Por Bernardo Guimarães (1872)
– Que disfarce, sr. Eduardo! para que quer enganar-me?... bem se está vendo por esse seu ar triste, por suas meias palavras, que não há para nós esperança de felicidade. Que lhe dizia eu, sr. Eduardo?
Paulina, que meio sentada tinha a cabeça encostada à cabeceira do catre, deixou-a cair tristemente sobre o peito.
– Não quero enganá-la, não d. Paulina; por quem é, não desanime assim. Seu primo ficou muito agastado, é verdade; era isso muito natural naquele primeiro choque, que tanto o devia magoar... decerto mais tarde, refletindo friamente...
– Qual!... nunca! nunca!... é impossível!... interrompeu a moça abanando tristemente a cabeça. Eu conheço-o muito... desde criança; é mais fácil morrer do que consentir que eu me case com outro. Que loucura a daquele pobre primo! não vê que não encontrará mais do que um cadáver? Fuja, senhor Eduardo; suma-se da minha presença! eu sou dele. Cumpra o seu juramento. Eu também jurei... não vê este beijo na face... ainda me está ardendo como brasa... isto é mais que um juramento...
Um vivo rubor despontava nas faces de Paulina; seus olhos desvairados se incendiavam de um fulgor estranho, e o sorriso pálido da insânia lhe vagueava pelos lábios. Era um novo acesso da febre e do delírio, que se anunciava. Eduardo consternado e pálido de susto, em vão procurou palavras para acalmá-la; chamou Ribeiro e o padre, que estavam num compartimento vizinho, e saiu com o coração esmagado de dor e desalento.
Seriam três horas da tarde, quando se manifestou em Paulina esse novo acesso de delírio, que durou até a noite. Com a noite porém acalmouse, e Paulina conversou placidamente com seu pai, com o padre e com Eduardo. Parecia reanimada; mostrou-se tão tranqüila e arrazoada; sua conversação foi tão cheia de senso e lucidez, que a todos encheu de esperanças. Assim esteve até perto da meia-noite conversando sossegada e distraída sem o mais leve indício de outro sofrimento que não fosse a nímia fraqueza. O resto da noite, ao que pareceu, passou-a tranqüilamente adormecida.
Quando Paulina acordou era já dia. Mandou chamar seu pai, o padre e Eduardo. Logo que chegaram, perguntou se podia abrir a janela do seu quarto, pois estava com saudade do ar e da luz.
– Sem dúvida nenhuma, – respondeu o padre, – visto que não há vento, e o ar não está úmido nem frio; é mesmo conveniente renovar-se o ar deste quarto.
Estava uma manhã esplêndida. A janela do quarto de Paulina dava para o seu jardim, desse jardim, que outrora, em tempos mais felizes, ela cultivava com suas próprias mãos e que era o enlevo da sua solidão.
A bafagem de ar que entrou pela janela, inundou o quarto de um delicioso perfume de jasmins e flores de laranjeira. Uma chusma de passarinhos esvoaçava e trinava pelos ramos florescidos do pomar; os colibris verdes cruzavam-se zumbindo pelos ares, lindas borboletas entravam e saíam volteando pelo quarto, e por baixo mesmo da janela, pousada sobre uma romeira ressonava uma suavíssima e festiva orquestra de pintassilgos. O ar estava tépido e sereno, e o céu de um esplendor e limpidez maravilhosa.
Paulina estava plácida e calma, mas em tal palidez e imobilidade, que mais parecia uma estátua de alabastro. Pouco a pouco porém ao contato daquele ar puro e embalsamado, daquela luz suave, suas feições foram-se reanimando, um leve matiz de rosa assomou-lhe às faces, seus olhos encheram-se de um meigo fulgor, e denunciavam que uma alma vivificava ainda aquele formoso e delicado corpo. Apesar da sua prostração, no rosto de Paulina transluzia um bem-estar, uma serenidade angélica; seus seios arfavam brandamente, um meio sorriso da mais suave expressão estava fixo em seus lábios, e sobre a fronte parecia que lhe pairava um reflexo da bemaventurança.
Parecia reinar naquele aposento um não sei quê de místico e beatífico, um eflúvio celestial que todos aspiravam em santo e silencioso recolhimento. Eduardo, sobretudo, cheio de emoção, de amor e de esperança, contemplava em adoração o rosto de Paulina, e julgava-se transportado ao paraíso.
O silêncio, que há alguns instantes reinava naquele aposento, como em um santuário, teria durado ainda mais longo tempo, se não viesse quebrá-lo bruscamente um pajem, que entrou aceleradamente no quarto, e entregou uma carta a Joaquim Ribeiro. Este no mesmo instante abriu-a sem refletir, que ia excitar a curiosidade de Paulina, e que a carta que vinha da fazenda do pai de Roberto, podia conter uma má nova. Dentro dela vinha outra carta dirigida a Eduardo, que Ribeiro imediatamente lhe entregou.
Ribeiro passou rápida e silenciosamente os olhos pela carta que lhe era dirigida; o seu conteúdo era o seguinte:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.