...
— Vais a bordo?... Oh!...
— Sim, vamos todos a bordo...
— Conselheiro — disse então o velho para um homem idoso, fardado de ministro, que conversava com o príncipe Gastão de Orleans — um abraço...
— Vossa Majestade permitirá que o acompanhe ao Gironde... — fez o conselheiro dobrando-se.
— Não quero que se incomodem por minha causa... O tempo é dinheiro...
— Não é incômodo, senhor, é um prazer e uma obrigação... — Pois bem, vamos, para não demorar o vapor...
A essas palavras do monarca, a onda dos cortesãos agitou-se, trovejou a voz do oficial que comandava a guarda de honra, tilintaram espadas e uma fila de homens e senhoras marchou, com solenidade, para a galeota. O cais estava todo negro de gente que tinha ido ver "o embarque".
A procissão fez alto à borda d'água, trocaram-se muitos cumprimentos, D. Isabel levou ainda uma vez o lenço aos olhos, o conde abaixou a cabeça, de lado, para ouvir um general que o importunava com perguntas; uma menina de seis anos, vestida de branco ofereceu ao imperador um buquê de flores artificiais, com dizeres em ouro numa larga fita verde, e, ao som do hino, os imperiais turistas embarcaram. Lanchas apitavam, cruzando-se na baía, defronte do Arsenal. Uma tristeza enorme avassalou todos os corações naquele momento, e quando a galeota fez-se ao largo e o último adeus flutuou na asa de um lenço — palpitante, como um coração espedaçado — milhares de silhuetas brancas emergiram da onda negra dos que ficavam... E uma aclamação geral, clamorosa e dorida, vibrou na luz intensa, pelos cais, pelas embarcações, mar adentro, como uma celeuma de vencidos...
Adelaide chorou sem saber de quê; encheram-se-lhe d'água os olhos; quis falar e faltou-lhe a voz: era como se nunca mais pudesse contemplar aquela insinuante fisionomia do velho, meiga e boa, que ninguém ousava desrespeitar.
Estavam à sombra de uma árvore, ela, D. Branca e Furtado; dali é que tinham visto tudo — os menores movimentos do imperador e da família imperial até a hora do embarque.
Os olhos da esposa de Evaristo iam e vinham, de um lado para outro, e pouco a pouco foram-se umedecendo, pouco a pouco foram tomando uma expressão comovida e inquieta que o secretário logo percebeu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.