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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

No dia imediato, Raimundo deu um passeio ao Alto da Carneira; no outro dia foi até São Tiago; no outro percorreu a praça do Mercado; foi três ou quatro vezes ao Remédios; repetiu a visita aos pontos citados e — não tinha mais onde ir. Meteu-se em casa, disposto a cultivar as relações familiares do tio e visitá-las de vez em quando, para se distrair; mas, posto lhe repetissem com insistência que o Maranhão em uma província muito hospitaleira, como é de fato, reparava despeitado, que, sempre e por toda a parte, o recebiam constrangidos. Não lhe chegava as mãos um só convite para baile ou para simples sarau; cortavam muita vez a conversação, quando ele se aproximava; tinham escrúpulo em falar na sua presença de assuntos, aliás, inocentes e comuns; enfim - isolavam-no, e o infeliz, convencido de que era gratuitamente antipatizado por toda a província, sepultou-se no seu quarto e só saía para fazer exercício, ir a uma reunião pública, ou então quando algum dos seus negócios o chamava à rua. Todavia, uma circunstância o intrigava, e era que, se os chefes de família lhe fechavam a casa, as moças não lhe fechavam o coração; em sociedade o repeliam todas, isso e exato, mas em particular o chamavam para a alcova. Raimundo via-se provocado por várias damas, solteiras, casadas e viúvas, cuja leviandade chegava ao ponto de mandarem-lhe flores e recados, que ele fingia não receber, porque, no seu caráter educado, achava a coisa ridícula e tola. Muitos e muitos dias não se despregava do quarto, senão para comer ou, o que sucedia com freqüência, para ir à varanda dar dois dedos de palestra à prima.

Estes cavacos faziam-se pelo alto dia, a horas de mais calor, e, muita vez, também a noite, das sete às nove, durante o serão. O rapaz, sempre respeitoso, assentava-se, defronte da maquina em que Ana Rosa costa, e com um livro entre os dedos ou a rabiscar algum desenho, conversavam tranqüilamente, com grandes intervalos. As vezes dava lhe para pedir explicações sobre a costura; queria saber, com um interesse pueril e carinhoso, o modo de arrematar as bainhas, de tirar os alinhavos; outras vezes, distraídos, falavam de religião, política, literatura, e Raimundo, de bom humor, concordava em geral com tudo o que ela entendia, mas, quando lhe dava na cabeça, discordava, de manhoso, para que a menina se exaltasse, discorresse sobre o ponto, e ralhasse com ele, procurando, muito seria, chamá-lo a verdade religiosa, dizendo-lhe “que não fosse maçom e respeitasse a

Deus!”

Raimundo, que nunca, depois de homem, vivera na intimidade da família, dedicava-se com aquilo. D. Maria Bárbara, porem, vinha quase sempre quebrar com o seu mau gênio aquele remanso de felicidade. Em cada vez mais insuportável o diabo da velha! berrava horas inteiras tinha ataques de cólera; não podia passar muito tempo sem dar pancadas nos escravos. O rapaz, por diversas vezes, enterrara o chapéu na cabeça e saíra protestando mudar-se.

— Que carrasco! dizia a descer a quatro e quatro os degraus. Da bordoada por gosto! Diverte-se em fazer cantar o relho e a palmatória!

E aquele castigo bárbaro e covarde revoltava-o profundamente, punha-o triste, dava-lhe ímpetos de fazer um despropósito na casa alheia. “Estúpidos!” exclamava a sós, indignado. Mas, como a mudança não fosse tão fácil, contentava-se ele com o passar uma parte do dia no bilhar do único restaurante da província, não sem pena de abandonar as inocentes palestras da varanda.

Em breve criou fama de jogador e bêbado.

O fato era que, por tudo isto, lhe minava o espírito uma surda repugnância pela província e contra aquela maldita velha. Quando o estalo do chicote ou dos bolos rebentava no quintal ou na cozinha, Raimundo repelia a pena com que trabalhava no quarto.

— Lá está o diabo! Nem me deixa fazer nada! arre!

E saía furioso para o bilhar.

Ora, Ana Rosa, era também contra o castigo, e o procedimento da avó foi um pretexto para a sua primeira solidariedade de pontos de vista com o primo; os dois conversavam em voz baixa contra Maria Bárbara, e esta conspiração aproximava-os mais um do outro, unia-os. Mas um belo dia, em que o Benedito levou uma mela mais estrada, Raimundo chegou-se a Manuel e falou-lhe resolutamente em mudança. “Que sabia estava incomodando e não queria abusar. O Sr. Manuel que tivesse paciência e lhe arranjasse uma casinha mobiliada e um criado...”

— O que, homem!... protestou logo Manuel, a quem não convinha a mudança do seu hóspede antes de realizada a compra da fazenda. O doutor pensa que está na Europa ou no Rio?... Pois então casinhas mobiliadas e com criado, isto é lá coisa que se encontre por cá?... Ora deixe-se disso!

E, como o sobrinho insistisse, continuou declarando que semelhante exigência, sobre ser quase inexeqüível acarretava para ele, Manuel, certa odiosidade. “Que não diriam por ai?... Diriam que Raimundo fora tão maltratado pelos parentes de seu pai que preferira sepultar-se entre quatro paredes a ter de aturá-los!”

(continua...)

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