Por Aluísio Azevedo (1880)
— Responde! Gritou asperamente Miguel, descarregando-lhe com força nos ombros os punhos impacientes e nervosos. Responde! E o obrigou a ficar sentado.
Responde!
— Nunca! atroou energicamente Maffei e ergueu-se de ímpeto!
Miguel, porém, em meio da resposta, rápido abarcara-lhe o pescoço, encravando-lhe pelas carnes as unhas doidas e assanhadas. Um ronco surdo e gutural fundiu-se confusamente na turbulência aguardentada do baile.
E o moço não desgarrava da vítima as unhas envenenadas pela cólera velha e sedenta de vingança, continuava a asfixiá-la.
Como uma lagarta no fogo o velho torcia-se, esforçando-se por gritar e erguer-se. Embalde! Miguel lograra pôr-lhe um joelho de bronze sobre o esôfago e, empregando com bruteza toda força do corpo, oprimia-o contra a pedra do banco.
Roxidão apoplética cobriu a cara e as unhas do pai de Rosalina; um suor abundante e úmido escorria-lhe da cabeça, inundando as mãos frenéticas do assassino.
E o roncar moribundo e bestial do velho, mal casado com o ranger dos dentes do moço, contrastava com a turbulência folgazã e sensual da dança, da embriaguez e do jogo, que além fermentavam nos salões do baile, como fermentam as larvas numa podridão.
Miguel, no fim de algum tempo, desgarrou saciado a presa e o cadáver do antigo pescador caiu-lhe pesado e retorcido aos pés, gosmando pelas ventas e por entre os dentes um muco grosso e esbranquiçado.
O moço contemplava-o sorrindo, alimpar tranqüilamente as mãos úmidas e pegajosas nas fraldas da sua blusa. Depois, abaixou-se e fitou satisfeito o corpo de Maffei, observando minuciosamente se estava bem morto, mexia-lhe com as pálpebras, passava-lhe os dedos no vítreo ensangüentado dos olhos e esbugalhavaos mais, puxava-lhe as barbas empastadas de gosma, mexia-lhe com a língua e afinal bem certo que estava morto escarrou-lhe com desprezo à cara e em seguida ergueu-se, empurrando-o desdenhosamente com o pé.
Isto feito, fugiu.
Ao chegar à rua, parou, tomou com ambas as mãos o peito e respirou livremente o ar da noite, como quem se livrasse de um peso horrível.
— Finalmente! disse ele e correu à tasca.
Sombra da Noite dormia. Acordou-o.
— Partamos, disse ele. — Para onde?
— Para qualquer parte.
E desapareceram.
CAPÍTULO XII
O baile continuava indiferente e animado.
A ausência de Maffei não se fizera sentir e só algum curioso observador dizia distraidamente:
— Oh! Maffei está hoje mais do que nunca concentrado!... Não há quem o
veja!...
E disso não passava.
Somente no dia seguinte, pela manhã é que o jardineiro, todo banhado em lágrimas, participara ter encontrado no jardim o cadáver do querido amo.
Houve grande alvoroço na casa e, tanto esta como a família do morto, se cobriram de luto. No dia seguinte os jornais de Nápoles noticiavam ter sucumbido o muito honesto e muito nobre proprietário da rua de Toledo, fulano de tal Maffei, vítima de uma congestão cerebral, que o acometera na véspera. Enterrado o cadáver não se falou mais em tal. Rosalina tratou de suspender, por algum tempo, os bailes e de substituir os teatros e passeios pelas palestras nos serões.
Daí nasceu um murmurar contra ela e o cavalheiro de bigodes pretos, se com ou sem razão, não sei; o que posso dizer e até afiançar é, que por várias vezes, houve quem o visse sair pela madrugada do andar inferior da casa cinzenta da rua de Toledo. Calúnias, talvez... inveja, com certeza!
Com o correr dos dias, foi o luto perdendo pouco a pouco a cor carregada, de sorte que no fim de um ano desaparecera inteiramente e com ele cansou a dor de doer e os olhos cansaram de fingir. E voltara a alegria, como volta a primavera, matizando de flores e risos os corações e os lábios.
Como um noivo passivo, o nobre visconde de Cenis gastava todos os serões em companhia da rica herdeira, e exteriormente já se tinha como resolvida o casamento dele com Rosalina.
Em breve a filha do pescador seria a excelentíssima senhora viscondessa de Cenis e o visconde seria o herdeiro legítimo dos bens do falecido Maffei.
Qual das duas partes faria melhor aquisição? Uma levava uns restos de homem a título de visconde e a outra um dote avultado e uma mulher prostituída. Estas ruindades fundidas deveriam dar um resultado satisfatório para ambos e talvez para a sociedade, que, em vendo dinheiro, faz como as crianças: fecha os olhos e abre a boca.
Entanto, quando o visconde se retirava da sala de honra, abria a noiva a porta privada da alcova, para o outro, que, se em verdade não era tão nobremente visconde, tinha, em compensação, um bom par de bigodes pretos, que valiam por um brasão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.