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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

As paredes mestras estavam quase concluídas: trabalhava-se com afinco no madeiramento da coberta, e já estava em construção a muralha em volta do edifício, formando um recinto, onde os sentenciados pudessem trabalhar ao ar livre, ou sob telheiros destinados às oficinas. Nas barracas improvisadas moirejavam carpinteiros, de troncos nus e suarentos, no preparo das grandes vigas das amendoeiras e tacanieas do tabuado para o soalho e portas e da obra de esquadria. Ao ruído das enxós, falquejando o rijo pau-d'arco, ao sibilar das plainas e cepilhos raspando das pranchas de cedro, longas espirais encaracoladas e cheirosas, misturavam-se a dos malhos nas bigornas sonoras, onde grossos vergalhões de ferro, candentes nas extremidades, disparavam chispas de encontro aos aventais de coiro dos ferreiros, enegrecidos de fumaça e carvão, fabricando grades invencíveis, junto dos grandes foles ofegantes, como pulmões de um monstro.

A negra torrente de retirantes operários deslizava pela encosta áspera, em marcha de cobra, conduzindo materiais. Era o mesmo vai e vem ininterrupto de homens, mulheres e crianças envoltos em rolos de pó subtil, magros e andrajosos, insensíveis à fadiga, ao calor de culminar passarinhos, taciturnos uns, os semblantes deformados por traços denunciadores de íntima revolta impotente; outros, resignados, como heróis, vencidos pela fatalidade; muitos, alegres e sorridentes, cantavam e brincavam, como criaturas felizes de encontrarem refúgio do assédio angustioso da fome, da miséria, da morte.

Quando Luzia se apresentou ao apontador, houve um movimento geral de surpresa e curiosidade. Ninguém a esperava ver de novo; era considerado morto ou emigrado o trabalhador que desaparecia da obra. Notavam que estava mais esbelta, graciosa, a cor mais clara pelo repoiso de alguns dias. Havia misteriosa alteração no seu semblante. As vigorosas linhas de energia máscula se contraíam em curvas melancólicas, e, nos olhos meigos, flutuava a sombra do ideal morto entre chispas fulvas de anelos incontestados. As atitudes lânguidas e os gestos lentos denunciavam fadiga moral, ou a preguiça voluptuosa das felinas amorosas. Dir-se-ia que se lhe haviam atenuado os tons varonis, e, da crisálida Luzia-Homem, surgira a mulher com a doçura e fragilidade encantadora do sexo em plena florescência suntuosa. Irradiavam dela fluidos de simpatia, empolgando os companheiros de infortúnio, como prestigiosa transfiguração. Estes não experimentavam já a repulsa que lhes causava a moça bisonha, arredia, taciturna, sempre enrolada no amplo lençol de mandapolão branco.

— Como está mudada! – murmuravam as mulheres.

— E não é que a Luzia está ficando bonita! – diziam os rapazes, mutuando olhares sensuais.

— Parece que esteve doente.

— Só se foi de mal de amores.

— Quem sabe? Amor não mata, mas maltrata.

— Qual, mulher! Aquilo é o cansaço de estar fazendo quarto à mãe, que estava vai-não-vai. Não há nada para escangalhar uma criatura como labutar com doentes...

— Ela é um tanto soberba, mas é boa filha até ali.

— Quem é bom filho, é bom em tudo o mais – observou um velho.

Os comentários chegavam aos ouvidos de Luzia, como ecos do murmúrio de maldição, que a perseguia por toda a parte, até na igreja, no trabalho, quando atravessava a multidão de retirantes.

E ela, que antes os afrontava em retraimentos de cólera mal contida, estremecia, agora, pálida e tímida, em angustioso sobressalto de consciência perturbada por inteira e desconhecida mácula, estranha sombra de homem projetando-se no vácuo, que a inocência lhe deixara no coração, como a pegada de um crime, ou o espectro de um remorso. Devia ser assim cruciante, o primeiro momento após o pecado: a alma escondida, envergonhada e temerosa, nos mais íntimos refolhos das entranhas profanadas, aguilhoadas pelos instintos insaciados, agueados pelo gozo revelado, traída por eles, delatores impudicos e implacáveis. Através do corpo diáfano, penetrariam depois olhares da turba, compassivos ou rancorosos, devassando as peripécias e os destroços da secreta luta, e condenando a vítima, que não pudera vencer.

Luzia só se confessava culpada de haver perdido a energia inflexível, que a preservara até então, como invulnerável coiraça, sem a qual não tinha já integridade moral para resistir a si mesma, varrer do coração essa indelével imagem de homem, libertar-se do tormento de senti-la transfundida no seu ser, misturada com o seu sangue e os seus pensamentos. Ímpetos de rebeldia, assomos de reação esmoreciam na delícia de capitular, e sucumbir aniquilada. E se lhe figurava que toda a gente em derredor, amigos, indiferentes, adversários maliciosos, grandes e pequenos, testemunhavam os seus impotentes esforços, de passarinho fascinado pela cobra, a luta desigual, o prazer com que ela se deixava vencer, apoucada e débil.

O administrador da obra, seu protetor, percebera a transformação por que passara, designando-a para trabalhar com as costureiras.

(continua...)

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