Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Eu sou o coronel Pinto Leite, vozeou o fantasma; e eis aí o autor das infames mofinas que há vinte anos me amarguram a existência! Esse miserável ex­caixeiro de taverna, covardemente me persegue desde o dia que lhe não consenti fazer parte de minha família, casando com uma de minhas filhas! Que aos dois nos julguem dentre vós os homens de bem! Quanto a mim, quero apenas apontar a hipocrisia deste monstro ao anátema social e estigmatizá­lo com o ferrete do meu ódio.

E o veterano caminhou para ele.

Era um estranho caminhar de estátuas. O chão parecia ir desabar debaixo dos seus pés de bronze. Caminhou majestosamente até à figura vulgar do comendador, que quedava estarrecido como sob o domínio de uma fascinação magnética, e soltou­lhe em cheio nas faces uma bofetada.

Houve então uma geral exclamação de protesto e de pasmo.

Moscoso voltou a si com o sangue que lhe subiu ao rosto e quis lançar­se contra o agressor, mas os amigos o agarraram e conduziram lá para dentro, consolando­o com a idéia de que ele tinha sido vitima de um louco.

O esbofeteado reclamava a prisão do insolente que o fora provocar no seu domicílio.

Mas não apareceu um braço que se erguesse contra a venerável figura do coronel. Abriram­lhe caminho. E, ao passar o seu vulto encanecido e todo trêmulo de comoção, abaixaram­se as frontes por um instintivo impulso de respeito.

Ele atravessou a sala com o passo firme e desapareceu.

Ao chegar à porta do jardim, parava na rua, urna carruagem, que vinha a toda desfilada.

Eram Gaspar e Gabriel saídos ao seu encontro.

Os dois apoderaram­se dele.

O velho, entretanto, sem poder dar uma palavra, encostou a cabeça no peito do filho, e soluçou desafrontadamente.

— Chore! chore, meu pai! Desabafe! dizia Gaspar.

E o velho soluçava.

— Sinto­me bem! exclamou este afinal. Sinto­me bem! Tirei um peso do coração! Desmascarei aquele canalha e dei­lhe uma bofetada! Ah, meus filhos! já posso morrer tranqüilo! Estou consolado!

Recolheram­se à casa. Contudo, o pobre homem não pregou olho senão pela manhã, tal era a sua excitação.

Daí a dois dias, apareceu no Jornal do Comércio um artigo, descrevendo minuciosamente o escândalo do baile do comendador. O escrito tinha frases bombásticas; elogiava ó procedimento do velho coronel e comparava o caráter do honrado militar com o tipo baixo e vil do comendador.

Esta publicação surpreendeu em extremo o coronel e os seus. Nenhum destes podia atinar quem seria o espontâneo autor de semelhante defesa.

O Moscoso, ao lê­la ficou possuído de uma cólera tremenda, e jurou vingar­se melhor do que ate aí.

Os artigos continuaram. Eram escritos pelo Melo Rosa. O esperto calculara uma engenhosa especulação para desfrutar ainda o comendador: Este, desde que encontrasse qualquer correspondência no Jornal a seu respeito, teria que responder, e havia de recorrer àquele. Assim sucedeu. O Rosa escrevia, contra e a favor, tanto do coronel, como do Moscoso.

A luta estava perfeitamente travada.

O coronel caía de surpresa em surpresa, e o Melo Rosa ia empalmando os cobres que lhe dava o comendador.

Afinal, um belo dia estando Pinto Leite em casa a conversa com o filho e Gabriel, foram interrompidos por um meirinho, que apresentou ao veterano uma citação em nome do comendador Moscoso.

O pai de Ambrosina comprara as dívidas do adversário, que montariam a uns dez contos de réis.

Foi sacrifício, mas o perverso não desdenhou arrostá­lo para dar pasto à sua vingança.

O coronel tinha de entrar com aquela quantia dentro de vinte e quatro horas.

— Onde iria ele de pronto, buscar esse dinheiro... E o pobre do coronel olhou abstratamente para o meirinho, depois para o filho, em seguida para Gabriel, e por fim escondeu o rosto nas mãos e ficou a cismar, completamente possuído pela sua perplexidade.

Gabriel, porém, apossou­se da intimação, e disse alegremente ao veterano.

— Não lhe dê isso cuidado, meu amigo. Lembre­se de que sou filho de Violante! O senhor pode perfeitamente pagar o triplo dessa importância, sem o menor constrangimento.

E, voltando­se para o meirinho, acrescentou com a voz calma e resoluta:

— Retire­se! O senhor coronel Pinto Leite entrará com o dinheiro.

E, antes de esgotado o prazo fatal, já o belo moço tinha com efeito pago as dívidas do benfeitor de sua mãe.

Mas, para liquidar a transação, foi­lhe necessário entender­se diretamente com o comendador Moscoso, que estava de cara à banda porque contava que o coronel nunca pudesse pagar as dívidas.

Gabriel, para dar caráter mais espetaculoso ao negócio, preferiu que o credor o recebesse em sua casa particular.

Moscoso marcou­lhe uma entrevista às sete horas da noite.

Gabriel apresentou­se. Veio recebê­lo Ambrosina.

— Como! pois V. Exa. é filha do comendador?

— É verdade, sou. Não sabia?

— Ignorava­o totalmente. Como tem passado?

— Bem. E o senhor?

— Eu... um pouco pior depois que sei o que acabo de saber...

— Ora, essa! por quê?...

— Ainda não lhe posso dizer a razão...

E os dois, que já se conheciam, olharam­se de um modo estranho.

XVI

A FORMOSA AMBROSINA

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3536373839...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →