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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

E abraçava-o, rilhando os dentes, nervosa, excitada, oferecendo-se ao rapazinho numa fúria sensual e mórbida.

— Mas, que diabo é isso, filha, estás louca? ralhava o grumete cuja fisionomia, desde que chegara, não se abrira num sorriso amável: — que desespero é esse?

— Oh! mas eu te quero tanto bem, meu queridinho, eu te amo tanto!

Ele não disse palavra. O jantar correu frio. D. Carolina retraiu-se por sua vez, humilhada com as maneiras de Aleixo, porque ele, seco e indiferente, não lhe fazia o menor agrado. Ambos permaneceram calados, como duas pessoas estranhas na mesa de um hotel. Mas, para o fim, ela não pode suportar aquele silêncio incômodo.

— Que te fiz eu, ó filho, dize, que te fiz eu? Não me encontraste só, em casa, trabalhando, mourejando? Que te fiz eu?

Aleixo continuava mudo, os beiços agitados por um tremor convulso, o olhar na parede.

— Vamos, dize, que te fiz eu? insistiu a portuguesa tocando-lhe no braço. Hás de ter alguma razão para te zangares...

Ele, porém, não se movia, não dava resposta, impenetrável na sua mudez obstinada e cruel, que estava quase arrancado lágrimas à mulher. Então D. Carolina sentiu um desespero n’alma, e, erguendo-se triste, foi-se para a alcova, maldizendose, lamentando a “sua desgraça”: — Que era uma infeliz, que todos a desprezavam, que estava cansada de sofrer, que a vida era um inferno, que preferia morrer!

— Para que fechou, então, a porta da rua? tornou ele. Há algum mistério nesta casa? A senhora não me esperava hoje?

— Ó filho, pois eu já não te disse que fechei apor causa de um medo que me assaltou de repente?...

— Que medo, senhora, que medo! Para tudo há desculpa. A senhora não está procedendo bem...

D. Carolina tinha se deitado na cama, fungava, limpando os olhos com o avental, muito queixosa.

— Donde é que veio esse medo hoje? Todos os dias a senhora não abre a porta, não a deixa escancarada?

— Está você fazendo barulho à toa, por uma ninharia... Ou o homem tem confiança na mulher ou não tem. Você nunca me encontrou com outro, para fazer mau juízo da gente...

— Bom, mas, então, seja franca, explique-se. Por que é que fechou a porta da rua?

Havia já um princípio de reconciliação. Aleixo aproximara-se da cama sensibilizado pela voz magoada da portuguesa que lhe botava uns olhos muito ternos, muito cheios de humildade e resignação.

— Queres que eu te diga porque é que fechei a porta da rua? Pois senta-te pr’aí que eu te vou dizer. Calei-me por tua causa mesmo, para não te dar cuidado.

O grumete imaginou logo uma série de cousas desagradáveis: tentativas de roubo, ameaças e prisão, violências, um horror! Estava longe, porém, de pensar em Bom-Crioulo; a seus olhos o negro morrera, desaparecera; ninguém lhe dava notícias dele; decididamente nunca mais voltaria; talvez andasse nalguma viagem, mar afora, nalgum cruzeiro. ..

E a portuguesa narrou o caso do bilhete, que ela rasgara., “porque não valia a pena a gente se amofinar...”

Aleixo ouviu tudo curioso, a face na mão, derreado na cama larga.

— E onde está ele? perguntou vivamente.

— No hospital de marinha, na ilha, com alguma doença... Quem o não conhecer que o compre.

Aleixo não quis dizer nada; mas a história do bilhete comovera-o, enchera-o de uma vaga melancolia: — Bom-Crioulo ainda se lembrava!...

Pensou em visitar o negro, talvez fosse mais prudente...

— Que acha?

D. Carolina reprovou: — Jesus, que asneira! Isso era o mesmo que uma pessoa se atirar do Corcovado. Não, nunca!

— Deixa-o lá, filho: pouco a pouco ele irá se esquecendo; faze pela vida e deixa-o lá. Vamos indo muito bem sem ele. Nada!

— E se ele entrar por aqui adentro um belo dia?

— Qual!... Por isso é que eu trago a porta da rua fechada...

— Bom, murmurou o grumete, erguendo-se. A vida é esta!...

— E ninguém deve ir contra as leis da Providência, resumiu D. Carolina dogmaticamente.

Serenara a pequena discórdia. Estava tudo explicado. Aleixo reconhecera sua injustiça para com a portuguesa, e ela o perdoara, sempre boa, sempre generosa. Do alto do sobradinho viam ambos, agora, aconchegados, felizes, rindo, os que passavam embaixo, na rua. Que importava Bom-Crioulo? Que importava a febre amarela? Em todo o Rio de Janeiro, em todo o mundo só havia duas criaturas felizes: ele, o grumete, e ela, a portuguesa — felizes como Adão e Eva antes do pecado, felizes como todos os casais que se amam...

Saíram juntos, a dar uma volta, nessa noite. Aleixo propôs irem ao Passeio Público tomar um sorvete, um refresco, uma bebida qualquer. Não se podia estar em casa com o calor! D. Carolina lembrou a Guarda-Velha: — Não seria melhor irem à Guarda-Velha, à fábrica de cerveja? Havia música também...

Mas o grumete ponderou que na Guarda-Velha estava-se muito à vista, iam marinheiros de bordo, havia muita gente. O Passeio Público era maior e menos freqüentado: tinha-se mais liberdade. E depois era só tomar o bondinho da Lapa.

— Oh! vai com a roupa de marinheiro! suplicou D. Carolina, vendo-o enfiar um jaquetão à paisana. É mais fresca e dá respeito...

(continua...)

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