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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Jamais poderia viver longe da sociedade, retirado desse mundo elegante que era sua pátria e berço de sua alma. As naturezas superiores obedecem a uma força recôndita. É a predestinação. Uns a têm para a glória, outros para o dinheiro; a dele era essa, a galanteria. 

Algumas vezes, Seixas, receando pela saúde exposta sem repouso à ação de hábitos pouco higiênicos, sob a influência de um clima enervador, ia à fazenda de um amigo em Campos com tenção de passar por lá dois meses, em completa vegetação, acordando-se com o sol e recolhendo-se com ele. 

Se era na estação da festa e haviam lá pela roça bailes e partidas, que arremedavam a vida da corte, demorava-se uns quinze dias: o tempo de compor com alguma espirituosa fazendeirinha um gentil romance pastoril que terminava com algumas estâncias gênero Lamartine. 

Quando, porém, a fazenda estava sossegada e na doce monotonia dos labores rurais, Fernando entregava-se ao que ele chamava a vida campestre, com um ardor infatigável. Erguia-se ao romper da alva, ia ao banho, corria as plantações, e voltada para o almoço com um feixe de parasitas, orquídeas e bromélias. Na força da soalheira andava pelas fábricas a ver despolpar o café, ou fazer o fubá. 

Durava este entusiasmo campesino três dias. No quarto Fernando achava um pretexto qualquer para a volta precipitada, e antes de uma semana estava restituído à corte. A primeira noite de baile ou partida, era uma ressurreição. 

De um homem assim organizado com a molécula do luxo e do galanteio, não se podia esperar o sacrifício enorme de renunciar à vida elegante. Excedia isso a suas forças; era uma aberração de sua natureza. Mais fácil fora renunciar a vida na flor da mocidade, quando tudo lhe sorria, do que sujeitar-se a esse suicídio moral, a esse aniquilamento do eu. 

Quando Seixas convenceu-se que não podia casar com Aurélia, revoltou-se contra si próprio. Não se perdoava a imprudência de apaixonar-se por uma moça pobre a quase órfã, imprudência, a que pusera remate o pedido de casamento. O rompimento deste enlace irrefletido era para ele uma coisa irremediável, fatal; mas o seu procedimento o indignava. 

Havia nessa contradição da consciência de Seixas com a sua vontade uma anomalia psicológica, da qual não são raros os exemplos na sociedade atual. O falseamento de certos princípios da moral, dissimulado pela educação e conveniências sociais, vai criando esses aleijões de homens de bem. 

Quem não conhece o livro em que Otávio Feuillet glorificou sob o título de honra as últimas hesitações de uma alma profundamente corrompida? 

Seixas estava muito longe de ser um Camors; mas já nele começava o embotamento do senso moral, que o influxo de uma civilização adiantada, e no seio de uma sociedade corroída como a de Paris, acaba por abordar aqueles monstros. 

Para o leão fluminense, mentir a uma senhora, insinuar-lhe uma esperança de casamento, trair um amigo, seduzir-lhe a mulher, eram passes de um jogo social, permitidos pelo código da vida elegante. A moral inventada para uso dos colégios, nada tinha que ver com as distrações da gente do tom. 

Faltar porém à palavra dada; retirar sem motivo uma promessa formal de casamento, era no conceito de Seixas, ato que desvairava um cavalheiro. No caso especial em que se achava, essa quebra de palavra tornava-se ainda mais grave. 

Aurélia não tinha outro arrimo senão a mãe, consumida pela enfermidade que pouco tempo de vida lhe deixava. Faltando D. Emília, ficaria a filha órfã, sem abrigo, ao desamparo. Abandonar nessas tristes condições uma pobre moça, tida por sua noiva, seria dar escândalo. 

Independente da reprovação que o fato receberia de seu círculo, a própria consciência lhe advertia da irregularidade desse proceder, que ele não julgava qualificar severamente tachando-o de desleal. 

Estas apreensões abateram o ânimo igual e prazenteiro de Seixas. Não perdeu o semblante a expressão afável, que era como a flor da nobre e inteligente fisionomia; nem apagou-se nos lábios o sorriso que parecia molde da palavra persuasiva; mas sob essa jovialidade de aparato flutuava a sombra de uma tristeza, que devia ser profunda, pois se fixara nessa natureza volúvel e descuidosa. 

Aurélia percebeu imediatamente a mudança que se havia operado em seu noivo, e inquiriu do motivo. Fernando disfarçou; a moça não insistiu; e até pareceu esquecer a sua observação. 

Uma noite porém em que Seixas se mostrara mais preocupado, na despedida ela disse-lhe: 

- A sua promessa de casamento o está afligindo, Fernando; eu lha restituo. A mim basta-me o seu amor, já lho disse uma vez; desde que mo deu, não lhe pedi nada mais. 

Fernando opôs às palavras de Aurélia frouxa negativa, e formulou uma pergunta cuja intenção a moça não alcançou. 

- Julga você, Aurélia, que uma moça pode amar a um homem, a quem não espera unir-se? 

- A prova é que o amo, respondeu a moça com candura. 

- E o mundo? Proferiu Seixas com reticências no olhar. 

(continua...)

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