Por Inglês de Sousa (1891)
E ali, naquele baile, estimulando-se uns aos outros, antegostando prazeres em comum, incitados pela astúcia diabólica do Chico Fidêncio, confirmavam os projetos, arrastavam os indecisos, preparando-se para a perdição da alma, de que tanto lhes falara a inspirada palavra de padre Antônio de Morais!
Felizmente no meio daqueles tresloucados um homem de juízo apareceu.
Neves Barriga, com o estômago repleto de pastéis e bons-bocados, embora suspirando, não escondeu a resolução criteriosa em que estava:
— Pois eu não vou. Não posso ir. Volto para o Urubus quanto antes. A D. Eulália, coitada, não pode estar tanto tempo separada dos seus queridos xerimbabos.
E o bom homem afastou-se sacudindo resignado a sua cabeça de carneiro manso, e espalmando na mão o grande lenço de ramagens. Mas o tratante do Chico Fidêncio, receando o prestígio da palavra do presidente da Câmara, fitou-o pelas costas com um olhar sarcástico e disse esta frase enigmática:
— Patrício de Loiola!
Macário ia tomar a palavra para secundar a opinião autorizada do Neves, quando por trás dele uma voz murmurou:
— Espere um pouco. Vou arranjar-lhe a primeira xícara de chocolate.
Era o Totônio Bernardino que trouxera da sala a Milu, derretida e rubra.
Ia arranjar-lhe uma xícara de chocolate... mas então já era possível tomar o chocolate e safar-se daquele baile que já o estava aborrecendo muito, principalmente depois da conversa sobre os castanhais. Macário seguiu o Totônio Bernardino que se dirigia para a cozinha. Na sala o Chico Ferreira e o Manduca sapateiro, já muito cansados, fraquejavam, tocando uma polca abaianada. As luzes de querosene começavam a morrer por falta de óleo. Só se esperava pelo chocolate para terminar o baile. O Cazuza Bernardino já gritara por três vezes, inutilmente:
— Polca, meus senhores!
Ao penetrar no corredor da cozinha Macário esbarrou com o Dr. Natividade, que correu para ele, armando-se da luneta:
— Vai pedir chocolate, não é? Pois não arranja!... Nesta casa tudo é assim. A mim fizeram-me uma desfeita, ouviu? Um desaforo! Graças a Deus, não me importa!
Não estou acostumado a receber desfeitas, graças a Deus!
Macário quis seguir adiante, desculpando-se. O juiz municipal pegou-lhe no botão do rodaque:
— Já sabe o que foi? Ah, não sabe ainda? Foi a tal Milu, uma roceira, que me pregou uma taboca por causa do Totônio Bernardino, um criançola! Graças a Deus, eu não estou na altura de receber tabocas. No Recife, em Pernambuco, dancei com as melhores famílias, baronesas e condessas...
O Neves aproximou-se. O Dr. Natividade voltou-se para ele como de mais consideração:
— Graças a Deus, não estou acostumado a receber desfeitas.
Macário safou-se para o interior da casa. Totônio voltara já da cozinha, com uma xícara na mão, cheirando a chocolate fresco. Mas, de surpresa, em caminho, surgiu-lhe pela frente o pai, com a bandeja de fatias-de-parida. Vendo o filho com a xícara, o Bernardino Santana largou, afinal, a bandeja, colocando-a sobre o parapeito duma janela, e avançou para o namorado Totônio:
— Que diabo levas tu aí, rapazinho?
O moço acobardou-se. Era uma xícara de chocolate para a D. Milu, que lha havia pedido, por se estar sentindo muito fraca. Não tomara chá, a coitadinha!
O pai, furioso, tomou-lhe o chocolate, e deu-lhe uma descompostura. Estava bonita aquela pouca-vergonha! Só a Milu é que merecia tudo. Não se dançava senão com a Milu, arranjava-se chocolate para a Milu fora de tempo, e contra a sua ordem expressa! Pois ficasse sabendo que a Milu não beberia o chocolate.
— Mas, papai, eu prometi, balbuciou o Totônio envergonhado.
Macário, comendo discretamente as fatias-de-parida, de que se esquecera o Bernardino, achava o castigo duro.
— Não há de beber, insistia o Bernardino, muito zangado. É para lhe dar uma lição, senhor badameco, para o ensinar a não ser metido a sebo.
E raspou-se para a cozinha com o chocolate.
Macário, com a boca atulhada de fatias, consolou o Totônio.
— Aquilo passa, peça-lhe com jeito.
Mas o pai voltou da cozinha ainda muito zangado. Já dera ordem expressa para não entregarem nenhuma xícara de chocolate senão a ele próprio. Sempre queria ver quem beberia o chocolate sem sua licença!
Reparando nas fatias que deixara e no Macário ali perto, acudiu:
— O senhor já comeu uma lá na varanda, quer servir-se de outra?
O sacristão, delicadamente, com dois dedos, tirou uma fatia e mordeu-a.
— Estão deliciosas, disse.
— Pudera não, replicou o Bernardino carregando a bandeja, foi um poder de ovos e leite como nunca vi!
O Totônio, envergonhado, meteu-se num quarto, chorando. Macário voltou para a sala de jantar.
Era muito tarde, mas já agora não iria sem tomar chocolate.
CAPITULO V
Aquele padre triste tinha mistérios no gesto e uma agressão no olhar — pensava Francisco Fidêncio Nunes, voltando para casa, sozinho, muito preocupado.
Fidêncio fora, essa tarde - uma tarde de junho - sentar-se junto ao balcão do Costa e Silva, à Rua do Porto, onde se reunia de ordinário o grupo anticlerical que o tinha por chefe.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.