Por Adolfo Caminha (1893)
Arre! Estava muito fatigada, precisava descansar.
E adormeceu imediatamente com um sorriso adorável na pequenina boca entreaberta.
Teve sonhos impossíveis e horrorosos nessa noite. Cerca de onze horas acordou sobressaltada com um pesadelo. Sonhou, coisa extravagante! que ia sozinha por um caminho deserto e interminável onde havia urzes e flores em profusão. Estava perdida, sem saber o rumo que devia tomar, caminhando, caminhando sem olhar para trás.
De repente — Arre corno! ouviu a voz aguardentada do Romão, o mesmo que fazia a limpeza da cidade, e logo surgiu-lhe em frente a figura nauseabunda e miserável do negro. Era um Romão colossal, grosso e musculoso como um Hércules, nu da cintura para cima, as espáduas largas e reluzentes de suor, calças arregaçadas até os joelhos, preto como carvão, as pernas curvas formando um grande O, os braços levantados, segurando na cabeça chata um barril enorme transbordando imundícias! — Arre corno! gania o negro no silêncio da noite clara, cambaleando muito bêbado, perseguido por uma cáfila de cães que ladravam desesperadamente. Fazia um luar esplêndido...
Assim que deu com os olhos nela, o negro atirou ao chão o barril de porcarias, que se despedaçou empestando o ar. E o Romão, cambaleando sempre, muito fedorento, atirou-se a ela, rilhando os dentes num frenesi estúpido, beijando-a, besuntando-a.
Que horror! Ela, mais que depressa, cobrindo o rosto com as mãos, quis fugir, sentindo toda a hediondez daquele corpo imundo, mas o negro deitou-a no chão com força e... E Maria do Carmo acordou quase sem sentidos, sentando-se na rede, com um grande peso no coração, aflita, sufocada, sem poder falar, porque tinha a língua presa...
— Virgem Maria! suspirou logo que pôde voltar a si. Que sonho feio!...
Suava em bicas, muito pálida, como se acabasse de sair de um forno. Só então reparou, muito admirada, que ainda estava com a mesma roupa com que fora ao Passeio Público. Riscou um fósforo com a mão trêmula, acendeu a velinha de carnaúba e começou a despir-se depressa.
Lá fora, na rua, passava uma serenata. Uma voz de homem cantava uma modinha conhecida, acompanhada de violão e flauta: Não cho... res, querida Elvi... ra...
Maria sentia-se doente, com um sabor desagradável na boca e uma dor forte nas têmporas. Vinha-lhe uma vontade de vomitar, de deitar fora a cerveja que bebera; sentia um mal-estar geral em todo o corpo, como se estivesse para cair gravemente doente.
Que seria, Deus do céu? Aproximou a vela do espelho, um velho traste com o aço muito estragado, e achou-se abatida, os olhos fundos, uma crosta esbranquiçada na língua. Nunca mais havia de tomar a tal cerveja, uma bebida selvagem, sem gosto, repugnante como um vomitório. Só tomara naquela noite por causa do Zuza, porque ouvira dizer que “era moda nas grandes cidades”, na Corte e no Recife, as senhoras tomarem cerveja. Mas credo! noutra não caía. Se soubesse teria pedido cidra.
Quis chamar a Mariana para lhe fazer um chazinho de laranja, mas era muito tarde, podiam desconfiar e, depois o padrinho agora dormia na sala de jantar...
Não, não, era melhor não incomodar a ninguém! aquilo havia de passar, se Deus o permitisse.
Tinha até se esquecido de rezar...
Ajoelhou-se, mesmo em camisa, diante da oleografia que representava o Cristo abrindo o coração à humanidade, balbuciou uma oração, persignou-se, e, mais aliviada, mais fresca, adormeceu novamente, pensando no estudante.
O amanuense, no mesmo dia da briga com a mulher, resolvera de então em diante dormir numa rede na sala de jantar. Uma figa! não estava mais para suportar o calor infernal da alcova, e, além disto, viviam ultimamente, ele e D. Terezinha, arengando consecutivamente, como duas crianças invejosas, pela coisa mais insignificante. Ele, muito bilioso, achava que tudo em casa ia muito ruim, que D. Terezinha não se importava com as coisas, que não se fazia mais economia. — “Um gasto enorme de dinheiro! um desperdício sem nome, um esbanjar sem trégua, e, afinal de contas, não passavam da carne cozida e do lombo assado com arroz. Isso assim ia mal, muito mal. Depois ninguém fosse chorar por dinheiro...”
Quem, ela, chorar? Que esperança! Estava muito enganado, seu “papa-angu de boceta”. Tinha muito para onde ir, não faltavam casas de gente séria no Ceará.
Socasse o seu dinheiro onde quisesse...
Toda a vizinhança, ávida de escândalos, ouvia com risinhos de pérfida satisfação aqueles torniquetes às vezes imorais, até do amanuense com a mulher. Era um divertimento.
— Deus os fez e o diabo os ajuntou, dizia a mulher de um barbeiro que morava ali perto, paredes-meias.
Quando João da Mata entrava na pinga então a coisa tomava proporções assustadoras. Ameaçava expulsar a mulher de casa a pontapés, berrava como um possesso, batia portas, quebrava louça ao jantar, rogava pragas, e a própria criada não escapava à sua cólera.
Mariana era uma rapariga muito pacata e em pouco se acostumou às impertinências ríspidas de “seu Joãozinho”.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.