Por Franklin Távora (1878)
Sempre que Saturnino pensava em sua condição obscura – a condição do cargueiro, do almocreve sem eira nem beira – não podia ser indiferente aos afetos de sua prima, a qual, quando por outra coisa não fosse, tinha o direito de aspirar, por seus belos olhos, a um casamento mais vantajoso. Bernardina porém não encaminhava seus pensamentos para o terreno árido e escabroso das condições sociais. Tinha amor a seu primo, e este amor apagava, no conceito dela, as diferenças pessoais e nivelava a sua condição e a de seu primo. O certo é que o alho que ela plantara ao pé do de sua irmã, amanheceu com o caule de fora e como pendoado; o nome que ouviu publicar no momento de se acender a fogueira, principiava pela letra inicial do de Saturnino. E para coroar as suas esperanças, achou o grão de arroz que ela meteu em um dos três pedaços em que dividira o bocado de feijão por ocasião do jantar, não no que tinha escondido na soleira da porta do fundo não no do meio, mas no da frente. Não havia pois que duvidar. S. João dizia que ela se casaria, não dai a três ou a dois anos, mas no próprio ano presente.
Seriam oito horas quando Joaquina começou a distribuir pelos hospedes, em tigelinhas de barro, a canjica saborosa.
Marianinha, esquecida do que lhe acontecera por ocasião de oferecer a Lourenço a cajuada, adiantou-se para o servir, corada e tremula. Deste vez não houve formal recusa como da outra: Lourenço recebeu a tigela e esvaziou-a em poucos instantes; mas, levantando-se imediatamente, pegou do chapéu, e encaminhando-se para a porta, disse:
Vou-me embora, minha gente. A festa está muito boa, mas vem muita chuva, e eu tenho ainda de levar minha mãe do engenho para o Cajueiro. Entrei para me recolher da neblina, e ia-me esquecendo da minha obrigação.
Ó xentes! Disseram do lado umas rapariguinhas das vizinhanças que tinham chegado minutos antes. Já vai tão cedo?
Que é isso, Lourenço? Perguntou Victorino colando-se em frente do rapaz, como quem queria embargar-lhe o passo. Estás gracejando, ou falas sério?
- Falo sério, seu Victorino. Vou-me embora.
- Ora, deixa-te disso. Hoje é noite de S. João.
- Por isso mesmo. Minha mãe está esperando por mim, e não é bonito que eu me deixe ficar aqui a divertirme quando ela está com os olhos no caminho para me ver chegar. E Francisco ainda não voltou da viagem a cidade?
Até eu sair para a vila, ela não tinha chegado. Mas prometeu que havia de vir comer conosco milho assado hoje de noite.
Pois então, se tens esta certeza, para que semelhante pressa? Assim que ele chegar, virá logo até cá.
- Ele não sabe que eu estou aqui.
- A comadre lhe há de dizer logo, e ele há de vir. Fica, rapaz. Precisamos de ti para cantares.
- Não posso, seu Victorino.
As filhas do almocreve, compreendendo o perigo em que se achavam, de perder tão boa perna para a folgança, como era Lourenço, espontaneamente uniram seus pedidos ao do pai.
- Fique, Lourenço, fique, disse Bernardina.
- Deixe-se de escusas, acrescentou Marianinha timidamente.
Estas e outras instancias e intervenções determinaram afinal o rapaz a mudar de resolução, e a satisfazer aos rogos gerais.
Tratou-se então de principiar logo o samba. Esta providencia era aconselhadas pelo interesse comum. Era o meio de prender os hospedes a casa. Além disso não faltava nada para começar a dança. Uma das primeiras violas do lugar – o Chico Pedro; uma das primeiras vozes – Lourenço; os melhores dançadores – Nicolau e Roberto, estavam todos ali. Não faltava aguardente, nem milho verde, nem bolos. As raparigas mostravam-se bem dispostas, e algumas até impacientes por verem formar-se a roda. A fogueira dava estalidos festivos. O tempo prometia limpar. O concurso dos convidados engrossava cada vez mais. Enfim, em menos de um quarto de hora, bateu o pinho, e rompeu o samba de gosto.
Lourenço, tendo tomado uma pouca da cana, temperou a guela e soltou sua grande voz ao pé do violeiro, enquanto Bernardina, Mariquinha, as filhas da Bernarda, os sobrinhos do velho Cosme, o Manoel João, o Jacinto da Luzia e muitos outros caiam na roda por sua vez, tripudiando, fazendo recortes e negaças com o corpo, atirando embigadas na forma do imemorial estilo.
O canto de Lourenço era monótono como o dos sambistas em geral, mas a letra variava e tinha as graças naturais das composições do povo.
Eis algumas das quadras com que o rapaz gratificou a companhia. Muitas delas ainda hoje em dia têm extensa voga entre os matutos de Pernambuco, aos quais as ouvi mais de uma vez, jornadeando, entre fins de novembro e princípios de dezembro, do Recife para Goiana nos meus tempos escolares. Elas pertencem exclusivamente ao povo, e eu aqui as dou com a exatidão com que as recebi da grande musa que as produziu.
Minha mulata, eu tenho
Vontade de te servir;
De dia falta-me o tempo,
De noite quero dormir.
Vou-me embora, vou-me embora
Para minha terra vou;
Se eu aqui não sou querido,
Lá na minha terra sou.
Quando eu me for não choreis,
Que são penas que me dais;
Deixai o chorar prá mim,
Que eu me vou, não venho mais.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.