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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Por quê?...repetiu Guida a sorrir. O caminho do Jardim é melhor para galopar.

- Travessa! disse D. Paulina com bondade. 

- Gosta muito de andar a cavalo? perguntou o advogado. 

- Muito! É minha paixão!... 

Ao exíguo visconde, sumido atrás do enorme peru, não escapavam as várias impressões que se manifestavam na fisionomia do banquete, sob o ruído da conversa banal travada de uma à outra ponta da mesa, e acompanhada do tinir dos cristais e ranger dos talheres. 

“O prato é o homem”; tradução livre do axioma de Brillat-Savarin: “Dis-moi ce que tu manges, je te diirai ce que tu es”. Diante do visconde erguia-se um coculo de iguarias; mas era um cúmulo usurário e avarento; compunha-se de uma nica de cada coisa. Servia-se do primeiro ao último dos acepipes; mas só tirava o juro: uns magros 3%. 

Com dois daqueles pratos enciclopédicos, estava jantado. 

Nesse momento comia ele rapidamente, resmoendo com um dos tais bocados esta palavra, que lhe restava a fazer cócegas nos lábios: 

- Que álgebra!... Que álgebra!... 

Na linguagem peculiar do visconde “álgebra” significava uma dessas operações intrincadas de juros acumulados e múltiplos, inseridos em cláusulas aleatórias e onzeneiras, que fulminam o mísero caído nas garras de um capitalista mitrado. 

Notara o modo atencioso com que o Soares, depois da sutil advertência da filha, tratara a Ricardo; também a fineza de o colocarem à direita de D. Paulina; e por último o gesto sério e meigo com que lhe falava a Guida, para os outros sempre desdenhosa com o remoque a frisar-lhe o lábio. 

Lobrigou nesse concurso de circunstâncias um plano de casamento, que, bem conduzido, podia ao cabo de um ano tornar Ricardo o feliz possuidor de um dote milionário, com o acessório de uma galante pequena. 

E o capitalista, que houvesse fornecido ao noivo em projeto os fundos necessários para sustentar a posição, poderia retirar da operação um lucro prodigioso. 

No meio deste monólogo que reproduzimos sem o sainete de seu estilo financeiro, o visconde começou a calcular, como se fossem algarismos, os grãos de ervilha que espetava no garfo: 

- Vamos ver: 500$ por mês, para o patife lordear por aí e meter num chinelo a rapaziada da rua do Ouvidor; em um ano, temos 6:000$, dois anos que digamos, 12:000$. Para o alfaiate, charutos, carro e o diabo, ponhamos 8:000$, sem falar dos calotes que ele há de pregar à grande. Aí temos 20:000$. Com um juro magro, de 3%, acumulado de mês em mês, vai ficar-me o tal boneco um tanto salgadete. Mas pode render uns duzentos contecos... Nesse ponto o visconde foi interrompido por um incidente. 

O Dr. Nogueira observava o enlevo de D. Guilhermina a escutar os floreios que Fábio murmurava-lhe a meio tom; derreando-se no encosto da cadeira, passou por fora da mesa ao Bastos, colocado três lugares mais longe, uma observação maliciosa. 

O Guimarães que de passagem apanhara o dito, percebendo pelo riso do Bastos que havia espírito, assentou de aproveitá-lo. 

- Meus senhores, uma novidade! 

- A firma Barros e Cia vai admitir um sócio de indústria, gritou repetindo textualmente e dito do Nogueira. Felizmente poucos lhe davam atenção; mas nestes o pasmo foi geral. Percebendo pelo espanto quanto era crespa a graça, o Guimarães tratou logo de tirar de si a responsabilidade. 

- Foi o Dr. Nogueira que disse! 

- Não costumo falar por procurador, meu caro! acudiu o candidato, carregando na palavra. 

O Guimarães, que se envergonhava da profissão do pai, amoitou-se, remexendo-se na cadeira. 

 

XIV 

 

Que luzida companhia desfila pela estrada do Jardim? 

Assim é conhecido o caminho que serpeja pelas encostas da serra da Tijuca, e contornando a base da montanha desde a Cruz, no alto da Boa Vista, vai morrer das praias de Copacabana. 

Cerca de dez cavaleiros, entre os quais elegantes amazonas, baralham-se na marcha ligeira e trote dos fogosos cavalos, soltando à brisa da manhã e aos ecos das quebradas, exclamações de prazer, réplicas joviais, e o saboroso riso da alegria descuidosa. 

A uma quadra de distância aparecia outro pequeno grupo, do qual cavaleiros e cavalgaduras faziam com o primeiro absoluto contraste. 

Era figura proeminente nele Mrs. Trowshy, flanqueada à direita pelo visconde da Aljuba, e à esquerda pelo Sr. Benício, um dos mais assíduos comensais da casa do comendador. Seguia-os à cola o Sr. Daniel, como sempre metido naquele sério e empertigado, que lhe servia de estojo. 

Os quatro iam montados em mulas baias, que no mais cadente chouto os chocalhava dentro das roupas e da pele, como sacos metidos em bruacas. Por vezes Mrs. Trowshy, amiga da palestra, buscou travar conversa com o visconde; mas a voz, já prestes a sair da boca aberta, com o solavanco afundou-se-lhe pela garganta abaixo; e não houve meio de tirar senão um gorgotão. 

(continua...)

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